“Deus”, ‘fé’ e ‘milagre’: há vários meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem multiplicando as referências à religião em seus discursos, publica o diário francês no início do texto, lembrando que em 16 de setembro, o chefe de Estado brasileiro instituiu o “Dia do Pastor Evangélico” e, um mês depois, em 15 de outubro, o “Dia Nacional da Música Gospel”. Le Monde cita a imprensa brasileira para especular sobre o fato de Lula também estar considerando a possibilidade de nomear um evangélico para o governo, em uma reforma ministerial que ele planejaria para 2025.

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva – Foto de arquivo © Adriano Machado/Reuters
“Embora seja católico, Lula não se converteu ao evangelismo: essas medidas fazem parte de uma estratégia política”, explica o jornal Le Monde, contextualizando que essas comunidades, que representam um terço da população brasileira, de acordo com um estudo de 2020 do instituto Datafolha, são esmagadoramente a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Le Monde lembra ainda que no período que antecedeu as eleições municipais de outubro, o Partido dos Trabalhadores elaborou um manual com instruções para candidatos e ativistas do partido sobre como “dialogar” com os evangélicos, desencorajando, por exemplo, tratar todos os crentes como “fundamentalistas”.
“Para os líderes religiosos, o presidente Lula ‘deveria dialogar mais com as pequenas e médias igrejas’ para promover seu histórico social entre a “base” evangélica”, publica o vespertino francês.
Le Monde entrevistou também Sergio Dusilek, pastor evangélico critico de Bolsonaro, aponta que as políticas governamentais de Lula, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, são particularmente benéficas para os evangélicos e lembra ainda que de acordo com uma pesquisa de 2020 do instituto Datafolha, 48% dos evangélicos ganham menos de R$ 2.640 reais por mês.
Na lista dos nomes avaliados no Planalto para ocupar uma vaga no primeiro escalão estão a senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e a deputada Benedita da Silva (PT-RJ). A petista já foi ministra de Assistência e Promoção Social de 2003 a 2004, no primeiro mandato de Lula. Agora, um dos ministérios na mira dos evangélicos é o do Desenvolvimento Social, que abriga o programa Bolsa Família – vitrine do governo – e hoje está nas mãos do senador licenciado Wellington Dias (PT).

Na cerimônia no Palácio do Planalto, o deputado Otoni de Paula, orou por Lula. Parlamentar ressaltou que o presidente era acusado de querer fechar igrejas – Foto: Ricardo Stuckert/PR
Apesar desta perspectiva, o presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Silas Câmara (Republicanos-AM), disse não ter qualquer compromisso com o Planalto. “O que existe hoje é um diálogo normal. Mas conversar só não adianta. O governo precisa mudar suas atitudes”, afirmou ele.
Para o deputado, resoluções sobre educação infantil e nota técnica sobre aborto legal, ainda que derrubadas, indicam haver áreas do governo que trabalham “desconectadas” com o desejo manifestado por Lula de se aproximar dos evangélicos.
“Essas pessoas não devem atribuir a Deus a melhoria de suas condições de vida”, diz o pastor, entrevistado por Le Monde.
Nas eleições anteriores, Bolsonaro liderava as intenções de voto entre os evangélicos. Segundo a pesquisa, o presidente teria 49% contra 32% de Lula, 17 pontos de diferença.
