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Caso Família Matteucci: relembre assassinato brutal de pais e quatro filhos que chocou Goiânia na década de 1950

Apesar de um homem ter sido condenado pelo crime, pessoas que vivenciaram o caso levantam dúvidas sobre quem realmente matou a família. Crianças tinham de 8 meses a 6 anos de idade.


Era 1957 quando moradores de Goiânia se chocaram com um episódio que ficou conhecido como a chacina da Rua 74. Na ocasião, na casa de nº 35, um homem, a mulher dele e quatro filhos foram brutalmente assassinados com golpes de machado, estrangulamento e punhaladas. Apesar de um homem ter sido condenado pelo crime, pessoas que vivenciaram o caso contam que crime, cercado de mistério, nunca foi completamente solucionado.

Manchete do jornal O Popular em 1957, um dia após o crime, em Goiânia — Foto: Reprodução/Jornal O Popular

Para entender sobre o caso, o g1 vasculhou as edições do Jornal O Popular da época, que narram o crime, além das páginas do processo judicial que inocentou dois homens e condenou outro pela chacina. No dia do crime, foram encontrados mortos:

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  • Wanderley Matteucci;
  • Lourdes de Sá (esposa de Wanderley);
  • Wilma Matteucci (8 meses);
  • Walkiria Matteucci (6 anos);
  • Wagner Matteucci (5 anos);
  • Wolney Matteucci (4 anos).

Apenas a pequena Wania Maria, de 2 anos, sobreviveu após ser atirada em meio a um monte de roupas.

Cena de horror

Há diferentes versões sobre quem descobriu o crime contra a família Matteucci. O que se sabe é que várias pessoas que costumavam se encontrar com os membros da família logo cedo estranharam o não aparecimento deles e entraram na casa. Entre essas pessoas, segundo publicado pelo jornal O Popular na época, foi um sobrinho de Wanderley.

Na época, ele relatou ter chegado à casa por volta das 6h30 da manhã do dia 6 de dezembro de 1957. Quando chegou ao local, se assustou logo de cara com a situação da casa, mas acabou chocado quando percebeu seus cinco familiares mutilados em poças de sangue.

O artista plástico Siron Franco conta que, na época do crime, tinha apenas 10 anos e era vizinho da família. Ao g1, ele relembrou que era amigo de uma das vítimas, um dos filhos de Wanderley Matteucci. Com o costume de sempre encontrar o colega na porta de casa para que fossem juntos à escola, ele entrou dentro da casa depois de gritar pela família e não ser atendido.

“Eu acordava mais cedo, encontrava ele para is para a escola e ele já estava na porta. [Naquele dia], eu cheguei, gritei e ninguém atendeu. Dei uma volta e ia entrar pelo fundo, mas vi um buraco na parede e entrei por ele. Estava tudo escuro, mas flashes de luz iluminavam os corpos”, descreveu o artista.

Com toda a escuridão, Siron conta não ter conseguido identificar ninguém no momento em que viu que as pessoas estavam mortas.

“Meu pé tocou em um braço de um adulto e eu vi que não estava com corpo. Fui direto para a casa, para minha mãe. Em seguida o bairro inteiro foi lá, já veio polícia”, relembrou.

Siron Franco, artista plástico que era vizinho da família Matteucci em 1957, em Goiânia — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

“O choque foi tão grande que parece que não aconteceu. Eu tenho uma lembrança muito vívida na minha cabeça. Só deixei de ter pesadelos aos 32 anos”, complementou Siron.

Quando a família Matteucci foi encontrada morta, Wanderlei, a esposa e a filha caçula estavam caídos no chão, no mesmo cômodo. No local, a pequena Wilma estava embaixo do pai. Já as outras crianças, Walkiria, Wagner e Wolney, foram achados no chão de outro quarto. A cena de horror estampou os jornais da época.

Enquanto os pais, Walkiria, Wilma e Wolney foram mortos com o uso de um machado, Wagner foi estrangulado com uma gravata e recebeu diversas punhaladas. Devido à forma em que os corpos foram encontrados e o estado da casa, a suspeita é que tenha tido luta entre as vítimas e quem os matou. Na época, o machado utilizado no crime foi encontrado ensanguentado em um lote baldio que ficava ao lado da casa das vítimas.

Suspeitos e acusados do crime

Santino Hildo, que foi condenado pelo crime contra a família Matteucci, em Goiânia — Foto: Reprodução/Jornal O Popular

Em janeiro de 1958, foi preso pela polícia o suspeito Santino Hildo da Fonseca, que nasceu em Afuá, no Pará. Ele foi encontrado na fazenda onde trabalhava, na cidade de Goiás. Na época, ele confessou o crime e foi preso. No entanto, durante sua condenação a 70 anos e 10 meses de prisão, em 1965, Santino se declarou inocente.

