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Roma

Papa Leão XIV alerta para crise da ONU e adverte sobre um futuro dominado pela inteligência artificial

Durante visita à França, pontífice afirma que o diálogo internacional corre o risco de virar uma “farsa” e defende limites éticos para o avanço da IA.


O Papa Leão XIII alerta na França que a ONU corre o risco de se tornar uma “farsa” – Foto: Reprodução/REUTERS

 

O papa Leão XIV elevou o tom nesta sexta-feira (25) ao criticar a atual crise do multilateralismo e advertir que o sistema internacional corre o risco de perder sua capacidade de promover diálogo, cooperação e respeito às regras. Em discurso na sede da UNESCO, em Paris, o pontífice afirmou que as Nações Unidas e outras instituições multilaterais enfrentam uma crise de eficácia.

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A declaração ocorre justamente durante a semana de alto nível da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde líderes mundiais participam do debate geral da 81ª sessão. A programação oficial da organização prevê a presença de quase 130 chefes de Estado e de governo e tem como tema “Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma ONU que entrega para todos”.

Leão XIV afirmou que o diálogo internacional não pode ser tratado como um obstáculo à ação. Segundo o pontífice, existe o risco de que a cooperação entre países seja reduzida a uma formalidade sem capacidade real de produzir soluções.

A crítica ganhou peso pelo momento em que foi feita. A Assembleia Geral deste ano ocorre em meio a conflitos internacionais, disputas diplomáticas e dificuldades de coordenação entre grandes potências. A agenda oficial da ONU inclui, entre outros temas, guerra, segurança, mudanças climáticas, saúde global e governança tecnológica.

“Paraíso de máquinas”

A inteligência artificial foi outro eixo central da passagem de Leão XIV pela França.

Em discurso no Palácio do Eliseu, durante encontro com o presidente Emmanuel Macron, o papa advertiu que o avanço da tecnologia precisa permanecer subordinado à dignidade humana. Ele usou a expressão “paraíso de máquinas” para descrever um possível futuro no qual sistemas tecnológicos passem a condicionar cada vez mais a vida cotidiana.

Para o pontífice, o desenvolvimento da IA exige educação para o discernimento ético e mecanismos capazes de preservar a autonomia das pessoas.

A preocupação não é nova em seu pontificado. Em maio, Leão XIV publicou sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, dedicada à proteção da pessoa humana em uma época marcada pelo avanço da inteligência artificial. O documento defende que a tecnologia seja desenvolvida de maneira compatível com a dignidade, os direitos e a autonomia humanas.

A própria UNESCO colocou a questão no centro da agenda da visita. A entidade informa que o encontro com o papa em Paris é dedicado aos desafios contemporâneos relacionados à inteligência artificial, à integridade da informação, à educação e à criação artística na era digital.

 

Papa Leão participa de evento por vídeo com cerca de 15 mil jovens dos Estados Unidos – Foto: VATICAN MEDIA

 

Crise de confiança no sistema internacional

A preocupação de Leão XIV coincide com uma avaliação mais ampla dentro do próprio sistema das Nações Unidas.

Em entrevista publicada pela Vatican News, a vice-diretora-geral da UNESCO, Åsa Regnér, reconheceu a existência de uma crise do multilateralismo, acompanhada por problemas financeiros e de confiança e pelas dificuldades do Conselho de Segurança em alcançar consensos sobre conflitos internacionais.

Ao mesmo tempo, Regnér ressaltou que a ONU continua sendo a única organização global que reúne praticamente todos os Estados do mundo e mantém uma ampla atuação humanitária e de desenvolvimento.

A 81ª Assembleia Geral reúne os 193 Estados-membros da ONU. O debate geral começou em 22 de setembro e prossegue até 28 de setembro, com os líderes apresentando suas prioridades diante dos principais desafios internacionais.

França no centro do discurso

A visita de Leão XIV à França é a primeira visita oficial de um papa ao país em 18 anos. O pontífice desembarcou nesta sexta-feira e foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu. O governo francês confirmou oficialmente o encontro entre os dois.

O relacionamento entre a Igreja e o Estado francês envolve temas particularmente sensíveis. A França mantém uma tradição rigorosa de laicidade, enquanto a Igreja Católica tem manifestado oposição a algumas mudanças recentes na legislação do país.

Durante a visita, Leão XIV voltou a defender a proteção da vida e criticou iniciativas relacionadas à morte assistida para pessoas com doenças incuráveis. Também fez referências a questões como manipulação genética, barriga de aluguel e comércio de órgãos.

Notre-Dame e o peso simbólico da visita

Ainda nesta sexta-feira, o papa visitou a Catedral de Notre-Dame, em Paris, reconstruída depois do incêndio de 2019.

A passagem pelo templo tem forte significado simbólico. Em sua manifestação, Leão XIV destacou o esforço coletivo para reconstruir a catedral e associou a restauração do monumento à continuidade histórica e cultural da França.

A agenda francesa segue até 28 de setembro e inclui Paris, Lourdes e Metz. Segundo a programação divulgada pelo Vaticano, o pontífice também participará de encontros religiosos e políticos e deverá abordar questões relacionadas à paz, à Europa e ao futuro da Igreja.

O passado que ainda pesa sobre a Igreja

A viagem também ocorre em um momento delicado para a Igreja Católica francesa.

Um relatório independente divulgado em 2021 estimou que cerca de 330 mil menores sofreram abusos sexuais relacionados ao clero e a instituições católicas na França ao longo de aproximadamente sete décadas. O número inclui casos envolvendo religiosos e integrantes leigos de instituições ligadas à Igreja.

Leão XIV deverá se encontrar no domingo, em Lourdes, com sete sobreviventes de abusos cometidos por integrantes do clero. Organizações de vítimas, entretanto, têm cobrado medidas estruturais e maior responsabilização da Igreja, além de ações de reparação.

O sistema francês de reparação também está passando por mudanças. Segundo a Reuters, o órgão independente responsável por reconhecer e indenizar vítimas deverá encerrar suas atividades em 1º de outubro, deixando novos casos sob responsabilidade de estruturas locais da Igreja — mudança que vem sendo questionada por representantes de sobreviventes.

Um pontificado marcado por tecnologia, paz e diplomacia

A passagem pela França consolida três temas que vêm aparecendo com frequência nas manifestações de Leão XIV: defesa da dignidade humana, preocupação com os efeitos da inteligência artificial e recuperação do diálogo internacional.

Poucos dias antes da viagem, em 21 de setembro, o papa enviou uma mensagem a uma conferência sobre inteligência artificial e paz realizada em Roma. Na ocasião, defendeu sistemas de IA que contribuam para a aproximação entre pessoas e não para o aumento da divisão e dos conflitos.

A visita à UNESCO também retoma uma tradição de diálogo entre o Vaticano e organismos internacionais. A entidade recebeu anteriormente o papa João Paulo II, em 1980. Agora, 46 anos depois, a presença de Leão XIV ocorre em um cenário marcado por guerras, polarização política, avanço tecnológico e questionamentos sobre a capacidade das instituições multilaterais de produzir respostas coletivas.

O discurso em Paris, portanto, não ficou restrito à esfera religiosa. Ao colocar ONU, inteligência artificial, paz, tecnologia e dignidade humana no mesmo debate, Leão XIV procurou inserir a Igreja Católica em uma discussão mais ampla sobre os rumos do sistema internacional e os limites que a sociedade deverá estabelecer diante das transformações tecnológicas.