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Livro de memórias da pandemia de Covid-19 é lançado na França 5 anos após 1° lockdown

Em 17 de março de 2020, há exatos cinco anos, começava o primeiro lockdown na França para frear a propagação do vírus da Covid-19. O anúncio do confinamento da população francesa em casa havia sido feito na véspera, durante um pronunciamento do presidente Emmanuel Macron. Na época, o líder francês disse a famosa frase “estamos em guerra”, em referência ao SARS-CoV-2, descoberto em dezembro de 2019 na China, que paralisou o mundo.


Antropóloga da Universidade Paris-Cité e ex-membro do conselho científico francês, criado pelo governo para orientar as decisões relacionadas à gestão da pandemia de Covid-19, Laëtitia Atlani-Duault estuda o impacto político, sanitário ou humanitário dessa crise na memória da população.

Em seu livro “Covid-19 Ad Memoriam, Fragments pour les mémoires” (Covid-19 Ad Memoriam, Fragmentos de Memórias, em tradução livre), ela analisa os vestígios deixados pela epidemia. O estudo foi feito a partir de depoimentos anônimos coletados entre 2020 a 2024 e de fotografias de objetos do cotidiano da era Covid guardados no Mucem (Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo), em Marselha.

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Em entrevista à RFI, a antropóloga diz que a data do 17 de março é tão marcante que é citada naturalmente nos depoimentos sobre a pandemia. As pessoas se lembram de onde estavam ou que faziam quando souberam do lockdown. “Todos perceberam qual seria o impacto dessa decisão em suas vidas”, diz. “Em geral, é essa data que é citada quando conversamos sobre a pandemia”.

Metade dos países do mundo adotaram, na mesma época, medidas restritivas, mantendo suas populações em casa. Para preservar as lembranças de um dos períodos mais conturbados da história mundial recente, Laëtitia Atlani-Duault, que integra um coletivo de pesquisadores franceses, criou em maio de 2020 o instituto Covid-19 Ad Memoriam, para preservar os vestígios, individuais e coletivos, que seriam deixados pela pandemia.

Laëtitia Atlani-Duault, antropóloga, especialista em crises políticas, sanitárias e humanitárias e presidente do Instituto Covid-19 Ad Memoriam.
Laëtitia Atlani-Duault, antropóloga, especialista em crises políticas, sanitárias e humanitárias e presidente do Instituto Covid-19 Ad Memoriam – Foto: ceped.org

“Para nós era importante fazer isso durante a epidemia, coletando depoimentos individuais, mas também investigando o que acontecia em instituições ou em serviços públicos. Tínhamos dois objetivos: a transmissão dessa experiência extraordinária, que todos vivemos, para as futuras gerações, e utilizar essa vivência para nos preparamos para uma próxima pandemia”, explica.

Memória do período pandêmico

Segundo ela, cada indivíduo construiu sua própria memória do período pandêmico. Por isso o objetivo do livro é ser “um álbum de família coletivo”, ressalta. “A ideia é também termos acesso à experiência alheia para construirmos nossas próprias lembranças que vão se consolidar como nossa própria memória da pandemia”.

Muitos entrevistados, diz, viveram bem o período, “como se o tempo tivesse parado”, cita. Fizeram uma revisão de suas prioridades e mudaram de vida. “Alguns mudaram de cidade, divorciaram, respiraram, simplesmente, tiveram mais tempo com o parceiro e os filhos. Muitos entrevistados ressaltam que é importante não se lembrar apenas do impacto negativo da epidemia”, diz.

Mas este não é, obviamente, o caso de todos os depoimentos. Muitos exprimem a dor das famílias que perderam entes queridos, a exaustão dos profissionais de saúde em hospitais lotados, ou o desgosto de pacientes que convivem com sequelas da doença.

“São testemunhos de enfermeiras, de médicos e de suas famílias, por exemplo, que falam sobre o impacto da pandemia. Muitas pessoas falaram sobre a impossibilidade de dizer adeus aos seus entes queridos e enterrá-los de maneira digna”, diz. Há ainda outras consequências na vida da população, como questões econômicas, por exemplo. “Alguns perderam o emprego, outros faliram”.

Entre os efeitos negativos da epidemia, a antropóloga francesa destaca as histórias das vítimas da Covid longa. “Muitos ainda convivem com os sintomas e outros demoraram muito tempo para superar a doença. Têm problemas no reconhecimento de sua condição e dificuldade para serem ouvidos”, lamenta.

A antropóloga Laëtitia Atlani-Duaul nos estúdios da RFI
A antropóloga Laëtitia Atlani-Duaul nos estúdios da RFI – Foto: RFI

“Crise apontou falhas do Estado”

A experiência da pandemia pode ser útil para a população diante das reais ameaças geopolíticas atuais e da possibilidade de guerra na Europa? A resposta é ambivalente.

“A solidariedade local e entre famílias, por exemplo, nos permitiu enfrentar a situação. Também temos associações, prefeituras, que não esperaram tudo do Estado e viabilizaram aquilo que a estrutura do Estado não foi capaz de prover. Temos com frequência na França essa tendência a se focalizar na resposta estatal e esperar tudo do Estado”, destaca.

“A crise da Covid mostrou o que o Estado podia fazer, mas também apontou as falhas na resposta do Estado”, afirma. Para que a epidemia não caia no esquecimento, a antropóloga propõe a criação da Jornada Internacional da Covid-19, apoiada por organismos como a ONU.

Desde março de 2021, ela também defende uma data inscrita no calendário nacional em memória da Covid. Várias propostas de lei foram elaboradas e enviadas à Assembleia Nacional francesa.

Esta também é uma demanda da associação das vítimas da Covid e de profissionais dos hospitais. Mas por enquanto, não há avanços em relação à questão. De acordo com a antropóloga, em setembro, a Universidade Paris-Cité abrirá um espaço dedicado  a exposições permanentes e temporárias sobre a epidemia, que também abrigará conferências e eventos.

O primeiro lockdown na França para frear a propagação do vírus durou quase dois meses e foi suspenso em 11 de maio de 2020. Diante do aumento dos casos de contaminação, o governo francês voltou a confinar a população em casa outras duas vezes, entre outubro e dezembro de 2020, e em abril de 2021. A pandemia de Covid-19 matou 168 mil pessoas na França.