
Luis Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos – Foto: Arquivo do DOPS
Na manhã de 19 de abril de 1980, duas veraneios C14 com oito agentes armados estacionaram em frente à casa de Luiz Inácio da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, na Grande São Paulo. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional por promover greve e incitar publicamente à “subversão da ordem político-social” (conforme os artigos 32 e 33 do decreto-lei 314 de 1967), Lula permaneceu 31 dias detido no Dops de São Paulo com outros dirigentes sindicais.
Nesse período, perdeu a mãe, Dona Lindu, fez greve de fome a contragosto e comeu lula a dorê servida pelo delegado Romeu Tuma. Dona Marisa liderou uma grande caminhada de mulheres pelo centro de São Bernardo, Dom Paulo Evaristo Arns celebrou missa na Sé em apoio aos presos e Chico Buarque gravou um compacto com a música “Linha de Montagem” e doou os direitos autorais de autor e intérprete para o fundo de greve. Os detalhes daquelas semanas de abril e maio estão narrados em um dos capítulos do livro “Marisa Letícia Lula da Silva”, que lancei em fevereiro pela Alameda Casa Editorial.
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Anistia em 1980
Entre os beneficiados, que teriam cometido crimes políticos ou por motivação política entre setembro de 1961 e agosto de 1979, estão os que tiveram direitos políticos suspensos e representantes sindicais punidos pela legislação do regime militar – Lula foi preso no ano seguinte, em 1980, por liderar uma greve.
A anistia, em busca de apaziguar as tensões, também poupou militares que, no exercício de suas funções de segurança nacional, atentaram contra a vida de acusados de crimes políticos. Isso significou o perdão aos policiais e militares que praticaram tortura, assassinatos, prisões ilegais e outros crimes contra militantes políticos considerados subversivos durante o período.
O Debate Atual: A Anistia a Bolsonaro
Nos últimos meses, a discussão sobre a concessão de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados ganhou destaque, especialmente após sua condenação no Supremo Tribunal Federal (STF). Essa pauta, que envolveu desde a tentativa de golpe até os ataques à sede dos Poderes em 8 de janeiro de 2023, remete a uma prática recorrente na história brasileira: o uso da anistia como instrumento de governabilidade e acomodação política. Ao longo dos anos, diversas tentativas de golpe e transições políticas no Brasil passaram pela questão da anistia, refletindo o contexto de cada época.
No Brasil atual, a concessão de anistia a Bolsonaro gerou intensos debates. Defensores argumentam que ela poderia aliviar tensões políticas e permitir que o ex-presidente, uma figura popular, voltasse a concorrer nas urnas. Por outro lado, opositores afirmam que isso seria um incentivo a novos ataques à democracia e uma violação da Constituição, que proíbe perdões para crimes contra o Estado Democrático de Direito.

Em abril de 2025, Bolsonaro discursa em cima de carro de som que pede ‘anistia já’ – Foto: Reprodução
Pesquisas recentes, como o levantamento do Datafolha, apontam que a maioria da população brasileira se opõe à ideia de perdoar Bolsonaro, com 54% contrários à anistia, enquanto apenas 39% apoiam.
A Anistia no Contexto Global
A prática da anistia não é exclusividade do Brasil. Em outros países latino-americanos, como Argentina, Chile e Uruguai, o processo de anistia foi adotado durante a transição de regimes autoritários para democracias, mas também gerou críticas por não ter promovido uma verdadeira reparação ou justiça para as vítimas.
A Anistia no Brasil ao Longo da História
A História das Anistias no Brasil e Suas Repercussões
Ao longo da história do Brasil, as anistias desempenharam um papel crucial na governabilidade e na estabilização política, mas também geraram controvérsias, muitas vezes relacionadas à falta de justiça para as vítimas de abusos e crimes. Desde os primeiros perdões concedidos durante o Império até as discussões mais recentes sobre anistia para os envolvidos em ataques antidemocráticos, o Brasil tem um histórico de perdão que muitas vezes foi seletivo e instrumentalizado politicamente.
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1824 – Império do Brasil e o Perdão Imperial
A Constituição de 1824 conferia amplos poderes ao imperador, e a anistia era vista mais como um gesto de clemência do soberano do que como um reconhecimento dos direitos da oposição. As anistias, geralmente direcionadas às elites políticas, raramente beneficiavam as bases sociais envolvidas nos conflitos. Um exemplo clássico é a Guerra dos Farrapos (1835-1845), onde os líderes da revolta foram anistiados e reintegrados ao Exército Imperial após a assinatura do Acordo de Poncho Verde. -
1835–1840 – Cabanagem
No norte do Brasil, a Cabanagem, um levante de indígenas, negros e marginalizados no Grão-Pará, também recebeu uma anistia seletiva. Enquanto os líderes da elite regional foram perdoados, as bases sociais que participaram do conflito não foram contempladas, refletindo o padrão de anistia imperial.

