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STF cobra governo do Rio após megaoperação: Corte tenta corrigir erros do passado, dizem especialistas

Ministro Alexandre de Moraes exige relatório completo sobre ação que deixou mais de 130 mortos. Especialistas apontam que decisões anteriores do Supremo, na ADPF das Favelas, contribuíram para o avanço do crime organizado nas comunidades.


O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o governo do Rio de Janeiro apresente um relatório detalhado sobre a megaoperação policial contra o Comando Vermelho (CV), que resultou em mais de 130 mortes — a mais letal da história do estado.

A decisão, assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, ocorre dentro da chamada ADPF das Favelas, ação que discute as violações de direitos humanos decorrentes da violência policial em comunidades fluminenses. O governo deverá informar o grau de força utilizado, número de agentes, armas empregadas, mortos, feridos e presos, além das medidas de prevenção de abusos e ações de assistência às vítimas e familiares.

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Depoimentos – Vozes da Favela

“A gente só queria dar dignidade aos corpos”

“Quando o tiroteio acabou, ficou um silêncio pesado, daqueles que fazem a gente ter medo até de respirar. A fumaça ainda subia dos becos, e o chão estava coberto de cápsulas. Os corpos ficaram estendidos ali, com a roupa camuflada, misturados com o barro e o sangue. Era uma imagem que eu nunca vou esquecer.”

O morador, que pediu para não ser identificado, contou que alguns vizinhos se aproximaram com cuidado, depois que a polícia saiu, e começaram a retirar os fardamentos camuflados dos mortos.

“Muita gente aqui não sabia direito quem era quem. Uns diziam que eram traficantes, outros que tinham sido pegos no fogo cruzado. O medo era grande, porque quem ficasse com roupa de policial podia acabar sendo confundido se voltassem as viaturas. Então os moradores tiraram os fardamentos, não pra desrespeitar, mas pra proteger a comunidade e até os próprios mortos.”

Segundo ele, a decisão foi um ato de medo, mas também de humanidade.

“A gente vive no meio do fogo. Sabe o que é ver uma mãe chorando por um filho que ninguém vai reconhecer, porque o corpo tá de uniforme? Tirar aquela roupa foi uma forma de mostrar que, por trás da guerra, ainda tem gente. Ainda tem humanidade.”

O morador diz que a comunidade se uniu depois do confronto para recolher os corpos e ajudar as famílias, enquanto aguardavam a chegada das autoridades.

“A gente não tem poder, não tem arma, não tem proteção. O que a gente tem é um ao outro. Naquele momento, todo mundo só queria uma coisa: respeito pelos mortos. Porque, no fim, seja de farda ou de chinelo, todo mundo aqui é gente.”

Moradores da comunidade removeram fardamento camuflado dos mortos no confronto – Foto: Reprodução

O contexto da decisão

O pedido foi feito pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), órgão que reúne representantes da PGR, da Defensoria Pública, da OAB e da sociedade civil. O grupo solicitou que o STF cobre transparência sobre a operação e verifique se houve violações de direitos humanos.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, informou que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) já havia solicitado informações semelhantes e sugeriu que os dois pedidos sejam unificados.

O que é a ADPF das Favelas

A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, foi apresentada em 2019 e tem como objetivo reduzir a letalidade policial e proteger moradores de comunidades.

Entre 2020 e 2025, decisões do STF — especialmente sob a relatoria do ministro Edson Fachinimpuseram severas restrições à atuação policial nas favelas do Rio. Na prática, as medidas limitaram o ingresso das forças de segurança em áreas dominadas pelo tráfico, exceto em casos excepcionais.

Especialistas em segurança pública apontam que, embora bem-intencionadas, as restrições tiveram efeitos colaterais graves, como o fortalecimento das facções criminosas, a expansão de territórios controlados pelo tráfico e o aumento do poder de fogo dos criminosos.

Durante o período em que as limitações estiveram em vigor, o Rio de Janeiro registrou recordes de barricadas erguidas por traficantes, além de uma deterioração do controle estatal em diversas regiões metropolitanas.

Os erros do Supremo e o impacto na segurança

Ministro Edson Fachin, relator da ADPF 635, que restringiu operações policiais no Rio de Janeiro entre 2019 e 2025 (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

Para especialistas, o STF cometeu equívocos ao adotar decisões de caráter operacional em segurança pública, interferindo em políticas que deveriam ser conduzidas pelo Executivo estadual.

Segundo o ex-secretário de Segurança José Mariano Beltrame, as medidas criaram uma “zona de conforto para o crime”, dificultando o trabalho policial e permitindo o rearmamento das facções.

Na avaliação de analistas, a ausência de critérios técnicos e o distanciamento da realidade local nas decisões do Supremo geraram efeitos contrários aos esperados: o que deveria reduzir a letalidade, acabou aumentando a violência, ao impedir ações preventivas e o patrulhamento contínuo nas favelas.

“Durante anos, a polícia ficou de mãos atadas, enquanto o crime se estruturava. Agora, quando as forças de segurança tentam retomar o controle, o confronto se torna inevitável e muito mais sangrento”, afirma o coronel reformado da PM-RJ Roberto Alves.

Reações das forças de segurança

Após os confrontos desta terça-feira (28), que resultaram em mais de 130 mortes, a Polícia Civil e a Polícia Militar publicaram notas lamentando a perda de quatro agentes e criticando indiretamente as decisões do STF.

Em publicação nas redes sociais, as corporações afirmaram:

“Essa tragédia tem causa: anos de restrições às operações policiais. Anos em que o Estado foi amarrado enquanto o crime se armava, enquanto decisões distantes da realidade deram espaço para facções se tornarem exércitos de terroristas.”

A mensagem ultrapassou 7 milhões de visualizações em poucas horas e reacendeu o debate sobre a influência do Judiciário na crise de segurança fluminense.

STF tenta reequilibrar a atuação

Nos últimos meses, o Supremo passou a rever o escopo da ADPF das Favelas, reconhecendo a necessidade de maior equilíbrio entre direitos humanos e eficiência policial.

Em abril deste ano, a Corte fixou novos parâmetros para operações, determinando o uso obrigatório de câmeras corporais, o planejamento prévio das ações e a comunicação imediata ao Ministério Público, mas retirando parte das restrições impostas desde 2020.

Com o caso agora sob relatoria de Alexandre de Moraes, há expectativa de que o STF adote uma postura mais pragmática, buscando garantir a legalidade das operações sem comprometer a capacidade do Estado de enfrentar o crime organizado.

O que pode acontecer agora

As informações que o governo do Rio enviará ao STF serão decisivas para determinar se as forças de segurança estão cumprindo as novas diretrizes da Corte.

Caso o relatório revele abusos ou descumprimento de ordens judiciais, Moraes poderá emitir novas determinações. Mas se os dados confirmarem que a operação respeitou as normas e teve planejamento adequado, o tribunal pode consolidar uma virada de postura, reconhecendo a necessidade de retomar o controle territorial com base na lei.