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Sarampo avança nos Estados Unidos e acende alerta nas Américas; vacinação é desafio para conter novos surtos

Nova York decretou emergência sanitária diante do aumento de casos, enquanto a Pensilvânia ultrapassou 1,2 mil infecções em 2026. No Amazonas, registros em municípios da tríplice fronteira reforçam a importância da imunização e da vigilância epidemiológica.


Declaração foi emitida por governadora do estado após aumento drástico no número de casos em áreas rurais – Foto: Shannon Stapleton/REUTERS

 

O avanço do sarampo nos Estados Unidos voltou a chamar a atenção das autoridades de saúde para os riscos de ressurgimento de uma doença que pode ser prevenida por vacina. Em Nova York, o governo estadual decretou situação de emergência em 5 de outubro, diante do aumento das infecções em comunidades rurais com baixa cobertura vacinal. Na Pensilvânia, o número de casos chegou a 1.222 em 14 de outubro, com cinco mortes associadas à doença confirmadas pelas autoridades estaduais.

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O cenário evidencia um problema que ultrapassa as fronteiras norte-americanas: a existência de grupos com vacinação incompleta, somada à circulação internacional de pessoas, cria condições para que o vírus volte a se espalhar mesmo em países que já haviam alcançado avanços importantes no controle da doença.

No Brasil, o tema exige atenção especial no Amazonas. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em outubro apontavam dez casos de sarampo no estado até 5 de outubro, em meio à intensificação das ações de vigilância e vacinação. Os registros incluem casos importados identificados em Tabatinga, município localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.

Embora os surtos nos Estados Unidos e os casos registrados no Amazonas sejam situações epidemiológicas distintas, ambos reforçam a importância de manter altas coberturas vacinais e identificar rapidamente possíveis cadeias de transmissão.

Nova York decreta emergência diante do avanço da doença

A governadora de Nova York, Kathy Hochul, declarou emergência sanitária em 5 de outubro para ampliar a capacidade de resposta ao surto de sarampo no estado. A medida permite que mais categorias de profissionais de saúde participem da aplicação de vacinas e da realização de testes, ampliando o acesso aos serviços de prevenção e diagnóstico.

Segundo reportagem publicada pelo periódico médico britânico The BMJ em 8 de outubro, o estado registrava mais de uma centena de casos no início do mês, concentrados principalmente em comunidades rurais com cobertura vacinal insuficiente.

A situação se agravou nos dias seguintes. De acordo com informações divulgadas pela agência Reuters em 13 de outubro, Nova York já contabilizava 126 casos, e o governo estadual indicava a intenção de buscar apoio federal para enfrentar o surto.

A emergência também reflete a preocupação com o avanço da doença na vizinha Pensilvânia, onde a transmissão atingiu dezenas de condados. As autoridades de saúde passaram a reforçar a divulgação de informações sobre casos, vacinação e medidas de prevenção.

A estratégia busca reduzir o número de pessoas suscetíveis e facilitar a identificação de novos episódios da doença.

Pensilvânia ultrapassa 1,2 mil casos e registra mortes

A Pensilvânia enfrenta um dos principais focos de sarampo nos Estados Unidos em 2026. Conforme atualização publicada pelo Departamento de Saúde estadual em 14 de outubro, foram confirmados 1.222 casos em 42 condados, com 225 hospitalizações e cinco mortes associadas à doença.

O estado informou ainda que apenas quatro dos casos registrados envolviam pessoas vacinadas, menos de 1% do total. O dado reforça a importância da imunização, embora o histórico vacinal de todos os pacientes precise ser considerado na interpretação dos números.

A situação também expõe os efeitos de bolsões de baixa cobertura vacinal. Quando parcelas de uma comunidade deixam de receber as doses recomendadas, o vírus encontra mais oportunidades para circular e atingir pessoas vulneráveis.

Além da Pensilvânia e de Nova York, outros estados norte-americanos registraram surtos ao longo do ano. Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), atualizados em 9 de outubro, apontavam 4.080 casos confirmados no país em 2026, com registros em dezenas de jurisdições.

A dimensão do surto levou autoridades locais a ampliar campanhas de vacinação e a reforçar a orientação para que a população verifique sua situação vacinal.

Por que uma doença controlada volta a circular?

O ressurgimento do sarampo está relacionado a uma combinação de fatores. Entre os principais estão as lacunas de vacinação, a circulação internacional do vírus e a dificuldade de alcançar uma proteção homogênea entre diferentes grupos populacionais.

A vacina contra o sarampo é altamente eficaz, mas sua disponibilidade não garante, por si só, que toda a população esteja protegida. Para interromper a transmissão, é necessário que um percentual elevado das pessoas receba as doses recomendadas.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) recomenda que os países alcancem e mantenham cobertura de pelo menos 95% com duas doses da vacina contendo o componente contra o sarampo. Quando a cobertura fica abaixo desse patamar, aumenta o risco de surgirem grupos suscetíveis e de ocorrerem surtos após a introdução do vírus.

Outro fator é a desinformação sobre vacinas, apontada por autoridades de saúde como um dos elementos que podem contribuir para a redução da adesão à imunização. A hesitação vacinal pode deixar crianças e adultos desprotegidos, especialmente em comunidades onde a vacinação já enfrenta dificuldades de acesso.

A mobilidade internacional também tem influência. Pessoas infectadas podem viajar antes de perceber os sintomas ou antes de receber o diagnóstico, levando o vírus para outras localidades. Se houver pessoas sem imunização adequada no destino, a transmissão pode continuar.

