A escravidão é uma das instituições mais antigas da humanidade, presente em diversas sociedades ao longo dos séculos. Embora hoje associemos imediatamente a escravidão à brutalidade do tráfico transatlântico de africanos, outras formas de cativeiro humano existiram antes e coexistiram com ela ao longo da história.
O desembarque dos mouros em terras portuguesas causava rebuliço na população. Fugir para o interior ou criar barreiras que impedissem a sua chegada ao continente eram as únicas alternativas de defesa. O fracasso, no entanto, dava aos moradores do litoral anos longos de penúria e submissão.
Continua depois da Publicidade

Crédito: Wikimedia Commons
Entre os séculos 15 e 18, essa prática se tornou tão recorrente que não só Portugal mas regiões que beiravam o Mediterrâneo e o Atlântico temiam a presença de navios carregados de muçulmanos. Em terra e em mar, piratas do Norte da África colocavam em risco a liberdade de inúmeros europeus cristãos, que eram sequestrados e levados à força para terras islâmicas na condição de escravos.
A escravidão dos europeus esteve ligada sobretudo a uma disputa pela supremacia religiosa. Enquanto negros africanos eram levados às Américas com a justificativa de salvação da alma pela conversão ao catolicismo, para os cristãos, o cativeiro no Norte da África e nas demais regiões muçulmanas representava um perigo de ordem espiritual e religiosa.
A história do escravismo em terras islâmicas se inicia a partir do sincretismo que a religião representou aos povos árabes. A atração pelo saque e pela Guerra Santa contra aqueles que não seguissem o livro sagrado de Maomé fazia parte das diretrizes da crença.
O que foi a “escravidão branca”?
O termo “escravidão branca” tem origens específicas no uso histórico e político do século XIX. Ele foi popularizado por Charles Sumner em 1847 para descrever a situação de cristãos europeus capturados e mantidos em cativeiro no norte da África — especialmente na região da Berbéria, sob o controle de potências como o Império Otomano — onde eram forçados ao trabalho e à servidão em condições degradantes. Esse termo também foi aplicado, mais tarde, para denunciar a prostituição forçada e o tráfico sexual de mulheres europeias no final do século XIX e início do XX.

Em um cenário especialmente de disputa religiosa entre cristãos e islâmicos, o sequestro de cativos se tornou, uma prática frequente e lucrativa para ambos os lados. O conflito entre os dois povos tem seu início no contexto das Cruzadas, quando europeus enviados à Terra Santa eram capturados pelos inimigos – Imagem: Wikimedia Commons
Historicamente, em algumas colônias norte-americanas e no Brasil colonial, indivíduos brancos (como servos contratados, imigrantes pobres ou pessoas sequestradas) também foram mantidos sob condições de servidão ou cativeiro. Nos Estados Unidos coloniais, por exemplo, existiam “servos contratados” brancos que trabalhavam sob contrato rígido e, em alguns casos, acabavam em servidão prolongada até que esse status foi juridicamente separado da condição de escravidão racial — quando leis passaram a tornar permanente e hereditária a escravidão de africanos e seus descendentes.
Importante ressaltar que esses casos de servidão de pessoas brancas eram muito menos sistemáticos e tinham contextos legais e sociais distintos dos sistemas de escravidão racial que emergiram depois.

