
Foto: afp_tickers
A Venezuela participa nesta semana das reuniões de energia do G20 em Houston, no Texas, a convite do governo do presidente Donald Trump. A presença venezuelana ocorre em um momento de forte pressão sobre o mercado internacional de petróleo, provocada pela guerra no Oriente Médio e por novos riscos para o abastecimento global.
Os encontros começaram na segunda-feira (14) e seguem até quarta-feira (16), reunindo representantes das principais economias do mundo e grandes produtores de energia. Segundo a Casa Branca, a delegação venezuelana foi convidada para participar de reuniões bilaterais, atividades paralelas promovidas pelo governo americano e encontros com representantes da indústria petrolífera. A Venezuela, porém, não deve participar das reuniões ministeriais oficiais a portas fechadas.
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A delegação venezuelana deve ser liderada pela ministra do Petróleo e Hidrocarbonetos, Paula Henao, e pelo vice-presidente da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), Jovanny Martínez.
A participação de Caracas representa mais um passo na aproximação energética entre os governos dos Estados Unidos e da Venezuela. Washington pretende ampliar a produção venezuelana e transformar parte das enormes reservas de petróleo do país em uma fonte adicional de abastecimento para o mercado americano.
Acordo bilionário entre EUA e Venezuela
A aproximação ganhou força depois que Trump anunciou, em 28 de agosto, um acordo pelo qual os Estados Unidos passariam a ter controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo venezuelano.
Segundo o governo americano, o acordo prevê o desenvolvimento de 17 campos petrolíferos por meio de uma nova empresa privada e concessões de longo prazo. A Casa Branca classificou o pacto como o maior acordo de petróleo da história e afirmou que ele pretende ampliar a segurança energética dos Estados Unidos e contribuir para a recuperação econômica da Venezuela.
A Reuters informou que o projeto poderá levar a produção dos campos envolvidos para até 1,5 milhão de barris por dia, caso seja totalmente implementado. A agência também destacou que ainda existem dúvidas sobre a estrutura jurídica, os mecanismos de aprovação e a viabilidade operacional do acordo.
O governo venezuelano afirma que o projeto poderá atrair cerca de US$ 100 bilhões em investimentos privados e gerar aproximadamente US$ 209 bilhões em receitas tributárias para Caracas. Especialistas, entretanto, alertam que a deterioração da infraestrutura petrolífera venezuelana pode retardar o aumento significativo da produção.
Petróleo supera US$ 100 com tensão no Oriente Médio
A reunião do G20 ocorre em meio a uma forte alta dos preços internacionais do petróleo. Nesta terça-feira (15), o Brent chegou a US$ 108,43 por barril, enquanto o WTI atingiu US$ 104,21, diante de novas preocupações com a segurança do abastecimento mundial.
Um dos principais fatores de pressão é a escalada do conflito envolvendo o Irã. Ataques atribuídos a forças apoiadas por Teerã atingiram infraestrutura energética da Arábia Saudita, incluindo uma importante rota de transporte de petróleo.
Segundo a Reuters, a interrupção de uma parte da infraestrutura saudita ameaça uma capacidade equivalente a até 4% da oferta mundial de petróleo. Analistas do Goldman Sachs avaliam que uma interrupção prolongada poderia levar o Brent para acima de US$ 120 por barril e, em um cenário mais grave, até US$ 130.
A situação também afeta o mercado de combustíveis nos Estados Unidos. O governo Trump vem estudando medidas para aumentar a capacidade de refino americana e aliviar a pressão sobre os preços. Uma das possibilidades analisadas pela Casa Branca é o uso da Lei de Produção de Defesa, que permitiria estimular investimentos e expansão de refinarias existentes.
Venezuela ganha importância estratégica
Com a instabilidade no Oriente Médio, Washington passou a enxergar as reservas venezuelanas como uma possível alternativa para ampliar a oferta de petróleo no hemisfério ocidental.
A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, mas sua indústria sofreu forte deterioração após anos de crise econômica, sanções, falta de investimentos e problemas de infraestrutura.
Por isso, apesar do tamanho das reservas, especialistas avaliam que o país não conseguirá aumentar rapidamente sua produção. O eventual crescimento dependerá de investimentos, recuperação de instalações, equipamentos, mão de obra especializada e estabilidade jurídica.
O próprio acordo anunciado pelo governo americano prevê uma implementação de longo prazo. A estrutura divulgada pela Casa Branca inclui concessões de até 100 anos para campos incluídos no projeto.
Rússia também deve participar
A reunião energética do G20 em Houston também ganhou importância diplomática pela presença russa. Moscou indicou que enviaria representantes aos encontros, em mais um sinal de que os Estados Unidos decidiram manter canais de diálogo com a Rússia dentro da presidência americana do G20.
A presença russa ocorre em meio às tensões provocadas pela guerra na Ucrânia e às divergências entre Washington e seus aliados europeus sobre a participação de Moscou nos fóruns do grupo.
Além da Rússia, países como China, Índia, Japão, Alemanha, Canadá e Arábia Saudita participam das discussões sobre o futuro do mercado energético.
Pressão sobre Trump aumenta antes das eleições
A escalada dos combustíveis também tem impacto político nos Estados Unidos. O governo Trump enfrenta pressão para conter o aumento dos preços antes das eleições legislativas de novembro.
O diesel americano já atingiu níveis recordes, enquanto a gasolina também acumula forte alta desde o início da guerra com o Irã. A administração americana avalia diferentes alternativas para aumentar a oferta e reduzir os custos para consumidores e empresas.
Nesse cenário, o acordo com a Venezuela se tornou uma das principais apostas de Washington para ampliar o acesso a petróleo no continente americano.
O problema é que os efeitos sobre a produção não devem ser imediatos. Mesmo que os investimentos sejam rapidamente liberados, a recuperação da infraestrutura venezuelana e a expansão da produção podem levar anos.
A reunião de Houston, portanto, ocorre não apenas como um encontro técnico sobre energia, mas também como um importante movimento geopolítico. Ao aproximar Caracas de Washington e buscar maior controle sobre as reservas venezuelanas, o governo Trump tenta reduzir a vulnerabilidade dos Estados Unidos às crises no Oriente Médio e ampliar sua influência sobre o mercado mundial de petróleo.
