
Centenas de palestinos carregam sacos de farinha coletados em Zikim neste domingo (27) – Foto: Mohammed Saber/EFE
O governo de Israel anunciou neste domingo a suspensão temporária de suas operações militares em três áreas da Faixa de Gaza. As pausas ocorrerão diariamente, das 10h às 20h (horário local), com o objetivo de facilitar o envio de ajuda humanitária a civis afetados pelo conflito.
As zonas abrangidas incluem Al-Mawasi, região costeira designada como área humanitária, Deir al-Balah, no centro de Gaza, e partes da Cidade de Gaza, no norte. Segundo o Exército israelense, corredores seguros também serão abertos diariamente, das 6h às 23h, para permitir o tráfego de comboios com alimentos, água e medicamentos.
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O anúncio ocorre em meio à intensificação das críticas internacionais contra Israel por conta da grave crise humanitária no enclave palestino. Apesar da medida, grupos humanitários alertam que a fome em massa continua a se espalhar entre os 2,2 milhões de habitantes de Gaza, e que a ajuda ainda é insuficiente.
Ajuda chega por terra e ar, mas fome avança
No mesmo dia do anúncio, Jordânia e Emirados Árabes Unidos realizaram lançamentos aéreos de cerca de 25 toneladas de suprimentos sobre Gaza — o primeiro em meses. Embora simbolicamente importante, a medida foi considerada por autoridades como paliativa, já que a maior parte da ajuda necessária precisa chegar por terra.
Mais de 100 caminhões com alimentos seguiram em direção ao sul de Gaza no domingo, muitos deles transportados pelo Crescente Vermelho Egípcio. De acordo com a organização, mais de 1.200 toneladas de alimentos foram despachadas. No entanto, moradores relataram que parte dos caminhões foi saqueada na região de Khan Younis após cruzar a fronteira.
Segundo Tom Fletcher, chefe de ajuda da ONU, Israel flexibilizou temporariamente algumas restrições logísticas, permitindo que os caminhões fossem reunidos em postos de controle. Apesar do progresso, Fletcher advertiu: “Grandes quantidades de ajuda são necessárias para evitar a fome generalizada e uma crise de saúde catastrófica.”

Suprimentos entraram em Gaza via Israel, em Beit Lahia, norte da Faixa de Gaza – 27-07- 2025 / Foto: Mahmoud Issa/Reuters
Desnutrição já causou 133 mortes, diz Ministério da Saúde de Gaza
O Ministério da Saúde do Hamas informou que, até o momento, ao menos 133 pessoas morreram em Gaza devido à desnutrição desde o início da guerra, em outubro de 2023. Entre as vítimas, estão 87 crianças. No sábado, um bebê de apenas cinco meses, Zainab Abu Haleeb, faleceu por falta de alimentação adequada no Hospital Nasser. “Três meses dentro do hospital e ela morreu”, lamentou sua mãe, Israa Abu Haleeb.
Autoridades de saúde relataram ainda que ao menos 10 pessoas ficaram feridas após a queda desordenada de caixas de ajuda durante os lançamentos aéreos. Paralelamente, Israel informou que começará nos próximos dias a instalação de um oleoduto para levar água dessalinizada do Egito a cerca de 600 mil moradores da faixa costeira.
Violência persiste e mortes continuam em meio à distribuição de ajuda
Mesmo com os esforços humanitários, a violência continua. Profissionais dos hospitais Al-Awda e Al-Aqsa denunciaram que pelo menos 17 pessoas foram mortas por disparos israelenses enquanto aguardavam ajuda. O Exército de Israel afirma ter disparado tiros de advertência contra suspeitos que representavam risco às tropas, e negou ter conhecimento de vítimas.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a ajuda continuará sendo permitida, mas garantiu que a campanha militar seguirá até a “vitória completa”. Já o Hamas classificou a medida como insuficiente. “O que está acontecendo não é uma trégua humanitária”, declarou Ali Baraka, representante do grupo.
Guerra entra no décimo mês com saldo devastador
O conflito foi deflagrado em 7 de outubro de 2023, quando combatentes do Hamas atacaram o sul de Israel, matando 1.200 pessoas e sequestrando 251 reféns, segundo autoridades israelenses. Em resposta, Israel iniciou uma ofensiva militar que já matou quase 60 mil palestinos, a maioria civis, conforme dados do Ministério da Saúde de Gaza.
A destruição generalizada reduziu grande parte do território a escombros e forçou o deslocamento de quase toda a população. As negociações indiretas de cessar-fogo em Doha foram interrompidas, e não há acordo à vista.
Enquanto isso, a população de Gaza segue entre a esperança por ajuda e a incerteza sobre o futuro. “As pessoas estão felizes por ver comida chegando”, disse Tamer Al-Burai, empresário local. “Esperamos que este seja o primeiro passo para o fim de uma guerra que destruiu tudo.”
Ações aéreas simbólicas e críticas de eficácia
Jordânia e Emirados Árabes Unidos realizaram lançamentos aéreos de cerca de 25 toneladas de alimentos — em sua primeira ação dessa natureza após meses — como medida complementar às entregas terrestres, considerada simbólica por especialistas por não suprir as necessidades da população.
Críticas internacionais e diplomáticas
O secretário de Relações Exteriores britânico, David Lammy, qualificou a iniciativa como necessária, porém tardia, e instou o acesso irrestrito por terra, além de um cessar-fogo efetivo. De forma similar, Tom Fletcher, chefe da ajuda da ONU, disse que a organização “fará tudo o que puder” para maximizar a ajuda durante as pausas.
Hamas critica pausas e mantém ofensiva
O grupo islâmico Hamas, que governa a Faixa de Gaza desde 2007, rejeitou a iniciativa de Israel, classificando as pausas como manobras “unilaterais e insuficientes”. Para o Hamas, as interrupções não representam um cessar-fogo real, mas sim uma tentativa de aliviar a pressão internacional sem cessar a ofensiva.
“O que está acontecendo não é uma trégua humanitária”, afirmou Ali Baraka, alto representante do Hamas. O grupo acusa Israel de continuar ataques contra civis mesmo durante os períodos de suposta trégua, e afirma que a luta armada continuará até a retirada das forças israelenses.
O Hamas também é responsabilizado por Israel e parte da comunidade internacional por dificultar a distribuição de ajuda, ao alegadamente desviar recursos e operar militarmente em áreas civis. O grupo, por outro lado, afirma que está defendendo o território palestino da ocupação.
