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25 anos depois, o 11 de Setembro já não representa a mesma ameaça — mas continua transformando os EUA

Um quarto de século após os atentados que mataram milhares e desencadearam guerras, americanos mudaram sua percepção sobre terrorismo, segurança e poder do Estado; hoje, o extremismo doméstico preocupa mais do que grupos estrangeiros.


Flores entre os nomes na Piscina Norte do Memorial e Museu do 11 de Setembro, às vésperas do 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center em Nova York, EUA, 31 de agosto de 2026 – Foto: Brendan McDermid/REUTERS

 

O 11 de Setembro mudou os Estados Unidos em poucas horas. Vinte e cinco anos depois, porém, foi o próprio país que mudou a forma de enxergar aquela tragédia.

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Os atentados de 2001 colocaram o terrorismo internacional no centro da política americana, desencadearam guerras no Oriente Médio e no Afeganistão, ampliaram os mecanismos de vigilância do governo e transformaram até mesmo uma viagem de avião em uma experiência completamente diferente.

Em 2026, o cenário é outro.

Uma nova pesquisa Reuters/Ipsos mostra que 33% dos americanos consideram o terrorismo doméstico a principal ameaça à segurança, enquanto 20% apontam o terrorismo estrangeiro. Quando a pergunta é especificamente sobre ataques motivados por ideologia, a diferença se amplia: 61% enxergam os extremistas domésticos como uma ameaça maior, contra 34% que apontam grupos estrangeiros.

O resultado representa uma inversão significativa em relação ao período posterior aos atentados.

2001: quando o inimigo vinha de fora

Na manhã de 11 de setembro de 2001, integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois foram lançados contra as torres do World Trade Center, em Nova York. Um terceiro atingiu o Pentágono, na região de Washington. O quarto caiu na Pensilvânia depois que passageiros e tripulantes tentaram retomar o controle da aeronave.

 

Destroços do complexo do World Trade Center em Nova York, após o histórico ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 – Foto: Reprodução

 

Quase 3 mil pessoas morreram.

A resposta americana foi imediata.

Poucas semanas depois, os Estados Unidos iniciaram a invasão do Afeganistão, onde estava instalada a liderança da Al-Qaeda. Em 2003, veio a invasão do Iraque.

O combate ao terrorismo passou a orientar decisões de política externa, orçamento militar e inteligência.

A lógica predominante era clara: impedir que outro 11 de Setembro acontecesse, independentemente do custo.

2013: a ameaça ainda era estrangeira

Mais de uma década depois, entretanto, os americanos já demonstravam sinais de mudança.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em 2013 mostrava que 28% dos entrevistados consideravam o terrorismo estrangeiro a maior ameaça, contra 21% que apontavam o terrorismo doméstico.

Naquele mesmo ano, os atentados da Maratona de Boston reavivaram o medo do terrorismo inspirado pela Al-Qaeda. Três pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Mas episódios posteriores ajudariam a deslocar o foco da população.

2026: o medo está dentro do próprio país

 

Atentado contra Donald Trump, em 2024: radicalização tem levado a uma escalada global de ataques a líderes e ativistas de direita – Foto: EFE/EPA/David Maxwell

 

Massacres, ataques motivados por extremismo político e violência contra grupos raciais e religiosos passaram a ocupar espaço crescente no debate americano.

O atentado contra uma boate em Orlando, em 2016, que matou 49 pessoas, tornou-se um dos exemplos mais traumáticos dessa transformação.

A violência política também ganhou uma dimensão nacional.

Donald Trump foi alvo de múltiplas tentativas de assassinato, incluindo um ataque a tiros durante um comício em 2024, no qual foi ferido na orelha.

Em 2025, o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, baleado enquanto discursava para estudantes universitários em Utah, reforçou novamente o temor de que a violência motivada por disputas políticas pudesse se tornar uma ameaça interna.

 

Kirk pouco antes de ser alvo de tiro mortal na Universidade Utah Valley e o momento da ação – Foto acima: BCC News Brasil/fotos abaixo: Estadão

 

O resultado é uma mudança profunda na percepção pública: o terrorismo deixou de ser visto exclusivamente como um problema importado.

O que mudou em 25 anos?

Em 2001 Em 2026
Principal preocupação: terrorismo estrangeiro Crescente preocupação com extremismo doméstico
Início da guerra no Afeganistão Maioria considera que a guerra não valeu o custo
Invasão do Iraque Maioria também rejeita o custo da guerra
Expansão da vigilância governamental Maioria resiste à vigilância sem mandado
Segurança aeroportuária ainda limitada Reforço da segurança amplamente aceito
Trauma concentrado nos sobreviventes imediatos Consequências de saúde continuam décadas depois
Al-Qaeda como principal símbolo da ameaça Extremismo doméstico e violência política ganham destaque

Segurança: sim. Vigilância: nem tanto.

Uma das poucas heranças do 11 de Setembro que continua contando com forte apoio popular é o aumento da segurança nos aeroportos.

Segundo a pesquisa, seis em cada dez americanos consideram que a resposta do governo aos ataques foi pelo menos parcialmente eficaz para evitar novos atentados em território nacional.

A segurança aeroportuária também recebe apoio de democratas e republicanos. Cerca de 71% dos democratas e 75% dos republicanos consideram que o reforço das medidas de segurança valeu os transtornos causados aos passageiros.