A condenação de Santino foi pela morte de quatro pessoas, ainda que seis membros da família tenham sido mortos. O g1 solicitou à Secretaria de Segurança Pública informações sobre quem foi indiciado pela morte das outras duas pessoas, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Em 1976, um juiz chegou a reduzir a pena de Santino para 30 anos de reclusão. Ele ficou preso por 17 anos e 3 meses.

Além de Santino Hildo, outras duas pessoas foram julgadas pelas morte da família, mas absolvidas, sendo uma delas um dos irmãos de irmão de Wanderley Matteuci. Na época, o irmão da vítima era apontado como mandante do crime que teria sido executado por Santino. Já o outro acusado era suspeito de ter executado o crime.

Em uma das reportagens publicadas no Jornal O Popular no ano de 1960, a defesa do irmão de Wanderley Matteucci diz sobre o desejo do cliente de processar um major e seus auxiliares, que atuavam na Delegacia de Vigilância e Capturas, por espancamento. Segundo o advogado, que na época enviou uma nota de posicionamento, a coação por meio de agressões teria sido o motivo que fez o irmão da vítima confessar ser o autor do crime.

“Esse pedido tem poder de provar que meu cliente confessou ser o autor […] da chacina da Rua 74 sob coação, consistente com espancamento, com […] tapas, socos e pontapés, inclusive nas partes puentas, provocando ferimentos e escorrimento de sangue”, escreveu o advogado.

Os dois acusados foram absolvidos no ano de 1963 pelo juiz Sebastião Naves, da 4ª Vara Criminal de Goiânia. Segundo narrado em publicação da época no Jornal O Popular, uma “grande multidão em pé e sobre as cadeiras, caixotes e mesas” ouviram atentos a decisão da Justiça.

“A defesa dos acusados, funcionando com muita habilidade, baseando-se na incompetência da policia em descobrir os assassinos e na negativa da autoria, foi clara e precisa, havendo por fim, conseguido a absolvição dos acusados, fato aliás, esperado por mais de 90% das pessoas que assistiam os debates”, narrou o jornal da época.

Dúvida sobre autoria

Apesar de ter sido condenado em tribunal do júri realizado em 1965, a dúvida sobre quem realmente matou a família paira sobre a cabeça de quem entrou a fundo na história do crime. Com base na tragédia, o escritor Miguel Jorge, escreveu o romance Veias e Vinhos (1981), que posteriormente inspirou o filme com mesmo nome. O longa foi filmado pelo diretor João Batista de Andrade.

O romance Veias e Vinhos (1981) do escritor Miguel Jorge – Foto: reprodução 

Ao g1, Miguel contou que, durante o processo de produção do livro, conversou com Santino Hildo na cadeia, após ele ter sido condenado. Na ocasião, ele se declarou inocente.

“Até hoje não se sabe, ficou uma interrogação no ar. A sociedade vigia, então eles arrumaram um culpado. Eu conversei com ele na penitenciária, e ele me disse que não tinha nada a ver com isso”, contou Miguel.

Santino nasceu em Afuá, no Pará. Páginas do processo judicial explicam que, depois que cumpriu a pena, Santino retornou para o estado natal e morou em Belém. Não há informações de data, mas Miguel contou que o condenado morreu no Pará.

Além dos três homens que passaram por julgamento, outras pessoas foram consideradas ou se declararam suspeitas do crime na época. O artista plástico Siron Franco, que era vizinho das vítimas, relatou que diversas vezes ouvia nas rádios homens confessando terem cometido o crime e detalhando como a família havia sido morta. Entre os homens que na época disseram ter cometido o crime está Alberto D’Lasserre, que alegou que tinha o objetivo de furtar a família, mas acabou matando-os.

“O que mais alimentou esse meu pânico foram as entrevistas em que os caras mentiam que tinham cometido o crime”, desabafou o artista ao g1.

Para o escritor Miguel Jorge, a quantidade de pessoas que admitia ter cometido o crime é relacionada com a grande pressão que existia para que o caso fosse rapidamente solucionado.

“Foram encontrados vários suspeitos, porque a sociedade exigia e eles lançavam mão do que eles suspeitavam. Eles [os ‘suspeitos’] eram forçados a confessar, torturados. Até o irmão [de Wanderley] foi torturado e acabou confessando”, disse.

“Ainda há um mistério por trás disso [de quem realmente matou a família Matteucci], complementou Miguel.

Fonte: Gabriela Macêdo, g1 Goiás