‘Anistia traída’: acordo de anistia após Revolta da Chibata foi quebrado pelo governo – Foto: Reprodução
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1889 – Proclamação da República
A instalação da República, em 1889, também usou a anistia como forma de estabilização política. No entanto, as anistias da Primeira República (1889-1930) estavam frequentemente ligadas à repressão, com perdões condicionados a reintegrações que incluíam processos disciplinares. Durante esse período, a anistia também foi usada para acalmar rebeliões militares, como a Revolta da Chibata (1910) e a Revolta da Vacina (1904). -
1930 – Era Vargas
Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder em 1930, a anistia foi utilizada novamente como uma ferramenta de pacificação. Após a Revolução Constitucionalista de 1932, a anistia de 1934 reintegrou importantes lideranças paulistas e ajudou a esfriar tensões. Contudo, com o Estado Novo em 1937, a repressão aumentou, e as anistias se tornaram seletivas, destinadas principalmente aos opositores derrotados.

Na Era Vargas, uma nova onda de anistias começou – Foto: Reprodução
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1945 – Anistia Pós-Ditadura Vargas
Em 1945, com o fim do Estado Novo, uma anistia ampla foi concedida aos opositores de Vargas, incluindo comunistas e integralistas, mas sem investigar os abusos cometidos pelo próprio regime. A anistia foi promovida como uma medida de reconciliação e pacificação, mas faltou um verdadeiro processo de justiça para as vítimas. -
1964–1985 – Ditadura Militar e Anistia Bilateral
Durante a Ditadura Militar (1964-1985), a anistia tornou-se um tema central nas discussões políticas, especialmente com a Lei da Anistia de 1979, que perdoou tanto os perseguidos quanto os persecutores. A lei foi vista por muitos como uma forma de “pacificação” política, mas acabou sendo criticada por ter perdoado crimes graves cometidos por agentes do Estado, como tortura e desaparecimentos forçados. A crítica era de que a anistia se tornou uma forma de impunidade, sendo considerada “bilateral”, ou seja, beneficiando tanto os opositores quanto os agentes da repressão. -
1988 – Nova Constituição e os Limites da Anistia
A Constituição de 1988 redefiniu as regras para a concessão de anistias, colocando essa prerrogativa sob a responsabilidade do Legislativo e não mais exclusivamente do Executivo. No entanto, a Lei de Anistia de 1979 continuou a ser um tema polêmico, com o Supremo Tribunal Federal (STF) mantendo a interpretação de que crimes de tortura e repressão não poderiam ser punidos, já que foram considerados parte do contexto político da época.

Protesto pela anistia de perseguidos pela ditadura militar em 1979, no Rio de Janeiro; processo de perdão acabou sendo ‘bilateral’ – Foto: Arquivo Nacional
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2010 – Ação da OAB e o Debate sobre Crimes da Ditadura
Em 2010, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tentou reabrir o debate sobre a Lei de Anistia, argumentando que crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura deveriam ser punidos. O STF, no entanto, decidiu que a lei resultou de um acordo político e que não cabia reescrever esse pacto. -
2023 – Anistia e os Ataques de 8 de Janeiro
O debate sobre a anistia voltou ao cenário político com os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, que miraram as sedes dos três Poderes. A proposta de anistiar os envolvidos em atos violentos foi defendida por alguns, mas criticada por outros que afirmam que tal medida incentivaria futuros ataques à democracia.
O Papel da Anistia na História Brasileira
As anistias no Brasil sempre foram mais do que simples perdões; elas foram e continuam a ser utilizadas como mecanismos de estabilização política e pacificação social. No entanto, a história das anistias no país revela um padrão: elas são frequentemente seletivas, favorecendo elites políticas enquanto deixam de lado as bases sociais ou aqueles que mais sofreram durante os conflitos.
Além disso, as anistias históricas, especialmente as relacionadas ao período da ditadura militar, têm sido vistas como fontes de impunidade, já que não houve responsabilização por crimes graves cometidos por agentes do Estado.
Lições do Passado para o Presente
A atual discussão sobre a anistia para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023 traz à tona questões que já foram debatidas no passado. Como afirmam especialistas, não se pode comparar uma anistia de um período de ditadura com uma anistia em tempos de democracia, onde os canais legais estão abertos e os processos podem ser conduzidos sem repressão.
No entanto, é possível aplicar algumas lições do passado. A justiça de transição no Brasil, embora incompleta, ajudou a fortalecer a democracia, promovendo uma maior responsabilização por abusos. Para o futuro, a ideia de “anistias possíveis” propõe revisar penas excessivas e buscar formas mais construtivas de reintegração, como serviços comunitários ou educação cívica.
O dilema da anistia no Brasil, portanto, é sempre o mesmo: até que ponto o perdão é uma medida de reconciliação genuína e até que ponto ele perpetua a injustiça e a impunidade? O debate sobre esse tema é crucial para o fortalecimento da democracia no país.
