A Justiça do Distrito Federal determinou a remoção de quatro reportagens que mencionavam o empresário Gabriel Cepeda Gonçalves e sua família em investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro vinculado à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
As reportagens retiradas – três publicadas pelo site O Bastidor e uma pelo site Claudio Dantas – detalhavam as suspeitas envolvendo a Rede Boxter de postos de combustíveis, pertencente à família Cepeda. Conforme os documentos da investigação, os postos teriam sido usados para movimentar grandes volumes de dinheiro ilícito, com o uso de laranjas e empresas de fachada para ocultar patrimônio.
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Suspeito de elo com PCC é apontado como doador secreto de CT do Deic – Foto: Reprodução
O empresário do setor de combustíveis Gabriel Cepeda, investigado por suposta relação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), é apontado como responsável por custear a construção de um centro de treinamento (CT) de artes marciais na sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), principal braço operacional da Polícia Civil de São Paulo.
Provas apresentadas nas investigações
As acusações contra a família Cepeda têm como base o material reunido na Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo MP-SP e a Polícia Federal em agosto de 2025. O inquérito resultou em um relatório de mais de 1.200 páginas, no qual a família é mencionada em mais de 900 trechos. Entre os principais pontos, destacam-se:
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O empresário Renan Cepeda, irmão de Gabriel, é descrito como “pessoa-chave” no esquema de lavagem.
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Os investigadores afirmam que a Rede Boxter foi utilizada para simular transferências de propriedade entre dezenas de postos, ocultando os verdadeiros donos.
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O grupo teria usado empresas de fachada e interpostas pessoas (laranjas) para operar os negócios e esconder recursos da facção.
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As investigações retomam conexões com a Operação Rei do Crime, de 2020, quando Renan Cepeda e o pai, Natalício Pereira Gonçalves Filho, foram presos por suspeita de integrar uma rede de lavagem de dinheiro do PCC.
Censura judicial: decisões baseadas em ausência de condenação
As decisões para remoção das reportagens partiram de dois juízes distintos. A primeira, da juíza Acácia Regina Soares de Sá, da 22ª Vara Cível de Brasília, ocorreu em 19 de setembro e retirou três textos do O Bastidor. A magistrada entendeu que os conteúdos apresentavam os fatos como “verdades provadas”, ainda que o processo esteja em curso e sem sentença.
A juíza também questionou a referência à Operação Rei do Crime, alegando que ela foi extinta após a morte de um dos principais delatores – um ex-piloto do PCC –, o que comprometeria parte das acusações.
Já a quarta reportagem, do site Claudio Dantas, foi derrubada dias depois por decisão do juiz Carlos Eduardo Batista dos Santos, da 2ª Vara Cível de Brasília. A defesa de Gabriel Cepeda argumentou que o veículo o identificou sem provas como “sócio de rede de postos do PCC”, além de ter citado informações de um inquérito sob sigilo. Apesar de considerar que o texto não violava o conteúdo da investigação, o magistrado ordenou a remoção completa da reportagem por considerar imputação indevida de crimes no título.
Defesa dos veículos denuncia censura e recorre
Os advogados dos dois veículos recorreram das decisões. André Marsiglia, defensor do O Bastidor e do site de Claudio Dantas, afirma que os casos configuram censura judicial, com impacto direto sobre o direito à informação:
“É o chamado chilling effect, quando a informação de um jornalista é retirada do alcance do leitor por um ato de censura”, declarou Marsiglia. “O juiz não pode ser o primeiro e último leitor. O Judiciário, quando age assim, controla o debate público e guia a sociedade para a escuridão informacional.”
Segundo o advogado, as reportagens baseiam-se em documentos oficiais de investigação e tratam de fatos de interesse público.
“Pressão para calar a imprensa”, diz fundador do O Bastidor
O jornalista Diego Escosteguy, fundador do O Bastidor, repudiou a censura e declarou que as decisões fazem parte de uma escalada de intimidação contra o jornalismo investigativo:
“Choca o fato de que pessoas suspeitas de ligação com facções criminosas consigam decisões judiciais para retirar do ar notícias documentadas e de interesse público”, disse.
O site Claudio Dantas não se manifestou.
Defesa do empresário e advogadas ainda não se pronunciaram sobre o caso.
