
O dia 20 de setembro, conhecido como o Dia do gaúcho, é feriado no estado do Rio Grande do Sul. A data recorda o início a Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, em 20 de setembro de 1835 – Foto: Reprodução
Setembro é um mês de festa e celebração no Rio Grande do Sul. Em todo o estado, eventos culturais ressaltam as tradições gaúchas, com destaque para o Dia do Gaúcho, comemorado em 20 de setembro. A data marca o início da Revolução Farroupilha, um episódio histórico significativo que ocorreu entre 1835 e 1845, quando a população local se insurgiu contra o Império brasileiro. Apesar de suas raízes no conservadorismo regional, a celebração também é um espaço para refletir sobre as diversas histórias que formam a identidade do povo gaúcho, incluindo aquelas que, por muito tempo, foram marginalizadas.
O Acampamento Farroupilha e Seus Piquetes: Diversidade em Debate
Em Porto Alegre, o Acampamento Farroupilha se torna o centro dessa celebração, reunindo milhões de pessoas que se encontram em 236 piquetes — espaços de confraternização e preservação cultural. Desde 1º de setembro, as festividades incluem música, danças, comidas típicas e até exposições que resgatam a história do Rio Grande do Sul. Mas, além das tradicionais festividades, o evento também dá espaço para a crítica e a reflexão.
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Entre os piquetes, destacam-se aqueles que buscam reinterpretar a cultura gaúcha e incorporar outras narrativas. O Piquete Pêlo Escuro, por exemplo, foca na história do povo negro e em como ele contribuiu para a construção da identidade do estado. Este espaço, vinculado ao Instituto Oliveira Silveira, busca resgatar a memória dos Lanceiros Negros, soldados escravizados que foram traídos e massacrados durante a Revolução Farroupilha. Segundo Sátira Machado, jornalista e professora universitária, o piquete nasceu para combater o racismo e dar voz às histórias dos negros nas culturas gaúchas.
Outro piquete que se destaca é o do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, que mistura as celebrações tradicionais com discussões sobre as questões sociais e sindicais. O espaço, que serve como ponto de encontro para trabalhadores e suas famílias, também se torna um local de debate sobre a realidade dos trabalhadores, como o fechamento de agências bancárias e a pressão por metas de produção.

Foto: Eduardo Canali/Prefeitura de Tapejara
A Contradição de Celebrar a Revolução Farroupilha
Para muitos, o Dia do Gaúcho é um momento de celebração e reflexão sobre a identidade gaúcha. No entanto, a festa também é um ponto de controvérsia, principalmente por ser historicamente associada à elite agrária que liderou a Revolução Farroupilha. Giovanni Mesquita, historiador, acredita que, apesar das contradições, a celebração é uma oportunidade de manter viva uma tradição histórica importante, que é da população local e representa a diversidade do Brasil.
Embora muitos defendam a importância de preservar as tradições, Mesquita argumenta que o campo progressista também deve se aproximar dessa celebração. Ele acredita que é possível, através do diálogo e da reflexão crítica, integrar a história da Revolução Farroupilha com outras narrativas, inclusive aquelas que questionam as desigualdades sociais presentes na formação da sociedade gaúcha.
Glossário: Palavras da Cultura Gaúcha
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Piquete: Pequeno galpão ou espaço montado no Acampamento Farroupilha, onde grupos e entidades se reúnem para celebrar a cultura gaúcha e debater temas sociais.
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Patrão/Patrona: Pessoa que organiza e coordena as atividades de um piquete. Geralmente, é responsável pelo funcionamento do espaço durante o evento.
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Lanceiro Negro: Escravizado que lutou ao lado dos Farroupilhas durante a Revolução Farroupilha, sendo muitas vezes traído e massacrado pelos próprios líderes republicanos.
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Querência: Palavra usada para se referir ao território, à terra ou à pátria. No contexto gaúcho, está associada ao sentimento de pertencimento e amor pela terra.
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Chimarrão: Bebida típica da cultura gaúcha, feita com erva-mate e água quente, consumida especialmente durante as confraternizações.
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Farrapo: Termo usado para se referir aos revolucionários que participaram da Revolução Farroupilha. Originalmente, um termo pejorativo, acabou sendo apropriado pelos próprios rebeldes.
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Coxilha: Região de campo ou pastagem, comum no Rio Grande do Sul, onde tradicionalmente se realiza a criação de gado.
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Tradição Farroupilha: Conjunto de práticas culturais e símbolos que surgiram a partir da Revolução Farroupilha, como o uso do bombacha, o chimarrão, a música nativista e as danças típicas.
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Bugio: Tipo de macaco, mas também usado para se referir a alguém muito travesso ou irreverente.
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Manezinho: Pessoa que, mesmo sendo de fora, se adapta bem à cultura gaúcha, como alguém que se entrosa rapidamente no modo de vida do campo.
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Tchê: Gíria comum entre os gaúchos, usada para se referir a outra pessoa, como um equivalente a “cara” ou “amigo”. Também pode ser usada como interjeição, para expressar surpresa ou entusiasmo.
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Cavalo Crioulo: Raça de cavalo tipicamente gaúcha, conhecida pela sua resistência e habilidade no campo, especialmente em competições de laço.
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Guapecada: Ação de embrenhar-se no mato ou floresta, frequentemente usada para descrever a busca de animais ou recursos naturais no campo.
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Lenço: Peça de roupa tradicional usada nos trajes típicos, geralmente amarrado ao redor do pescoço, especialmente durante festividades e danças.
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Perau: Buraco ou depressão no terreno, muitas vezes usada para descrever um lugar fundo ou difícil de atravessar.
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Saracoteio: Movimento rápido e contorcido de um animal ou pessoa, muitas vezes associado ao estilo de dança ou ao cavalo que se agita.
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Fandangueiro: Pessoa que participa de fandangos, ou seja, danças típicas gaúchas. O fandango é uma festa popular com muita música e dança.
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Baque: Batida forte ou som característico de tambores, ou ainda, o impacto de um animal ou objeto com o chão.
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Pealo: Termo que descreve um confronto ou disputa, especialmente relacionada à luta de vaqueiros ou entre animais.
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Capataz: Pessoa que exerce a função de supervisão ou liderança de trabalhadores rurais, geralmente em estâncias ou fazendas.
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Tropa: Conjunto de animais, como cavalos ou bois, reunidos para um trabalho específico ou para uma competição de laço ou rodeio.
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Vaneira: Estilo musical e de dança típica do Rio Grande do Sul, geralmente tocada com acordeão e pandeiro, caracterizando-se pelo ritmo alegre e animado.
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Xirú: Pessoa que se comporta de maneira rude ou mal-educada, um tipo de “simpático” brigão.
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Cavalgada: Passeio ou evento realizado a cavalo, comumente relacionado a celebrações gaúchas, como o desfile do Dia do Gaúcho.
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Chasque: Recado ou mensagem, geralmente passada oralmente, muito usada nas comunidades rurais para a comunicação.
Esses termos são parte essencial da identidade gaúcha e ajudam a compreender não apenas as celebrações, mas também as complexas relações históricas e culturais do estado.
