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Amazônia em chamas, celebridades em silêncio? Incêndios no Amazonas reacendem debate sobre dois pesos e duas medidas

Enquanto Autazes enfrenta focos de incêndio, fumaça intensa e riscos à saúde da população, manifestações de artistas nacionais e internacionais que ganharam repercussão durante o governo Bolsonaro não ocupam o mesmo espaço no debate público.


Foto: Reprodução

 

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AUTAZES (AM) — O avanço dos incêndios florestais no Amazonas volta a expor uma questão que ultrapassa os limites da crise ambiental: por que determinados episódios mobilizam campanhas internacionais, manifestações de artistas e intensa repercussão nas redes sociais, enquanto outros parecem receber menos atenção de personalidades conhecidas?

Em outubro de 2026, Autazes, município do interior amazonense, enfrenta uma situação preocupante. A fumaça provocada pelas queimadas encobre áreas urbanas e rurais, compromete a qualidade do ar e aumenta os riscos para moradores, especialmente crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. Notícias publicadas em outubro relatam dificuldades no combate às chamas e a necessidade de reforço das equipes que atuam na região.

A crise também alcançou trechos da rodovia AM-254, que liga Autazes a Manaus. Em 23 de outubro, A Crítica noticiou o combate a um incêndio na região da comunidade Novo Céu, próximo a áreas residenciais e a uma aldeia indígena. Segundo a reportagem, o fogo atingiu aproximadamente cinco hectares de vegetação e foi controlado com a participação de forças estaduais e federais.

O episódio é mais um alerta sobre a dimensão dos incêndios no interior do Amazonas e sobre os impactos que a degradação ambiental produz diretamente na vida das populações locais.

 

 

Onde estão as grandes campanhas de outros anos?

A comparação com 2019 é inevitável. Naquele ano, quando Jair Bolsonaro ocupava a Presidência da República, as queimadas na Amazônia ganharam projeção internacional e provocaram uma onda de manifestações de artistas, atletas e personalidades brasileiras e estrangeiras.

A cantora Madonna publicou uma mensagem dirigida a Bolsonaro, cobrando mudanças nas políticas ambientais e afirmando que o desenvolvimento econômico não deveria estar acima da proteção da floresta.

O ator Leonardo DiCaprio, conhecido por seu ativismo ambiental, compartilhou publicações sobre os incêndios e destacou a importância da Amazônia para o equilíbrio climático mundial.

A modelo brasileira Gisele Bündchen também se manifestou, defendendo a preservação da floresta e alertando para os efeitos do desmatamento. Na mesma época, nomes como Anitta, Bruna Marquezine e Demi Lovato aderiram a manifestações em defesa da Amazônia.

No esporte internacional, Cristiano Ronaldo, Lewis Hamilton e Kylian Mbappé também repercutiram o assunto. Publicações com hashtags como #PrayForAmazonia ajudaram a levar a crise ambiental brasileira para o debate mundial.

As manifestações foram registradas pela imprensa nacional em agosto de 2019, quando a pressão pública sobre o governo Bolsonaro se intensificou em meio à repercussão dos dados sobre queimadas.

O que mudou na repercussão?

Diante do cenário atual, a pergunta que surge é direta: por que não se vê, com a mesma intensidade e visibilidade, uma mobilização semelhante de grandes celebridades em torno dos incêndios que atingem o Amazonas e castigam municípios como Autazes?

A comparação não significa que todos os artistas citados tenham deixado de falar sobre o meio ambiente. Tampouco permite afirmar, sem uma verificação individual de suas publicações recentes, que essas personalidades estejam deliberadamente ignorando a situação. O que está em discussão é a diferença de repercussão pública entre episódios ambientais ocorridos em contextos políticos distintos.

Em 2019, a crise amazônica tornou-se também um embate político internacional. A atuação do governo federal na área ambiental foi alvo de críticas de artistas e organizações, e a imagem do Brasil no exterior entrou no centro das discussões.

Agora, diante dos incêndios no Amazonas, cabe questionar se a defesa da floresta continua sendo tratada como uma causa permanente ou se parte da mobilização pública depende também de quem ocupa o poder.

A proteção ambiental não deveria estar condicionada à orientação política de um presidente, à popularidade de uma campanha ou à repercussão de uma hashtag. Se a floresta precisa ser defendida durante um governo, a necessidade permanece quando outro está no comando.

Autazes não pode ficar fora do debate ambiental

A situação de Autazes merece atenção para além das disputas políticas. A fumaça que invade a cidade não representa apenas um problema de imagem ou uma pauta para as redes sociais: ela afeta a saúde pública, a rotina dos moradores, o trabalho das equipes de emergência e a segurança das comunidades próximas às áreas atingidas.

Reportagens publicadas em outubro de 2026 também apontaram focos de calor no município e dificuldades para conter a propagação do fogo. As autoridades investigam ocorrências e trabalham no combate aos incêndios, enquanto a população convive com os efeitos da fumaça e com a preocupação diante de novas frentes de fogo.

O problema exige fiscalização, prevenção, investigação das possíveis causas criminosas e apoio efetivo às equipes de combate. Também exige atenção dos veículos de comunicação, de organizações ambientais e de personalidades capazes de ampliar o alcance da discussão.

A cobrança, portanto, não deve se restringir aos artistas. Governos, órgãos ambientais, autoridades locais e instituições responsáveis precisam prestar contas das medidas adotadas para prevenir incêndios, proteger os moradores e responsabilizar eventuais infratores.

A floresta não tem partido

O debate sobre a atuação de celebridades na defesa da Amazônia levanta uma questão legítima: a indignação ambiental é permanente ou ganha força conforme o contexto político?

Os nomes que se manifestaram em 2019 ajudaram a internacionalizar a discussão sobre as queimadas. Por isso, é compreensível que parte da sociedade espere uma mobilização semelhante diante de novas crises ambientais.

Mas a cobrança precisa ser acompanhada de fatos. Para afirmar que determinada personalidade se calou diante dos incêndios atuais, é necessário verificar suas manifestações públicas recentes, e não apenas a ausência de notícias sobre elas.

Enquanto essa comparação não for feita de maneira individual e documentada, o questionamento mais sólido permanece: por que a crise que atinge Autazes não alcança, no debate público nacional e internacional, a mesma dimensão que a Amazônia conquistou em outros momentos?

A população amazonense não pode ser lembrada apenas quando a floresta vira notícia mundial. Autazes e suas comunidades merecem atenção, recursos, fiscalização e solidariedade independentemente de quem governa o país.

A Amazônia não pertence a um governo, a um partido ou a uma campanha nas redes sociais. A defesa de sua população e de sua floresta precisa ser uma causa permanente.