
Lula diz que Congresso vive pior fase da história e pede atenção nas eleições de 2026 – Foto: Reprodução
Durante um evento público ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou críticas ao atual Congresso Nacional. Em tom contundente, Lula afirmou que o nível do Congresso está abaixo do esperado e foi além, ao dizer que a extrema-direita eleita nas últimas eleições representa “o que existe de pior” na política brasileira.
A declaração gerou reações imediatas no meio político. Para Lula, a atuação do Legislativo tem sido marcada por retrocessos e projetos desconectados das reais necessidades do povo. Sem citar nomes específicos, o presidente indicou que há uma falta de compromisso com o país, especialmente por parte de parlamentares ligados à base bolsonarista e ao chamado Centrão.
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Apesar da presença de Hugo Motta ao seu lado, Lula não amenizou o tom: “O nível do Congresso está muito aquém do que o Brasil precisa. E a extrema-direita que se elegeu na eleição passada é o que existe de pior“, disparou o presidente.
A fala dividiu opiniões entre os parlamentares. A deputada Bia Kicis (PL), aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, classificou a fala de Lula como “uma afronta” e “um absurdo”. “Hugo foi muito educado… Ele deveria ter se levantado e dado uma resposta à altura”, afirmou a deputada.
Já a deputada Tabata Amaral (PSB) saiu em defesa de Lula, dizendo que o presidente apenas verbalizou o que muitos brasileiros já percebem: “Infelizmente, o nível do Congresso Nacional realmente está muito ruim. Quem diz isso é a população, nas ruas e nas pesquisas”, afirmou. Ela também criticou projetos considerados “absurdos”, como a PEC da Blindagem e o aumento do número de deputados.
A tensão aumentou durante o debate, com críticas cruzadas. Bia Kicis voltou a atacar o PT, relembrando os escândalos do Mensalão e do Petrolão, e acusou Lula de tentar jogar a responsabilidade sobre a oposição: “Nunca houve tanta corrupção quanto com o PT”, disse. Para ela, culpar o bolsonarismo pelo baixo nível do Congresso é “uma piada”.
Ao ser questionada sobre se as declarações de Lula poderiam acirrar a crise entre Executivo e Legislativo, Tabata rebateu: “O que acirra os ânimos é quando a Câmara derruba medidas que taxam os mais ricos e buscam justiça fiscal”, disse, referindo-se à rejeição da medida provisória que alterava o IOF e arrecadaria cerca de R$ 17 bilhões em 2026.
“Vamos retomar a confiança da população no Congresso no dia em que ele pautar o que interessa ao povo”, concluiu Tabata.
Em resposta, Bia Kicis acusou o governo de tentar enganar a população: “Mentiras é que acirram os ânimos. Essa MP aumentaria impostos para todos os brasileiros”, afirmou. Para ela, o Congresso perdeu protagonismo, sendo hoje comandado pelo STF e pelo presidente Lula: “Hoje quem governa é o Supremo com Lula ao lado”, criticou.
Observação crítica
As declarações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feitas durante um evento público ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, expõem não apenas um grave descompasso institucional, mas também revelam uma retórica perigosa, que alimenta a polarização e deslegitima um dos pilares da democracia: o Parlamento.
Ao afirmar que o nível do Congresso está “muito aquém do que o Brasil precisa” e que a extrema-direita eleita representa “o que existe de pior”, Lula ultrapassa a crítica legítima e mergulha em um ataque generalizante, carregado de desprezo institucional. É inegável que o Congresso possui falhas, que há retrocessos legislativos e representantes alheios aos anseios populares — isso, no entanto, não justifica a desqualificação de todo um segmento político com frases de efeito que inflamam as tensões e desprezam os votos de milhões de brasileiros.
O presidente da República não pode — e não deve — se comportar como um comentarista político ou militante de palanque. Ele é o chefe de Estado, responsável por garantir o equilíbrio e o diálogo entre os poderes. Ao insultar uma parcela expressiva do Legislativo, especialmente sem nomear ou discutir projetos específicos, Lula não constrói pontes, mas ergue muros. E pior: contribui para a desconfiança popular nas instituições, algo que deveria combater.
Além disso, a crítica genérica à “extrema-direita” serve mais como cortina de fumaça do que como diagnóstico preciso. Ao mirar no bolsonarismo, Lula desvia a atenção de impasses causados pela própria base governista, que frequentemente se alinha ao Centrão e reproduz a mesma lógica fisiológica que o presidente diz combater.
A fala é, no mínimo, contraditória: Lula reclama do nível do Congresso enquanto depende da articulação de figuras do Centrão para aprovar suas pautas. Critica a atuação legislativa, mas se alia a partidos que têm se beneficiado do orçamento secreto, das emendas de relator e de práticas igualmente danosas ao interesse público.
Por fim, seu discurso ajuda a acirrar o clima de confronto entre os Poderes, justamente num momento em que o país precisa de estabilidade, responsabilidade institucional e união para enfrentar desafios sociais, econômicos e ambientais. O Brasil não pode ser refém de embates verbais entre lideranças que deveriam estar focadas em soluções concretas, e não em disputas ideológicas estéreis.
Lula, com sua longa trajetória política, sabe o peso de suas palavras. Usá-las para rotular adversários e minar a credibilidade do Congresso pode render aplausos de sua militância, mas custa caro à democracia. É preciso menos palanque e mais responsabilidade.
