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Eleições 2026

Da suspeita ao medo: como informações distorcidas são usadas para alimentar a disputa política

Episódios envolvendo evangélicos, lideranças políticas e religião mostram como associações sem base factual podem ser transformadas em munição eleitoral — mesmo quando o desmentido chega depois.


Imagem gerada por Inteligência Artificial.

A disputa eleitoral brasileira entrou em uma fase em que a informação deixou de ser apenas instrumento de convencimento e passou, em determinados episódios, a funcionar como arma de enquadramento político. Uma declaração, uma associação ou até uma informação falsa pode ser suficiente para produzir uma impressão negativa antes que os fatos tenham tempo de alcançar o público.

O problema se torna ainda mais grave quando religião e identidade política entram nessa equação.

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Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, referiu-se ao pastor André Valadão como alguém com “cara de 171”. A declaração ocorreu durante comentários sobre um vídeo de Fábio Porchat envolvendo o Banco Master, políticos e a Igreja Batista da Lagoinha. Na sequência, Lula mencionou expressões como “lavador de dinheiro” e “bandido contumaz”.

Críticas a uma liderança religiosa são legítimas em uma democracia. Investigações, quando existem elementos concretos, também são legítimas. O que exige atenção é a substituição dos fatos por associações capazes de produzir suspeitas por mera proximidade.

Não se investiga alguém pela aparência, pela igreja que frequenta ou pela fé que professa. Se existe suspeita de crime, é preciso apresentar fatos, evidências, investigação, contraditório e devido processo. Quando esses elementos desaparecem e dão lugar à associação entre religião, dinheiro, poder e criminalidade, a informação deixa de cumprir uma função esclarecedora e passa a produzir um efeito político.

É justamente nesse ponto que a comunicação eleitoral se torna particularmente sensível.

Uma frase como “cara de 171” não apresenta documento, prova ou fato verificável. Ela constrói uma imagem. Seu objetivo comunicacional não é necessariamente demonstrar uma acusação, mas provocar no público uma associação imediata entre determinada pessoa e a ideia de criminalidade.

Quando essa associação é repetida em conjunto com referências a igreja, pastor, dinheiro e lavagem de dinheiro, cria-se uma narrativa que pode permanecer na memória do eleitor mesmo depois que os fatos são esclarecidos.

Quem iniciou a informação falsa sobre a exclusão da padroeira do Brasil

Foi identificado como autor da primeira publicação localizada, Jeferson de Oliveira Monteiro, conhecido por ter criado o personagem/perfil Dilma Bolada, publicou no X uma mensagem afirmando, em essência, que católicos não deveriam votar em nenhum Bolsonaro nem em candidato que quisesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Segundo a investigação publicada pelo site A Investigação, essa foi a primeira postagem localizada que vinculava a disputa eleitoral à suposta ameaça contra o título da santa.

A partir daí, segundo a mesma reconstrução cronológica, outras contas passaram a associar a narrativa a um antigo projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli. O projeto existiu, mas foi arquivado em 2008 e não tinha autoria ou participação de Flávio Bolsonaro.

Reprodução/Instagram

O que foi divulgado

A narrativa que ganhou força nas redes afirmava que Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, poderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, ou que haveria um movimento de evangélicos para promover essa alteração.

O conteúdo era enganoso porque utilizava como referência o PL 2.623/2007, de autoria de Victório Galli, apresentado quando Flávio não tinha relação com a Câmara dos Deputados. A proposta pretendia alterar a redação da lei referente ao feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado definitivamente em agosto de 2008.

A situação ganhou enorme repercussão depois de um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, no programa Em Pauta, da GloboNews, em 24 de setembro. O trecho acabou circulando nas redes associado diretamente a Flávio, embora, segundo as reportagens, a fala original não atribuísse a ele a autoria ou apoio ao projeto. A GloboNews posteriormente reconheceu o erro, corrigiu a informação e pediu desculpas.

O episódio chegou à Justiça Eleitoral: o ministro André Mendonça, do TSE, determinou a remoção de publicações que tratavam a alegação como verdadeira, classificando o conteúdo como “notoriamente inverídico”.

Quando a informação falsa chega antes da verdade

O fenômeno também pode ocorrer no sentido inverso.

Nesta semana, circulou nas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro, caso eleito presidente, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. Não foi apresentada declaração ou proposta do candidato que sustentasse essa afirmação, e Bolsonaro negou publicamente a informação.

O episódio merece atenção não apenas pelo conteúdo da alegação, mas pelo mecanismo utilizado.

Uma informação dessa natureza atinge diretamente uma identidade religiosa. Ela não precisa ser verdadeira para produzir efeito político imediato. Basta sugerir que determinado candidato representa uma ameaça àquilo que milhões de pessoas consideram sagrado.

O desmentido, nesse cenário, chega depois.

E esse é um dos problemas centrais da comunicação política contemporânea: a informação falsa ou distorcida pode produzir seu efeito antes de ser desmentida.

A primeira mensagem apresenta o personagem, define o conflito e provoca a reação emocional. A correção chega posteriormente, muitas vezes com menor alcance e menor capacidade de mobilização.

Isso não significa afirmar que episódios diferentes tenham necessariamente uma origem comum ou façam parte de uma operação coordenada. Não há elementos suficientes, nos casos citados, para sustentar essa conclusão.

