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A declaração de Arthur do Val contra a Zona Franca de Manaus expõe um problema recorrente no debate econômico brasileiro: tratar uma política pública complexa como se pudesse ser julgada por uma única variável. Ao classificar o modelo industrial amazonense como um “absurdo”, o ex-deputado paulista questionou a lógica de manter fábricas longe dos principais portos e mercados consumidores, mas, conforme o relato publicado pelo AM POST, não apresentou uma análise abrangente dos efeitos econômicos, sociais e ambientais envolvidos nessa discussão.
A proximidade dos portos pode, de fato, reduzir custos de transporte. Isso, porém, não basta para concluir que a Zona Franca de Manaus seja economicamente injustificável. Uma avaliação consistente precisa considerar também os empregos gerados, a atividade produtiva instalada, a distribuição regional dos investimentos, os custos fiscais dos incentivos e as alternativas de desenvolvimento para o Amazonas.
É justamente aí que a crítica de Arthur do Val se mostra insuficiente: questionar os incentivos é legítimo; descartá-los sem enfrentar todas as variáveis relevantes é outra coisa.
Os números mostram que a Zona Franca está longe de ser irrelevante
Os dados oficiais da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) ajudam a dimensionar a importância do modelo. Em 2025, o Polo Industrial de Manaus registrou faturamento anual de R$ 227,67 bilhões e reuniu cerca de 600 indústrias, com geração de mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos, segundo a autarquia federal.
Os números não provam, isoladamente, que todos os incentivos concedidos sejam eficientes ou que seus benefícios superem integralmente os custos tributários. Demonstram, entretanto, que se trata de uma estrutura industrial de grande porte, com repercussões que vão muito além do transporte de mercadorias.
A produção amazonense abastece principalmente o mercado brasileiro, além de alcançar mercados internacionais. O debate, portanto, não pode se limitar à distância entre Manaus e os portos do litoral. É necessário avaliar o que aconteceria com os investimentos, os postos de trabalho e a economia regional caso os incentivos fossem reduzidos ou eliminados.
Ignorar essas questões não constitui uma análise econômica completa. Constitui, no máximo, uma hipótese sobre como as empresas poderiam se organizar em outro cenário.
Fonte: Suframa — dados oficiais sobre a Zona Franca de Manaus.
O que diz o Ipea: há limitações, mas também efeitos sobre o emprego
Uma discussão séria sobre a Zona Franca exige examinar pesquisas que não se limitam a defender o modelo. Um estudo de Rogério da Cruz Gonçalves e Philipp Ehrl, publicado em 2021 na revista Pesquisa e Planejamento Econômico, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), analisou indicadores do Amazonas em comparação com os de outras partes do Brasil, no período de 2002 a 2014.
O trabalho encontrou resultados que merecem atenção: segundo os autores, o aumento dos gastos tributários não se traduziu em crescimento estatisticamente identificado do PIB, do valor agregado bruto, da renda ou da arrecadação estadual. Por outro lado, foram encontrados efeitos positivos sobre o tamanho da população e o emprego.
O estudo não autoriza uma defesa irrestrita da Zona Franca. Pelo contrário, aponta questões relevantes sobre a eficiência dos incentivos e a capacidade de converter benefícios fiscais em crescimento econômico mais amplo.
Mas também não sustenta a conclusão simplista de que o modelo seria um “absurdo” apenas porque Manaus está distante do litoral. A pesquisa evidencia um quadro mais complexo, no qual os resultados variam conforme o indicador analisado.
É esse o padrão que deveria orientar o debate público: avaliar custos, benefícios, resultados e alternativas concretas, em vez de reduzir uma política de desenvolvimento regional a uma comparação geográfica.
Fonte: Ipea — Efeitos econômicos da Zona Franca de Manaus.
A pergunta não é apenas quanto custa produzir em Manaus
O argumento de que as indústrias seriam mais competitivas no litoral pode parecer intuitivo. Entretanto, a decisão de instalar uma fábrica depende de diversos fatores: infraestrutura disponível, fornecedores, mão de obra, acesso a mercados, incentivos tributários, custos de energia e água, segurança jurídica e condições de operação.
Não basta afirmar que produzir perto dos portos seria mais barato. É preciso demonstrar quanto seria economizado, quais atividades efetivamente migrariam, quais custos seriam transferidos para outras regiões e qual seria o saldo para a economia brasileira.
Também é necessário considerar o objetivo histórico da política: estimular a atividade econômica na Amazônia e reduzir desvantagens regionais associadas ao isolamento e à infraestrutura limitada.
Isso não significa que toda fábrica deva permanecer em Manaus independentemente dos resultados, nem que os incentivos devam ser mantidos sem avaliação. Significa que uma proposta de mudança precisa apresentar comparações concretas e estimativas verificáveis, e não apenas uma impressão sobre a localização geográfica mais conveniente.
Sem esse conjunto de informações, a crítica permanece incompleta.
A dimensão ambiental também não pode ser descartada
A discussão sobre a Zona Franca envolve ainda uma questão estratégica para o país: como gerar emprego e renda na Amazônia sem ampliar a pressão sobre a floresta.
A atividade industrial concentrada em Manaus é frequentemente apontada como uma alternativa econômica à expansão de atividades que exigem a conversão de áreas florestais. Essa relação, contudo, precisa ser examinada com cuidado: não se deve presumir que a existência do polo industrial, por si só, garanta a conservação da floresta, assim como não se pode afirmar, sem estudos específicos, que o fim dos incentivos provocaria automaticamente mais desmatamento.
Uma avaliação ambiental rigorosa deve investigar os efeitos reais sobre o uso da terra, a ocupação territorial, as atividades econômicas alternativas e as emissões associadas à produção e ao transporte.
O ponto fundamental é que a política industrial amazônica não pode ser julgada apenas por critérios aplicáveis a regiões com outras características geográficas, econômicas e ambientais.
Criticar os incentivos é legítimo; simplificar o problema não é
A Zona Franca de Manaus tem problemas que precisam ser debatidos: custo fiscal, dependência de incentivos, diversificação econômica, inovação, produtividade e distribuição dos benefícios. Nenhuma política pública deve estar imune à fiscalização ou à revisão de seus resultados.
O estudo do Ipea demonstra, inclusive, que há fundamentos para questionar a eficiência de parte dos benefícios concedidos. Uma defesa responsável do modelo precisa reconhecer essas limitações e propor melhorias.
O problema da declaração atribuída a Arthur do Val não está em questionar a Zona Franca. Está na insuficiência do argumento apresentado: a vantagem logística do litoral, sozinha, não resolve a discussão sobre o desenvolvimento do Amazonas nem demonstra que o modelo deva ser abandonado.
Se a intenção é propor uma alternativa, seria necessário apresentar dados sobre custos, empregos, arrecadação, investimentos, impactos regionais e consequências ambientais. Também seria preciso explicar como a economia amazonense poderia substituir a atividade industrial existente e absorver os trabalhadores afetados por uma eventual mudança.
Sem essas respostas, chamar a Zona Franca de “absurdo” funciona como provocação política, não como conclusão econômica demonstrada.
A Amazônia precisa de debate qualificado, não de respostas fáceis
O Amazonas não pode ser tratado como se tivesse as mesmas condições logísticas, demográficas e produtivas dos grandes centros industriais do litoral brasileiro. Uma política de desenvolvimento regional precisa considerar essas diferenças, sem deixar de cobrar eficiência, transparência e resultados.
Os dados oficiais mostram a dimensão da indústria instalada em Manaus. A pesquisa do Ipea, por sua vez, alerta que os benefícios fiscais não se convertem automaticamente em crescimento de renda e produto, embora identifique efeitos positivos sobre o emprego. Os dois elementos precisam ser considerados simultaneamente.
A conclusão responsável não é que a Zona Franca seja perfeita, nem que deva ser mantida sem mudanças. É que qualquer proposta de substituição ou redução dos incentivos precisa demonstrar, com evidências, que produzirá resultados melhores para a população amazonense e para o Brasil.
Arthur do Val tem todo o direito de criticar o modelo. Mas uma crítica econômica consistente precisa ir além de chamar de absurdo aquilo que exige pesquisa, comparação de cenários e compreensão das particularidades da Amazônia.
