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Acidente entre trens de alta velocidade deixa ao menos 68 mortos na Espanha; investigação apura falha de sinalização

Colisão na região de Castilla-La Mancha envolveu composições da Renfe e da Iryo. Autoridades investigam por que um dos trens recebeu autorização para seguir viagem enquanto o outro permanecia parado nos trilhos.


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URDA, ESPANHA — Ao menos 68 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas após a colisão entre dois trens de alta velocidade na manhã desta quarta-feira (28), nas proximidades do município de Urda, na província de Toledo, região central da Espanha. O acidente provocou o descarrilamento de vagões, mobilizou centenas de profissionais de emergência e levou à suspensão da circulação ferroviária no corredor de alta velocidade entre Madri e a região da Andaluzia.

 

Equipes de resgate trabalham no local da colisão de dois trens de alta velocidade entre as cidades de Mora e Orgaz, perto de Toledo, na Espanha, em 28 de outubro de 2026 – Foto:  Violeta Santos Moura/REUTERS 

 

As primeiras informações apontam que um trem da operadora estatal Renfe atingiu a traseira de uma composição da empresa privada Iryo, que estava parada na mesma via. Segundo as autoridades espanholas, uma falha no sistema de segurança ferroviária antecedeu o acidente, e a investigação busca esclarecer as circunstâncias em que o trem da Renfe recebeu autorização para retomar a marcha.

O balanço divulgado pelas autoridades ao longo do dia ainda era considerado provisório. Equipes de resgate continuavam trabalhando entre os destroços para localizar vítimas, prestar atendimento aos sobreviventes e concluir a identificação dos mortos.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que a investigação será conduzida até que as causas e eventuais responsabilidades sejam esclarecidas. Durante visita ao centro de coordenação das operações, o chefe de governo declarou que “toda a Espanha está de luto” e anunciou três dias de luto nacional, de quinta-feira (29) a sábado (31).

Falha no sistema de segurança está no centro da investigação

De acordo com o ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, o sistema de sinalização e proteção ferroviária LZB apresentou uma falha por volta das 8h30, no horário local. O problema provocou a parada automática de vários trens que circulavam pelo trecho, incluindo as duas composições envolvidas na colisão.

O LZB é uma tecnologia que transmite informações sobre as condições da via para a cabine do maquinista e monitora a velocidade dos trens. O sistema também pode acionar automaticamente os freios quando identifica condições que exigem a interrupção da circulação.

Após a falha, a operação precisou recorrer a procedimentos alternativos. Segundo a versão apresentada pelo ministro, o trem da Iryo parou diante de um sinal vermelho. Pouco depois, o centro de controle ferroviário autorizou o trem da Renfe a retomar a viagem, apesar de as condições de sinalização ainda impedirem a circulação normal.

Puente classificou a autorização como “errada” e “inexplicável”. A decisão do centro de controle passou a ser um dos principais pontos da apuração, mas as circunstâncias exatas da ocorrência ainda precisam ser estabelecidas.

Segundo a sequência preliminar apresentada pelas autoridades, o trem da Renfe percorreu aproximadamente 25 quilômetros em cerca de 17 minutos antes de atingir a composição da Iryo. A velocidade dos trens no momento do impacto ainda não havia sido determinada.

A investigação deverá esclarecer como a falha técnica foi identificada, quais instruções foram transmitidas aos maquinistas e se os procedimentos de segurança previstos para situações excepcionais foram cumpridos.

 

Familiares aguardam notícias sobre parentes, após a colisão de dois trens de alta velocidade entre as cidades de Mora e Orgaz, em Urda, Espanha, 28 de outubro de 2026 – Foto: Susana Vera/REUTERS 

 

Guarda Civil ouve funcionários do centro de controle

A investigação também avançou na apuração das decisões tomadas antes da colisão. Segundo o jornal espanhol El País, agentes da Guarda Civil começaram a ouvir o operador do centro de controle da Adif, empresa responsável pela infraestrutura ferroviária, que teria autorizado a retomada da marcha do trem da Renfe.

Outros funcionários que estavam no centro de controle no momento do acidente também seriam ouvidos. A apuração inclui a coleta de registros da circulação ferroviária e dos protocolos aplicáveis aos minutos anteriores, durante e após a colisão.

A investigação judicial foi assumida pelo tribunal competente na região de Orgaz, em Toledo. Conforme o El País, a Justiça determinou diligências para reunir informações sobre a operação ferroviária e as circunstâncias do acidente.

Paralelamente, especialistas em investigação técnica de acidentes ferroviários foram enviados ao local. O objetivo é examinar os destroços, analisar os dados disponíveis e reconstruir a sequência dos acontecimentos.

Embora as informações iniciais apontem para uma possível falha operacional após o problema de sinalização, ainda não há conclusão definitiva sobre as causas do acidente nem sobre eventuais responsabilidades individuais ou institucionais.

Vagões ficaram destruídos e equipes trabalham entre os destroços

A violência do impacto provocou danos graves às composições. Parte dos vagões da Iryo ficou severamente destruída, e unidades descarriladas caíram por um talude às margens da ferrovia. Relatos divulgados pela imprensa espanhola também indicaram que houve incêndio em um dos vagões.

O trabalho de resgate foi dificultado pelas condições de acesso ao local, alcançado por estradas estreitas e de terra. Guindastes de grande porte, bombeiros, equipes médicas, policiais e profissionais especializados participaram das operações.

Os socorristas precisaram atuar em áreas de difícil acesso e entre estruturas metálicas deformadas para localizar passageiros e retirar vítimas. A possibilidade de encontrar outras pessoas nos vagões mais danificados manteve o balanço de mortos e feridos sujeito a alterações.

Os dados hospitalares também variaram durante o dia. Em uma atualização inicial, as autoridades informaram que 108 pessoas haviam ficado feridas, com 77 hospitalizadas e 15 em estado muito grave. Posteriormente, o governo regional de Castilla-La Mancha informou que 53 pessoas permaneciam internadas, sendo 15 em estado grave.

Os números correspondem a momentos diferentes da apuração e não devem ser somados. A identificação das vítimas e a consolidação dos dados dependem do avanço dos trabalhos de emergência.

Mais de 500 passageiros estavam nos dois trens

As composições envolvidas transportavam centenas de passageiros. Conforme os dados divulgados pelas autoridades e pela imprensa espanhola, o trem da Iryo levava cerca de 147 passageiros, enquanto o trem da Renfe transportava aproximadamente 397 pessoas.

As informações sobre a quantidade de ocupantes variaram entre os primeiros comunicados, e a confirmação definitiva depende da consolidação dos registros de passageiros.

Segundo informações publicadas pelo El País, estrangeiros estavam entre as vítimas. Autoridades espanholas entraram em contato com representações diplomáticas de diferentes países, mas as nacionalidades dos passageiros atingidos ainda não haviam sido divulgadas de forma completa.

A identificação dos mortos é uma etapa essencial para que as famílias sejam oficialmente informadas. Até a conclusão desse procedimento, as autoridades evitam divulgar informações que possam levar a identificações incorretas.

A Renfe informou que ativou seu plano de assistência a vítimas e familiares e disponibilizou o telefone 900 10 10 20 para atendimento. A Adif também divulgou o contato da Iryo, pelo número 900 001 403, para pessoas que buscam informações sobre passageiros da operadora privada.

Circulação entre Madri e Andaluzia foi suspensa

O acidente interrompeu a circulação de trens de alta velocidade no corredor que conecta Madri a destinos da Andaluzia, incluindo Sevilha, Córdoba e Málaga. A medida afetou passageiros que já estavam em viagem e pessoas que planejavam embarcar nas estações da região.

A Renfe anunciou a preparação de alternativas de transporte por linhas convencionais, com previsão de aumento de aproximadamente uma hora e meia no tempo de deslocamento em determinados trajetos. A empresa também informou que trabalhava em soluções para atender os passageiros enquanto a linha de alta velocidade permanecesse interditada.

As operadoras recomendaram que os viajantes acompanhassem os comunicados oficiais antes de se deslocar às estações. A normalização do serviço depende das condições de segurança, dos trabalhos no local e da liberação da infraestrutura pelas autoridades responsáveis.

Nova tragédia reacende debate sobre a segurança ferroviária

O acidente de Urda ocorreu pouco mais de nove meses depois de outra tragédia ferroviária no país. Em 18 de janeiro de 2026, um acidente em Adamuz, na província de Córdoba, deixou 46 mortos e reacendeu o debate sobre a manutenção da infraestrutura e a segurança do transporte ferroviário espanhol.

O novo episódio aumenta a pressão sobre as autoridades para esclarecer se houve falhas nos sistemas de proteção, nos procedimentos operacionais ou na comunicação entre os responsáveis pelo controle do tráfego. No entanto, a semelhança entre os dois acidentes não significa que tenham a mesma causa.

A Espanha possui uma das maiores redes ferroviárias de alta velocidade do mundo, com milhares de quilômetros de trilhos e dezenas de milhões de passageiros transportados anualmente. A dimensão da rede e a importância do serviço para a mobilidade nacional tornam a investigação especialmente relevante para a avaliação dos protocolos de segurança.

A tragédia também teve repercussões políticas. O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Pedro Sánchez, e o Partido Popular (PP) suspenderam atividades de campanha em respeito às vítimas, a pouco mais de um mês das eleições legislativas previstas para 29 de novembro.

O governo espanhol prometeu apurar eventuais negligências e esclarecer as circunstâncias da colisão. A investigação técnica e judicial deverá determinar como a falha de sinalização afetou a circulação, por que a composição da Renfe retomou a marcha e quais fatores contribuíram para a dimensão da tragédia.

Até que os resultados sejam divulgados, a hipótese de erro humano permanece em análise, sem que isso represente uma conclusão definitiva sobre as responsabilidades pelo acidente.