
Gel de testosterona – Foto: Amy Swan/Divulgação via REUTERS.
A procura de mulheres por tratamentos à base de testosterona aumentou significativamente nos Estados Unidos, mas pacientes que recebem a prescrição estão encontrando obstáculos para conseguir o medicamento nas farmácias. Segundo uma análise de dados realizada pela empresa de informações em saúde Truveta para a Reuters, a taxa de mulheres que receberam prescrição de testosterona subiu 146% entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
O crescimento ocorre principalmente entre mulheres na menopausa que buscam tratamento para alterações na libido. Ao mesmo tempo, médicos e pacientes relatam recusas de receitas, atrasos na dispensação e dificuldades para obter formulações em doses consideradas adequadas para o público feminino.
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Nos Estados Unidos, não há atualmente um produto de testosterona aprovado pela FDA especificamente para mulheres. Por isso, quando o hormônio é prescrito para elas, o uso costuma ocorrer de forma off-label, ou seja, para uma indicação ou população diferente daquela originalmente aprovada pelo órgão regulador.
A procura de mulheres por tratamentos à base de testosterona aumentou significativamente nos Estados Unidos, mas pacientes que recebem a prescrição estão encontrando obstáculos para conseguir o medicamento nas farmácias. Segundo uma análise de dados realizada pela empresa de informações em saúde Truveta para a Reuters, a taxa de mulheres que receberam prescrição de testosterona subiu 146% entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
O crescimento ocorre principalmente entre mulheres na menopausa que buscam tratamento para alterações na libido. Ao mesmo tempo, médicos e pacientes relatam recusas de receitas, atrasos na dispensação e dificuldades para obter formulações em doses consideradas adequadas para o público feminino.
Nos Estados Unidos, não há atualmente um produto de testosterona aprovado pela FDA especificamente para mulheres. Por isso, quando o hormônio é prescrito para elas, o uso costuma ocorrer de forma off-label, ou seja, para uma indicação ou população diferente daquela originalmente aprovada pelo órgão regulador.
A situação deverá ganhar novo capítulo nesta semana. A FDA realizará em 17 de setembro uma reunião pública sobre o uso de testosterona em mulheres na menopausa. O encontro pretende avaliar as evidências disponíveis, as lacunas científicas e as questões relacionadas ao desenvolvimento de medicamentos destinados especificamente a esse público.

Suprimento de gel de testosterona para um mês é exibido em sua caixa em Melrose, Massachusetts, EUA, em 9 de setembro de 2026 – Foto: Amy Swan/Divulgação via REUTERS.
Por que a testosterona está sendo prescrita?
A testosterona também é produzida pelo organismo feminino e seus níveis diminuem ao longo do envelhecimento e da transição para a menopausa. O hormônio tem sido associado a questões relacionadas à função sexual, mas a evidência científica não sustenta seu uso indiscriminado para todos os sintomas da menopausa.
O principal respaldo médico atualmente está relacionado ao transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD, na sigla em inglês) em mulheres pós-menopáusicas.
Uma diretriz publicada pela International Society for the Study of Women’s Sexual Health aponta que a testosterona transdérmica pode proporcionar benefício terapêutico moderado para mulheres adequadamente diagnosticadas com HSDD. A recomendação também ressalta a necessidade de avaliação médica, acompanhamento dos níveis hormonais e monitoramento de possíveis efeitos adversos.
Já para outras queixas frequentemente associadas à menopausa, como fadiga, alterações de humor, perda de massa muscular ou melhora geral do bem-estar, as evidências ainda são consideradas insuficientes para recomendar a testosterona como tratamento de rotina.
Problema começa na drogaria
Como os produtos disponíveis no mercado americano foram desenvolvidos principalmente para homens, algumas mulheres precisam utilizar quantidades muito menores das formulações comercializadas.
Essa diferença de dose pode obrigar pacientes e profissionais de saúde a adaptar a forma de utilização do medicamento, o que tem provocado recusas em algumas farmácias e drogarias.
A Reuters relata casos de pacientes que tiveram dificuldades para obter géis de testosterona prescritos por médicos. Farmácias justificam algumas recusas com preocupações relacionadas à precisão da dose, segurança e às regras que envolvem a dispensação de testosterona.
A testosterona é uma substância controlada nos Estados Unidos, o que acrescenta exigências regulatórias à sua comercialização e ao registro das prescrições.
Algumas farmácias também encaminham pacientes para estabelecimentos especializados em medicamentos manipulados, capazes de preparar formulações em concentrações específicas. Entretanto, esse caminho pode ser mais caro e também envolve questões relacionadas à padronização e às evidências de segurança.
Seguro ou ainda pouco estudado?
Uma das principais questões que estarão no centro do debate da FDA é justamente a segurança do tratamento a longo prazo.
A agência americana afirma que ainda existem lacunas importantes sobre os efeitos da testosterona em mulheres, especialmente em relação à saúde cardiovascular e ao risco de câncer de mama, além de dúvidas sobre seus possíveis efeitos na cognição, humor e saúde musculoesquelética.
Diretrizes internacionais reconhecem que estudos disponíveis indicam benefícios em situações específicas, mas também destacam que os dados de segurança para uso prolongado ainda são limitados.
Por isso, especialistas defendem que o tratamento não seja utilizado simplesmente como uma forma de combater o envelhecimento ou melhorar indiscriminadamente energia, força ou composição corporal.
FDA vai discutir futuro do tratamento
A reunião marcada para quinta-feira (17) pela FDA pretende reunir pesquisadores, profissionais de saúde e outros participantes para analisar as evidências existentes sobre testosterona em mulheres na menopausa.
Segundo a própria agência, o encontro também deverá discutir dificuldades para medir e interpretar os níveis de testosterona, os possíveis usos terapêuticos e a falta de dados de longo prazo. O órgão abriu ainda um período para receber manifestações públicas sobre os riscos e benefícios do tratamento.
A discussão pode abrir caminho para novos estudos e, eventualmente, para o desenvolvimento de produtos especificamente formulados e dosados para mulheres.
Mercado começa a se movimentar
O interesse crescente também está estimulando a indústria farmacêutica. Segundo a reportagem da Reuters, mais de 30 estudos sobre o uso de testosterona em mulheres estão em andamento ou planejados para diferentes condições.
Empresas também estudam novas formulações que possam responder a preocupações específicas de segurança.
A ausência de um produto aprovado especificamente para mulheres, entretanto, continua sendo um dos principais obstáculos. Especialistas ouvidos pela Reuters avaliam que uma formulação desenvolvida e testada para o público feminino poderia facilitar tanto a prescrição quanto o acesso ao tratamento.
O que dizem as evidências hoje
O consenso internacional publicado por sociedades médicas de endocrinologia, menopausa e saúde sexual reconhece a testosterona como opção terapêutica para mulheres pós-menopáusicas com transtorno do desejo sexual hipoativo, mas não recomenda seu uso generalizado para outros sintomas.
Uma revisão mais recente sobre HSDD, publicada em 2026, também destaca que a avaliação deve considerar fatores psicológicos, não hormonais e hormonais antes da escolha do tratamento.
Assim, o aumento das prescrições não significa que a testosterona tenha se tornado um tratamento padrão para a menopausa. O cenário atual é de maior procura, uso crescente fora das indicações originalmente aprovadas e uma corrida por mais evidências científicas.
A reunião da FDA desta semana poderá representar um passo importante para determinar quais benefícios podem ser comprovados, quais riscos precisam ser monitorados e se existe espaço para medicamentos desenvolvidos especificamente para mulheres.