Na idade média, criminosos do norte da África levavam os prisioneiros da Europa como cativos a países islâmicos – Imagem: Wikimedia Commons
Da escravidão geral à escravidão de africanos
Antiguidade até a Idade Média
-
Séculos antigos a medievais: A escravidão existiu em muitas sociedades — na Mesopotâmia, no Egito, na Grécia e no Império Romano — sem relação direta com raça ou cor; ela era uma instituição baseada em guerras, dívidas e punições legais. (História geral)
-
Século VIII em diante: Em algumas regiões do Mediterrâneo, sobretudo sob domínios muçulmanos, cristãos da Europa foram capturados em incursões e vendidos como escravos, dando lugar ao uso posterior do termo escravidão branca.
Séculos XV e XVI: início do tráfico atlântico
-
Século XV (c. 1444): Portugueses iniciam o comércio de africanos trazidos como escravizados para a Europa e, mais tarde, para suas colônias nas Américas.
-
1560 no Brasil: Os primeiros africanos escravizados começam a chegar à então colônia portuguesa — um marco no estabelecimento da escravidão africana no território brasileiro.
Séculos XVII e XVIII: expansão e institucionalização
-
Século XVII: Em muitas colônias americanas, leis começam a separar legalmente a condição de servidão branca da escravidão permanente de africanos, criando um sistema racial de cativeiro.
-
Século XVIII: O tráfico negreiro transatlântico atinge grande escala, com milhões de africanos capturados, transportados e vendidos em plantacoes e engenhos nas Américas.
Século XIX: abolições parciais e finais
-
1807: O Império Britânico aprova a Lei que proíbe o tráfico de escravizados no seu território, um passo importante nas campanhas abolicionistas — embora o comércio ilegal continue por anos.
-
1850: No Brasil, a Lei Eusébio de Queirós proíbe o tráfico transatlântico de escravos.
-
1871: A Lei do Ventre Livre no Brasil determina a liberdade dos filhos de pessoas escravizadas a partir daquele ano.
-
1885: A Lei dos Sexagenários concede liberdade aos escravizados com mais de 60 anos.
-
13 de maio de 1888: A assinatura da Lei Áurea aboliu oficialmente a escravidão no Brasil.
Do trauma histórico ao presente
A escravidão deixou marcas profundas nas sociedades que a praticaram, especialmente naquela baseada na raça e no tráfico transatlântico. No Brasil e em outras partes das Américas, os impactos econômicos, sociais e culturais dessa instituição ainda são objeto de debates e políticas públicas, desde desigualdades persistentes até questões de memória e reparação.
Mulheres já escravizaram homens ao longo da história
A escravidão nunca foi determinada apenas pelo gênero, mas por poder, guerra, economia e hierarquia social. Onde mulheres detiveram poder político, militar ou econômico, elas também participaram — direta ou indiretamente — de sistemas escravistas.

Mulheres da elite — matronas romanas, por exemplo — possuíam escravos homens e podiam puni-los e vendê-los como propriedade legal – Imagem: Reprodução
Exemplos históricos documentados
-
Antiguidade (Grécia e Roma):
Mulheres da elite — matronas romanas, por exemplo — podiam possuir escravos homens, administrá-los, puni-los e vendê-los como propriedade legal, mesmo não participando da vida política formal. -
Egito Antigo:
Registros mostram mulheres proprietárias de terras e bens, incluindo escravos do sexo masculino, usados em trabalhos domésticos, agrícolas ou administrativos. -
Europa Medieval:
Viúvas nobres e abadessas controlavam feudos e mosteiros que utilizavam servos e escravos homens, exercendo autoridade direta sobre eles. -
Mundo islâmico medieval:
Mulheres de elites urbanas e haréns imperiais possuíam escravos homens — incluindo trabalhadores, guardas e eunucos — adquiridos por comércio ou herança. -
África pré-colonial:
Em vários reinos africanos, mulheres líderes ou comerciantes ricas participavam da posse e da negociação de escravos, inclusive homens capturados em guerras locais. -
Brasil e Américas coloniais:
Mulheres brancas livres, viúvas ou herdeiras, foram senhoras de escravos homens, algo amplamente documentado em inventários, cartas de alforria e registros judiciais.
Um ponto essencial
A escravidão não é uma relação homem vs. mulher, mas livre vs. dominado.
O fator decisivo sempre foi quem tinha poder, não o sexo biológico.
Isso não diminui o sofrimento das mulheres escravizadas — que enfrentaram violências específicas —, mas ajuda a entender que a escravidão foi um sistema estrutural, sustentado por Estados, leis, elites e economias, e não por um único gênero.
Fontes de pesquisa e referência
As informações históricas apresentadas têm como base estudos acadêmicos, obras de referência e instituições reconhecidas, entre elas:
-
Enciclopédia Britânica (Encyclopaedia Britannica)
– Verbete Slavery e conteúdos sobre escravidão na Antiguidade, Idade Média e tráfico atlântico. -
BBC History / BBC Mundo
– Reportagens históricas sobre escravidão no Mediterrâneo, tráfico de europeus no Norte da África e escravidão atlântica. -
Museu Afro Brasil
– Conteúdos educativos sobre o tráfico transatlântico, escravidão no Brasil e heranças sociais do período escravista. -
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
– Artigos e dossiês históricos sobre escravidão, racismo estrutural e impactos sociais no Brasil. -
Brasil Escola (UOL Educação)
– Materiais didáticos e históricos sobre escravidão indígena, africana e leis abolicionistas brasileiras. -
Arquivo Nacional / Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
– Documentos históricos, dados demográficos e análises sobre o período colonial e imperial. -
Universidades e centros de pesquisa (USP, Unicamp, Unesp)
– Publicações acadêmicas de historiadores como Laurentino Gomes, Manolo Florentino, João José Reis e Lilia Schwarcz. -
Wikipedia (edições em português e inglês)
– Utilizada como ponto de partida para contextualização histórica, com verificação cruzada em fontes acadêmicas.