Mas esse apoio desaparece quando a discussão passa para a privacidade.

65% dos entrevistados rejeitam a possibilidade de agências de inteligência monitorarem comunicações eletrônicas de cidadãos americanos sem mandado judicial.

É um dos paradoxos mais importantes do legado do 11 de Setembro: os americanos aceitam mais segurança em aeroportos, mas não necessariamente aceitam entregar ao governo mais poder sobre sua vida privada.

A conta das guerras

O segundo grande legado que mudou de sinal ao longo do tempo é militar.

No início, a ideia de uma resposta armada recebeu amplo apoio. Vinte e cinco anos depois, a percepção é muito mais crítica.

Afeganistão: 48% dizem que a guerra não valeu seu custo, contra 21% que avaliam que valeu a pena.

Iraque: 51% desaprovam o conflito, enquanto apenas 21% aprovam.

A experiência dessas duas guerras ajudou a consolidar uma sociedade americana mais desconfiada de intervenções militares prolongadas.

A questão continua atual.

A pesquisa aponta que apenas 25% dos americanos consideram que o atual conflito contra o Irã valeu a pena. Para 54%, o custo não compensou.

O contraste é significativo: a sociedade que, em 2001, respondeu ao terrorismo com guerras de longa duração hoje demonstra muito menos disposição para repetir esse modelo.

A tragédia que continua nos hospitais

Existe, porém, uma parte da história que não aparece nas pesquisas de opinião.

É a história das pessoas que adoeceram depois de sobreviver ao ataque.

A poeira e os resíduos liberados pela destruição do World Trade Center expuseram socorristas, policiais, bombeiros, trabalhadores, voluntários e moradores a uma combinação de substâncias tóxicas.

Os efeitos apareceram ao longo dos anos.

 

Fumaça se ergue da Torre Norte destruída do World Trade Center cinco dias após os ataques terroristas. À esquerda estão os escombros do Six World Trade, destruído pela queda de destroços – Foto: Everett Collection Historical, Alamy Stock Photo

 

Segundo dados divulgados em 2026 pelo Corpo de Bombeiros de Nova York, 10.562 integrantes do departamento possuem certificação para pelo menos uma condição física relacionada ao World Trade Center. Outros milhares possuem certificações relacionadas à saúde mental e ao câncer.

Isso transformou o 11 de Setembro em um problema de saúde pública de longo prazo.

A tragédia deixou de ser apenas uma questão de terrorismo, guerra e segurança nacional.

Passou também a ser uma questão médica.

Uma nova geração que não viveu o 11 de Setembro

Talvez a mudança mais silenciosa seja geracional.

Em 2001, crianças assistiram às imagens das torres em chamas pela televisão. Adultos viram um mundo conhecido desaparecer em poucas horas.

Em 2026, milhões de americanos adultos nasceram depois dos atentados.

Para essa geração, o 11 de Setembro não é uma lembrança pessoal. É história, documentário, fotografia, relato familiar e registro digital.

Ainda assim, a pesquisa mostra que aproximadamente seis em cada dez americanos dizem pensar periodicamente nos ataques.

E 75% consideram que o episódio teve um impacto importante sobre os Estados Unidos — proporção muito superior aos 41% que atribuem impacto semelhante à crise financeira de 2007–2009.

25 anos de transformação

2001 — Ataques contra Nova York e Washington deixam quase 3 mil mortos.

2001 — Estados Unidos invadem o Afeganistão.

2002–2003 — Segurança interna e inteligência são reorganizadas e ampliadas.

2003 — Invasão do Iraque.

2010 — Congresso cria programa federal permanente de saúde para pessoas afetadas pelo World Trade Center.

2013 — Atentado da Maratona de Boston reacende o debate sobre terrorismo estrangeiro.

2016 — Ataque à boate Pulse, em Orlando, evidencia a dimensão da violência extremista doméstica.

2021 — Os Estados Unidos encerram sua presença militar no Afeganistão.

2024 — Donald Trump é ferido em uma tentativa de assassinato durante um comício.

2025 — Charlie Kirk é morto a tiros em Utah.

2026 — Pesquisa mostra que o extremismo doméstico preocupa mais os americanos do que o terrorismo estrangeiro.

O legado mudou — mas não desapareceu

O 11 de Setembro produziu uma transformação que nenhum outro atentado havia provocado na história americana recente.

Mudou aeroportos. Mudou a política externa. Mudou as agências de inteligência. Mudou a percepção sobre segurança. Mudou a relação entre liberdade individual e poder estatal.

E, sobretudo, mudou a própria ideia de ameaça.

Em 2001, o medo vinha de uma organização estrangeira capaz de organizar um ataque de escala inédita em solo americano.

Em 2026, o medo está mais fragmentado.

Ele pode vir de um extremista doméstico, de um ataque político, de um massacre aleatório ou de uma radicalização que acontece dentro das próprias fronteiras.

Essa talvez seja a maior transformação dos últimos 25 anos.

O 11 de Setembro não deixou de definir os Estados Unidos. O que mudou foi a forma como os americanos entendem aquilo que precisam temer para que outro 11 de Setembro não aconteça.

E, para milhares de sobreviventes e socorristas, a resposta é ainda mais simples: para eles, aquele dia nunca terminou.