Uma gigantesca massa de gelo e rochas que se desprendeu nas montanhas do Himalaia desencadeou, na quarta-feira (26), uma das mais graves catástrofes registradas recentemente na região entre o Nepal e o Tibete, na China. A avalanche provocou uma violenta corrente de água, lama e detritos que avançou pelos vales, destruindo casas, estradas, pontes, instalações de energia e áreas frequentadas por turistas e peregrinos.
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O número de vítimas ainda é atualizado pelas autoridades. Balanços divulgados nesta quinta-feira (27) apontam para mais de 350 mortos e centenas de desaparecidos no Nepal e no Tibete, enquanto equipes de resgate continuam as buscas em áreas de difícil acesso. Entre os desaparecidos estão centenas de estrangeiros.

Foto: Navesh Chitrakar/REUTERS
Colapso de geleira está na origem da enxurrada
As primeiras informações chegaram a levantar a possibilidade de um terremoto ter provocado o desastre. A hipótese, porém, foi posteriormente descartada pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que identificou o fenômeno inicialmente registrado como atividade sísmica como resultado do próprio colapso de gelo, rochas e sedimentos.
Análises de imagens de satélite indicam que uma grande massa de gelo e rocha se desprendeu nas proximidades do Langtang Lirung, no Nepal. O material atingiu o vale e desencadeou um enorme fluxo de detritos, que se espalhou rapidamente pelas áreas situadas abaixo da montanha.
A força da correnteza foi suficiente para alterar trechos dos rios, soterrar comunidades e destruir importantes vias de ligação entre o Nepal e o Tibete. No lado chinês, a região de Gyirong também sofreu graves danos.
Buscas continuam em meio à destruição
As operações de emergência avançam com helicópteros, equipes especializadas e veículos de resgate. O trabalho, no entanto, é dificultado pela destruição de estradas, pontes e outras estruturas de acesso, além do risco de novos deslizamentos e inundações.
Grande parte dos desaparecidos estava em áreas utilizadas por turistas, trilheiros e peregrinos. A região é especialmente movimentada durante a temporada de peregrinação ao Monte Kailash, no Tibete, local sagrado para diferentes tradições religiosas asiáticas.
Governos de diferentes países também tentam localizar seus cidadãos. Informações divulgadas pelas autoridades apontam para desaparecidos de países como Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Canadá.

Casas ficam parcialmente submersas após uma inundação repentina em Trishuli Bazar, no Nepal, em 26 de agosto de 2026 — Foto: Prabin Ranabhat/AFP
Mudanças climáticas aumentam a vulnerabilidade
Embora ainda seja cedo para afirmar que o aquecimento global foi a causa direta do colapso ocorrido nesta semana, especialistas destacam que as mudanças climáticas estão alterando as condições físicas das montanhas do Himalaia.
O aquecimento provoca o recuo das geleiras, altera os padrões de neve e contribui para o derretimento do permafrost — camada de solo permanentemente congelada que ajuda a estabilizar encostas e rochas em regiões de alta altitude.
Com o enfraquecimento dessas estruturas, aumenta a possibilidade de deslizamentos, avalanches, fluxos de detritos e rompimentos de lagos glaciais.
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) informou, em março de 2026, que a velocidade de perda de gelo nas geleiras do Hindu Kush-Himalaia dobrou desde 2000. A organização também estima que as geleiras da região perderam até 27 metros de espessura desde 1975.
Um estudo do próprio ICIMOD, divulgado em agosto de 2026, apontou ainda uma redução de 12% na área das geleiras do Hindu Kush-Himalaia entre 1990 e 2020, associada à aceleração das mudanças climáticas.
O que são as inundações causadas por lagos glaciais?
Um dos fenômenos que preocupa os pesquisadores é conhecido pela sigla inglesa GLOF, ou inundação causada pelo rompimento repentino de um lago glacial.
Quando uma geleira recua, a água do derretimento pode se acumular atrás de uma barreira formada por gelo, rochas e sedimentos. Essas estruturas naturais podem ser instáveis. Caso se rompam, grandes volumes de água são liberados em poucos minutos, provocando uma onda destrutiva pelos vales.
Nem todo desastre desse tipo, porém, ocorre por um GLOF. No caso da tragédia de 26 de agosto, as evidências disponíveis apontam principalmente para um grande colapso de gelo e rocha que desencadeou um fluxo de detritos. Os pesquisadores continuam analisando as imagens de satélite e outros dados para determinar a sequência exata dos acontecimentos.

Lago Imja, no Nepal. Derretimento das geleiras, causados por aquecimento global, alimenta lagos glaciais, aumentando riscos de avalanches, deslizamentos e inundações repentinas – Foto: Jason Gulley/NYT
Himalaia enfrenta risco crescente
O desastre ocorre em uma região que já registrou outros episódios graves relacionados à instabilidade de geleiras, lagos glaciais e encostas.
Segundo o ICIMOD, a criosfera do Hindu Kush-Himalaia — conjunto formado por geleiras, neve e permafrost — está passando por mudanças rápidas. A organização alerta que o derretimento acelerado, combinado à ocupação humana de áreas montanhosas, aumenta os riscos para comunidades, infraestrutura, produção de energia, agricultura e abastecimento de água.
Mais de dois bilhões de pessoas vivem nas áreas a jusante dos grandes sistemas fluviais abastecidos, direta ou indiretamente, pela água proveniente das montanhas do Hindu Kush-Himalaia. Por isso, os efeitos do derretimento das geleiras vão muito além das áreas de alta montanha.
Uma tragédia que expõe um problema maior
A dimensão do desastre no Nepal e no Tibete evidencia a combinação de dois fatores: uma paisagem montanhosa naturalmente sujeita a movimentos de gelo, rocha e água e uma região onde o aquecimento global vem modificando rapidamente as condições ambientais.
Especialistas ressaltam que ainda será necessário investigar detalhadamente o evento para determinar quanto cada fator contribuiu para o colapso. O que já está claro, entretanto, é que a redução das geleiras e o derretimento do permafrost estão tornando o ambiente do Himalaia mais instável.
Enquanto as equipes continuam procurando sobreviventes e desaparecidos, a tragédia reforça a necessidade de ampliar o monitoramento de geleiras, lagos glaciais e encostas, além de melhorar sistemas de alerta e planos de evacuação para comunidades e áreas turísticas localizadas nos vales.
Atualização — 27 de agosto de 2026: os números de mortos e desaparecidos permanecem provisórios e podem aumentar à medida que as equipes de resgate alcançam áreas isoladas e identificam novas vítimas. As autoridades do Nepal e da China continuam as operações de busca e recuperação.
