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Cúpula do Brics reúne Xi, Putin e Modi em momento de reaproximação entre Índia e China

Encontro em Nova Délhi ocorre neste fim de semana sob tensão geopolítica, guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e disputas comerciais; Lula não participa e Brasil será representado por Mauro Vieira.


Vladimir Putin (esq.) foi recebido pelo indiano Narendra Modi (dir.) nesta sexta, 11 de setembro de 2026, véspera do início da Cúpula do Brics – Foto: Alexander Kazakov/Pool Sputnik K

A 18ª cúpula de líderes do Brics começa neste sábado (12), em Nova Délhi, na Índia, reunindo algumas das principais potências emergentes do mundo em um momento marcado por conflitos internacionais, tensões comerciais e mudanças no equilíbrio geopolítico.

Entre os principais nomes esperados estão o presidente chinês, Xi Jinping, o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. O anfitrião do encontro é o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participará da reunião. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que já chegou à capital indiana. A ausência de Lula ocorre em meio à preparação para as eleições brasileiras de outubro.

A reunião de dois dias, marcada para 12 e 13 de setembro, será realizada no Bharat Mandapam, em Nova Délhi. A presidência indiana adotou como lema para 2026 a construção de “resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”.

Xi Jinping retorna à Índia após sete anos

Um dos principais acontecimentos diplomáticos da cúpula será o retorno de Xi Jinping à Índia. O presidente chinês não visitava o país desde 2019 e deverá se reunir bilateralmente com Narendra Modi à margem do encontro do Brics.

A reunião representa uma nova etapa na tentativa de reduzir as tensões entre as duas maiores potências asiáticas. Índia e China passaram por um grave confronto militar na região do Himalaia, especialmente em Ladakh, que provocou mortes entre soldados dos dois países e deteriorou significativamente as relações bilaterais.

Desde 2024, porém, Nova Délhi e Pequim vêm adotando medidas para diminuir a tensão na fronteira e reconstruir canais de diálogo. O encontro entre Xi e Modi deverá tratar de comércio, investimentos, acesso a mercados, questões de fronteira e mecanismos para administrar as diferenças entre os dois países.

Apesar da reaproximação, analistas alertam que ainda existe forte desconfiança entre os governos. A expectativa, portanto, é de avanços graduais, e não de uma solução definitiva para as divergências.

“A China está pronta para trabalhar com a Índia sob uma perspectiva estratégica de longo prazo”, afirmou a porta-voz da diplomacia chinesa, Mao Ning, ao anunciar a disposição de Pequim para ampliar a comunicação e a cooperação entre os dois países.

Putin chega a Nova Délhi e reforça parceria com Modi

Vladimir Putin chegou à Índia nesta sexta-feira (11), um dia antes do início oficial da cúpula. O presidente russo foi recebido por autoridades indianas e se reuniu com Modi para discutir a relação bilateral.

Energia, defesa, comércio e investimentos estão entre os principais temas da parceria entre os dois países. A guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio também entraram nas conversas.

A Índia continua sendo um dos principais compradores de petróleo russo, apesar das sanções ocidentais impostas a Moscou após a invasão da Ucrânia em 2022. Em 2026, a participação do petróleo russo nas importações indianas chegou a atingir 51%, segundo dados citados pela Reuters.

Modi também mantém uma política de equilíbrio entre Rússia, China e Estados Unidos. Nova Délhi busca preservar sua tradicional parceria estratégica com Moscou, enquanto simultaneamente amplia relações econômicas e diplomáticas com Washington e outras potências ocidentais.

Guerra no Oriente Médio deve testar a unidade do Brics

Outro tema sensível será a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, está entre os líderes que participam da cúpula. O conflito deverá colocar à prova a capacidade do Brics de construir posições comuns diante de uma crise que divide seus próprios integrantes.

Rússia e China mantêm relações próximas com Teerã e defendem maior autonomia em relação às potências ocidentais. Ao mesmo tempo, os Emirados Árabes Unidos, também integrantes do Brics, adotam uma posição muito diferente em relação ao Irã.

Além da guerra no Oriente Médio, os líderes deverão discutir os efeitos dos conflitos sobre o comércio marítimo, a segurança energética e os preços do petróleo e do gás.

A guerra na Ucrânia também estará entre os assuntos de maior sensibilidade diplomática. A Índia tem evitado condenar diretamente Moscou e, ao mesmo tempo, vem defendendo negociações para encerrar o conflito.

Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chega a Nova Délhi para cúpula do Brics. 11/09/2026 – Foto: Ministério das Relações Exteriores da Índia/via AP

Brics cresceu e agora enfrenta novas divisões

Criado originalmente por Brasil, Rússia, Índia e China, o grupo passou a incluir a África do Sul em 2011 e teve uma nova expansão a partir de 2024.

Atualmente, o bloco reúne 11 integrantes: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Indonésia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A composição ampliada aumentou significativamente o peso econômico e demográfico do grupo.

O Brics representa atualmente cerca de metade da população mundial e aproximadamente 40% da economia global medida pela paridade do poder de compra, segundo estimativas citadas por análises sobre o bloco.

A expansão, entretanto, também tornou mais difícil chegar a consensos. Os países integrantes possuem interesses econômicos, alianças estratégicas e posições diplomáticas bastante diferentes.

A Índia, por exemplo, mantém relações próximas com Estados Unidos, Rússia e países do Oriente Médio, enquanto China e Rússia defendem uma transformação mais profunda da ordem internacional dominada pelas instituições ocidentais.

Desdolarização e comércio estão na agenda

Entre os assuntos econômicos discutidos pelo Brics está a redução da dependência do dólar nas transações internacionais.

A criação de mecanismos alternativos de pagamentos e o fortalecimento do comércio entre os integrantes fazem parte das discussões do grupo. