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Júri não chega a acordo em julgamento de mãe acusada de matar três filhos nos EUA

Lindsay Clancy é acusada de matar os três filhos em 2023; defesa sustenta que ela sofreu psicose pós-parto e pede absolvição sem novo julgamento


Foto: afp_tickers

 

O julgamento de Lindsay Clancy, enfermeira de Massachusetts acusada de matar os três filhos pequenos em janeiro de 2023, terminou sem veredito depois que o júri não conseguiu chegar a uma decisão unânime.

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O juiz William Sullivan declarou o julgamento nulo em 4 de setembro, após sete dias de deliberações. A defesa sustenta que Clancy sofria de psicose pós-parto no momento das mortes e não tinha capacidade de compreender a natureza ou a ilegalidade de seus atos. A promotoria, por outro lado, argumentou que ela tinha consciência de suas ações e que os assassinatos foram deliberados.

Clancy admitiu ter matado os três filhos: Cora, de 5 anos; Dawson, de 3; e Callan, de 8 meses. As mortes ocorreram em 24 de janeiro de 2023, na casa da família, em Duxbury, Massachusetts.

Depois de matar as crianças, Clancy tentou tirar a própria vida ao se jogar de uma janela do segundo andar. Ela sobreviveu, mas ficou permanentemente paraplégica e permanece sob cuidados psiquiátricos.

Defesa pede absolvição

Após o encerramento do julgamento sem decisão, o advogado Kevin Reddington apresentou um pedido para que o juiz declare Clancy não culpada por ausência de responsabilidade criminal, sem a realização de um novo julgamento.

A defesa argumenta que as provas apresentadas durante o processo não demonstram que Clancy tinha capacidade mental para compreender que seus atos eram errados quando matou os filhos.

O pedido será analisado pelo juiz William Sullivan em audiência marcada para 29 de setembro. Se a solicitação for rejeitada, a promotoria poderá decidir se pretende levar o caso novamente a julgamento.

Júri ficou dividido

O júri era formado por 12 pessoas, sendo nove mulheres e três homens.

Após o encerramento das deliberações, integrantes do grupo afirmaram que a maioria considerava que Clancy não deveria ser responsabilizada criminalmente devido ao seu estado mental.

Segundo relatos de jurados divulgados posteriormente, 11 integrantes estavam inclinados à absolvição, enquanto um jurado manteve posição contrária. A falta de unanimidade impediu a apresentação de um veredito.

Os depoimentos dos jurados, contudo, não representam uma decisão judicial e não encerram o processo.

Psicose pós-parto é centro da disputa

A principal questão do julgamento não era se Clancy matou os filhos, mas se ela poderia ser considerada criminalmente responsável pelos assassinatos.

A defesa afirmou que a mulher desenvolveu psicose pós-parto, um transtorno psiquiátrico raro que pode provocar delírios, alucinações e perda de contato com a realidade.

Os promotores reconheceram que Clancy enfrentava problemas de saúde mental, mas sustentaram que ela continuava capaz de compreender seus atos e distinguir o certo do errado no momento dos assassinatos.

Julgamento revela o poder perverso da ideologia

Antes de acabar com a vida dos pequenos, Clancy havia pedido ajuda para recuperar sua saúde mental, havia recorrido a um grande número de especialistas – que lhe haviam receitado um grande número de medicamentos – e tinha chegado a se internar voluntariamente em um hospital psiquiátrico. A promotoria, no entanto, insistiu que os problemas de saúde de Lindsay Clancy não a impediram de saber o que fazia e que foi um homicídio planejado (entre outras coisas, porque ela se assegurou de que seu marido se ausentasse de casa pelo tempo suficiente para deixá-la sozinha com as crianças).

À margem destas duas versões, o impasse do júri é melhor compreendido se for analisada a batalha que este caso provocou na opinião pública. Por um lado, estão as mulheres que, por terem sofrido elas mesmas de depressão ou psicose pós-parto, acreditam que os filhos de Clancy poderiam ter sido salvos se os sinais de alarme tivessem sido atendidos a tempo. Por outro, estão aqueles que, sem negar a doença de Clancy, sublinham a necessidade de fazer justiça. E há um terceiro grupo que, em um país onde os true crime fazem sucesso, transformou o julgamento em um espetáculo e em uma fonte de teorias conspiratórias que são transmitidas através do TikTok.

Marido afirmou ter perdoado Clancy

Patrick Clancy, marido de Lindsay na época dos crimes, testemunhou durante o julgamento.

Ele descreveu a deterioração da saúde mental da esposa antes das mortes e afirmou que a perdoou.

O depoimento foi considerado relevante para a estratégia da defesa, que buscou demonstrar que Clancy enfrentava uma grave crise psiquiátrica antes dos assassinatos.

Caso provocou debate sobre saúde mental materna

O processo ganhou ampla repercussão nos Estados Unidos e provocou discussões sobre psicose pós-parto, saúde mental materna e responsabilidade criminal.

A defesa e apoiadores de Clancy passaram a argumentar que o caso deveria ser analisado principalmente sob a perspectiva de uma grave doença mental. Críticos dessa interpretação sustentam que a existência de um transtorno psiquiátrico não significa, automaticamente, ausência de responsabilidade criminal.

No processo, entretanto, a questão será definida pelos critérios jurídicos aplicáveis em Massachusetts e pelas provas apresentadas à Justiça.

Outro caso envolvendo mãe chamou atenção

Durante o período próximo ao julgamento de Clancy, outro caso envolvendo uma mãe e uma criança também ganhou repercussão nos Estados Unidos.

Corie Walsh, de 40 anos, foi acusada de homicídio após o filho Barrett, de 2 anos, ser encontrado morto no porão da residência da família, em Frankfort, Illinois.

Documentos judiciais indicam que Walsh acompanhava o julgamento de Clancy e havia trocado mensagens sobre o caso com amigas poucas horas antes de o filho ser encontrado.

Segundo os investigadores, Walsh teria afirmado que acreditava que o menino era o “diabo” e o “anticristo”. A defesa afirma que ela estava passando por um episódio psicótico.

Não há ligação comprovada entre os dois casos

Apesar da proximidade temporal e do interesse de Walsh pelo julgamento de Clancy, as autoridades não estabeleceram uma relação causal entre os dois episódios.

O fato de Walsh acompanhar o julgamento e conversar sobre o caso antes da morte do filho aparece nos documentos da investigação, mas não existe, até o momento, evidência pública de que o processo de Massachusetts tenha provocado diretamente o crime ocorrido em Illinois.

O que acontece agora

O futuro do processo de Lindsay Clancy deverá começar a ser definido na audiência de 29 de setembro.

O juiz poderá aceitar o pedido da defesa e encerrar o processo com uma decisão de não responsabilidade criminal ou rejeitá-lo, abrindo caminho para que a promotoria avalie a realização de um novo julgamento.

Até uma decisão definitiva, Clancy permanece sem condenação pelos assassinatos, apesar de ter admitido as mortes. O ponto jurídico ainda pendente é determinar se ela tinha responsabilidade criminal no momento em que os crimes foram cometidos.