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COP30 transforma Belém na capital mundial do clima, mas ausência dos EUA gera desconforto diplomático

Pela primeira vez sediada na Amazônia, conferência reúne líderes de 194 países para discutir transição energética e metas de neutralidade de carbono até 2050. Falta de representantes de alto escalão dos EUA é vista como um revés nas negociações.


Belém, no Pará, tornou-se nesta segunda-feira (10) a capital temporária do Brasil — e também o epicentro das discussões globais sobre o futuro do planeta – Foto: Raphael Luz/Ag. Pará

Belém, no Pará, sedia, até o dia 21 de novembro, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), evento que reúne 194 países e a União Europeia para debater medidas de mitigação, adaptação e financiamento climático.

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É a primeira vez que a COP acontece na Amazônia, região considerada o “pulmão do mundo” e essencial para o equilíbrio climático global. Mais de 50 mil visitantes são esperados, entre chefes de Estado, diplomatas, cientistas, representantes da sociedade civil e movimentos ambientais.

Lula pede ação global e defende energia limpa

Durante a abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou o apelo para que os países assumam compromissos práticos no combate à crise climática. Lula destacou que o planeta está “no limite” e que a transição energética precisa deixar de ser promessa para se tornar política de Estado.

O presidente Luis Inácio Lula da Silva na cúpula dos líderes da COP30 em Belém – Foto: Alex Ferro

O presidente defendeu a redução urgente do uso de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, e a ampliação do investimento em energias renováveis — como solar, eólica e hidrelétrica. “Não há mais tempo a perder. O mundo precisa agir agora”, disse.

Apesar do entusiasmo brasileiro, a ausência dos Estados Unidos — um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta — gerou desconforto diplomático entre os negociadores. Nenhum representante de alto escalão da Casa Branca compareceu à abertura da conferência, o que foi interpretado como falta de prioridade climática por parte de Washington, em um momento considerado decisivo para o futuro das metas globais.

Antes da COP30, comissão aprovou MP que prorroga térmicas a carvão até 2040

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) continua apoiando a continuidade da geração de energia a carvão no Brasil.  Recentemente, como relator da Medida Provisória (MP) 1304/2025, que trata da reestruturação do setor elétrico, Braga incluiu emendas que garantem a operação de termelétricas a carvão por mais 15 anos (até 2040) e autorizam sua participação em leilões de energia. 
Essas ações indicam um posicionamento favorável à manutenção dessa fonte de energia fóssil, o que tem gerado críticas de setores que defendem a transição para fontes renováveis e a descarbonização da matriz energética brasileira. 

Precisamos reduzir urgentemente o uso de combustíveis fósseis como petróleo e carvão, mas o Brasil vai na contramão – Foto: Reprodução

Governo Trump não terá nenhum representante oficial na COP30 Amazônia

A principal ausência desta edição da COP é a dos Estados Unidos, que não enviaram nenhum representante oficial para participar das discussões sobre clima e meio ambiente. A decisão gerou forte repercussão diplomática e foi vista como um retrocesso no debate global sobre o aquecimento do planeta.

O presidente americano, Donald Trump, conhecido por negar publicamente as mudanças climáticas, voltou a gerar polêmica nas redes sociais ao afirmar que “uma rodovia foi construída no meio da mata amazônica para ligar até a conferência do clima” — informação desmentida pelo governo do Pará.

Presidente americano, Donald Trump – Foto: REUTERS/Kent Nishimura

Trump também não compareceu à Cúpula de Líderes, realizada em Belém na semana anterior à COP30, que reuniu chefes de Estado e de governo de cerca de 70 países.

Havia expectativa de que a Argentina, comandada por Javier Milei, seguisse a mesma postura e se ausentasse do evento, mas o governo argentino confirmou o envio de representantes de segundo escalão, garantindo presença simbólica nas negociações.

Brasil lidera transição energética no G20

O Brasil se destaca mundialmente na transição energética, especialmente pela produção de energia eólica concentrada no Nordeste. O país conta hoje com 568 parques eólicos e 14,34 gigawatts (GW) de capacidade instalada – Foto: Reprodução 

O Brasil é destaque positivo no cenário da transição energética. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, 48% da matriz energética brasileira é renovável, índice três vezes superior à média mundial, que é de 15%.

O país também se mantém à frente no uso de biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, e tem exportado conhecimento técnico para outras nações. Um exemplo é a Índia, que, com apoio de especialistas brasileiros, vem ampliando sua produção e uso de etanol e pretende alcançar 500 gigawatts de capacidade de energia não fóssil até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia.

Ranking da organização EMBER, que monitora a transição para energia limpa, coloca o Brasil como líder em energia sustentável entre os países do G20, à frente de Canadá, Alemanha e Reino Unido.

ONU alerta: “Estamos lutando contra o tempo”

Uma das boas fontes de energia conta com a radiação solar captada pelos painéis e isso gera uma corrente contínua. Assim, um inversor é quem faz o processo de convertê-la em corrente alternada – Foto: Reprodução

Relatórios recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e da Agência Internacional de Energia (AIE) alertam para a urgência da ação global. O setor energético ainda é responsável por 75% das emissões de gases do efeito estufa, e o mundo precisa zerar essas emissões até 2050 para evitar o ponto de não retorno climático.

De acordo com a AIE, até 2035 o planeta precisará adicionar, todos os anos, o equivalente à demanda elétrica do Japão — cerca de 900 terawatts-hora — em novas fontes de energia limpa.

A China também aparece como peça-chave na transição. Apesar de ainda liderar as emissões globais, o país adicionou quase 350 gigawatts de energia renovável em 2023, dois terços de toda a nova capacidade instalada no mundo naquele ano.

Belém: o ponto de encontro entre o rio e o oceano

Belém, é apresentada como um símbolo de reconexão entre humanidade e natureza, “onde o rio encontra o oceano: onde a humanidade recomeça”, escreveu André Corrêa do Lago, presidente da COP30 – Foto: Reprodução

Em sua décima e última carta à comunidade internacional, divulgada na véspera da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, descreveu Belém como um símbolo de reconexão entre humanidade e natureza.

“Com esta décima carta, concluo um ciclo de palavras para que o mundo abra um ciclo de ação; estamos quase lá”, escreveu. O diplomata afirmou ainda que a COP30 deve ser vista não apenas como um fórum de negociação, mas como um “laboratório de soluções”, capaz de unir ciência, política e sociedade em torno de um mesmo propósito: garantir um futuro habitável para o planeta.

Com o olhar do mundo voltado para a Amazônia, a COP30 representa mais do que um encontro político: é um chamado à ação. Belém se torna, por alguns dias, o palco de um debate que ultrapassa fronteiras e ideologias — um debate que pode definir se o planeta ainda terá tempo de se reinventar diante da crise climática.