Isso não significa que viajar seja, isoladamente, a causa de um surto. A disseminação depende da combinação entre a introdução do vírus e a existência de pessoas suscetíveis.

Américas enfrentam aumento expressivo de casos

O avanço da doença nos Estados Unidos faz parte de um cenário epidemiológico mais amplo. Em alerta publicado em 9 de outubro, a OPAS classificou como muito alto o risco de propagação do sarampo na região das Américas, citando lacunas de vacinação, surtos ativos e aumento da mobilidade da população.

Segundo a organização, entre 4 de janeiro e 3 de outubro de 2026, foram registrados 55.792 casos confirmados e 77 mortes em 17 países e territórios das Américas. O número de infecções foi 4,8 vezes maior do que o observado no mesmo período de 2025.

O alerta reforça a necessidade de ampliar a vacinação, fortalecer a vigilância epidemiológica e garantir respostas rápidas diante de novos casos. A preocupação também envolve eventos que aumentam a circulação de pessoas, como grandes encontros e viagens internacionais.

A recomendação é especialmente importante para países que conseguiram interromper a transmissão endêmica, mas continuam expostos à possibilidade de importar casos de regiões onde o vírus permanece circulando.

Amazonas exige atenção especial por causa da tríplice fronteira

No Amazonas, a situação de Tabatinga apresenta desafios específicos. A cidade mantém intenso fluxo de pessoas entre Brasil, Peru e Colômbia, o que exige integração entre os serviços de saúde e capacidade de resposta rápida diante de casos suspeitos.

Em setembro, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) confirmou cinco casos no município, envolvendo três crianças, de 1, 2 e 8 anos, e dois adultos, de 18 e 24 anos. Os pacientes eram de nacionalidade peruana, e os diagnósticos foram confirmados por exames laboratoriais realizados pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas (Lacen-AM).

O Ministério da Saúde informou anteriormente que os primeiros casos identificados em Tabatinga estavam relacionados a pessoas procedentes de Alto Monte, no Peru, sem histórico de vacinação contra o sarampo.

O dado reforça a importância de investigar a origem das infecções, identificar contatos e verificar se houve transmissão local. A nacionalidade dos pacientes, isoladamente, não determina a causa de um surto: o elemento epidemiológico central é a circulação do vírus entre pessoas suscetíveis.

Até 5 de outubro, o Ministério da Saúde contabilizava dez casos no Amazonas em 2026. O país, contudo, permanecia sem transmissão endêmica sustentada, segundo a pasta.

Vacinação é reforçada em municípios do interior

Como resposta ao risco de circulação do vírus, o Ministério da Saúde autorizou a aplicação da chamada dose zero da vacina tríplice viral em crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias em áreas específicas, incluindo Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte.

A estratégia antecipa a proteção de bebês em situações de risco epidemiológico. A dose zero, porém, não substitui as doses previstas no calendário regular, que devem ser administradas posteriormente conforme a orientação das equipes de saúde.

Em 14 de outubro, o Ministério da Saúde também publicou recomendações para intensificar a vacinação contra o sarampo nesses três municípios, com busca ativa de pessoas não vacinadas e ações que incluem territórios indígenas atendidos pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas Alto Rio Solimões e Vale do Javari.

As medidas procuram ampliar a proteção em áreas onde as distâncias, as dificuldades de transporte e as características geográficas podem dificultar o acesso regular aos serviços de saúde.

A atuação conjunta entre municípios, estado e governo federal é fundamental para identificar pessoas com doses em atraso, investigar casos suspeitos e impedir que infecções importadas provoquem novas cadeias de transmissão.

Brasil recuperou certificação, mas continua vulnerável à importação

O Brasil recebeu, em novembro de 2024, o reconhecimento de país livre da circulação endêmica do sarampo. A certificação foi recuperada após a interrupção da transmissão sustentada do vírus.

Esse resultado, entretanto, não significa que o país esteja livre de novos casos. A experiência internacional demonstra que a doença pode reaparecer quando há circulação do vírus em outros territórios e falhas na cobertura vacinal.

Em 2018 e 2019, o Brasil enfrentou grandes surtos após a reintrodução do sarampo. Em 2019, foram registrados mais de 20 mil casos, e o país perdeu a certificação de eliminação após mais de 12 meses de transmissão contínua.

A experiência contribuiu para reforçar a vigilância e as campanhas de imunização. Atualmente, o desafio é impedir que novos casos importados encontrem condições para se disseminar.

Para isso, as autoridades precisam manter a cobertura vacinal elevada, investigar rapidamente as suspeitas e acompanhar os contatos de pessoas infectadas. A vacinação de rotina continua sendo a principal ferramenta para prevenir a doença.

Quais são os sintomas e como se proteger?

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, transmitida pelo ar e por partículas respiratórias. Os sintomas mais comuns incluem febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e manchas vermelhas na pele.

A doença pode provocar complicações graves, como pneumonia e encefalite, especialmente em crianças pequenas e pessoas com maior vulnerabilidade.

A principal forma de prevenção é a vacina tríplice viral, oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quem estiver com doses em atraso deve procurar uma unidade de saúde para verificar a necessidade de atualização do esquema vacinal.

Pessoas com sintomas compatíveis devem buscar orientação médica e informar sobre possíveis contatos com casos suspeitos ou viagens recentes, evitando expor outras pessoas enquanto aguardam avaliação.

O avanço do sarampo nos Estados Unidos e os registros no Amazonas mostram que o controle da doença depende de vigilância constante. Mesmo após a eliminação da circulação endêmica, a proteção da população exige vacinação, acesso aos serviços de saúde e resposta rápida diante de novos casos.

Fontes consultadas