Há, porém, um padrão comunicacional que merece ser observado: a utilização de identidades religiosas para produzir suspeitas, medos e antagonismos eleitorais.

O evangélico transformado em personagem político

O problema não está em discutir a atuação política de igrejas ou lideranças religiosas. Igrejas, pastores e fiéis, como qualquer cidadão ou organização, estão sujeitos à crítica pública.

O problema surge quando a identidade religiosa passa a funcionar como atalho para interpretar o caráter, as intenções ou a conduta de alguém.

Ser evangélico não é evidência de crime. Ser católico não é evidência de determinada posição política. Ser ateu também não permite presumir quais serão as escolhas eleitorais de uma pessoa.

A religião pode explicar parte das convicções de um cidadão, mas não autoriza a transformação desse cidadão em uma caricatura.

A mesma cautela deve valer para qualquer grupo religioso.

É perfeitamente legítimo investigar relações entre igrejas, empresas, políticos e recursos financeiros quando existirem fatos concretos que justifiquem a investigação. O que não é legítimo, do ponto de vista do debate público responsável, é transformar a identidade religiosa em indício por si só.

A política descobriu o poder do medo religioso

A religião ocupa espaço importante na vida pública brasileira. Evangélicos, católicos e integrantes de outras tradições religiosas participam da política, disputam eleições, defendem propostas e organizam movimentos.

Isso faz parte da democracia.

O eleitor religioso não perde sua cidadania quando entra em uma igreja. Tampouco precisa abandonar suas convicções para participar do debate público.

Por isso, é igualmente problemático tentar apresentar grupos religiosos como massas incapazes de formular suas próprias escolhas.

Pastores podem influenciar seus fiéis. Mas professores influenciam alunos, jornalistas influenciam leitores, artistas influenciam admiradores, sindicatos influenciam trabalhadores e movimentos sociais influenciam militantes. Influência não significa automaticamente manipulação.

O cidadão religioso continua sendo responsável por suas próprias escolhas.

A informação maliciosa não precisa ser totalmente inventada

Talvez um dos aspectos mais importantes desse processo seja compreender que a manipulação política da informação não depende necessariamente de uma mentira integral.

Também é possível manipular por associação, omissão, edição, exagero ou seleção de elementos verdadeiros apresentados fora de contexto.

Uma pessoa pode ter determinada religião. Um político pode conhecer um pastor. Uma igreja pode ter relações institucionais com agentes públicos. Uma empresa pode ter realizado determinada operação financeira.

Nenhum desses fatos, isoladamente, prova uma irregularidade.

O problema aparece quando fatos desconectados são colocados lado a lado para induzir o leitor a uma conclusão que as próprias evidências não sustentam.

É nesse espaço que nasce a chamada notícia maliciosa: uma informação construída não prioritariamente para esclarecer o cidadão, mas para produzir uma reação política.

O eleitor recebe a associação antes de receber a prova

A dinâmica das redes sociais favorece esse tipo de comunicação.

Um vídeo de poucos segundos, uma manchete provocativa ou uma publicação emocionalmente carregada pode alcançar milhares de pessoas antes que qualquer veículo consiga verificar o contexto.

Quando a checagem chega, a narrativa original já circulou.

O cidadão pode até esquecer a correção, mas conservar a impressão inicial.

É por isso que a responsabilidade jornalística não termina na publicação de uma informação. Ela começa justamente na decisão sobre como apresentar essa informação.

Uma manchete pode informar. Também pode induzir.

Uma fotografia pode contextualizar. Também pode sugerir uma associação que o texto não sustenta.

Uma declaração pode ser reproduzida integralmente. Também pode ser recortada de maneira a alterar sua compreensão.

Essas escolhas importam.

Democracia não pode funcionar à base de caricaturas

A poucos dias do primeiro turno, milhões de brasileiros irão às urnas com diferentes convicções religiosas, ideológicas e políticas.

Entre os evangélicos haverá eleitores de direita, esquerda e centro. O mesmo ocorrerá entre católicos e pessoas sem religião.

Não existe uma categoria religiosa homogênea capaz de votar como um bloco único.

Tratar grupos religiosos dessa maneira significa reduzir cidadãos complexos a personagens eleitorais.

A democracia exige justamente o contrário.

Se há crime, que se investigue. Se há corrupção, que se apresentem provas. Se há abuso de poder, que seja demonstrado. Se há conflito de interesses, que os fatos sejam documentados.

Mas, quando a acusação depende apenas de aparência, associação religiosa, insinuação ou informação sem comprovação, o debate público deixa de ser uma disputa entre fatos e propostas e passa a ser uma disputa pela capacidade de criar suspeitas.

E essa é uma fronteira que merece atenção especial durante uma eleição.

Porque uma notícia pode ser falsa e ainda assim produzir efeitos verdadeiros.

Pode ser desmentida e continuar circulando.

Pode não apresentar uma única prova e, mesmo assim, deixar no eleitor a impressão de que “há alguma coisa por trás”.

É justamente por isso que informações politicamente carregadas precisam ser examinadas com rigor redobrado.

Em uma eleição, o cidadão tem direito não apenas ao voto, mas também ao direito de receber informações que permitam uma escolha consciente. Quando a notícia é transformada em instrumento de medo, suspeita ou estigmatização religiosa, o que está em jogo não é apenas a reputação de uma pessoa ou grupo: é a qualidade do próprio debate democrático.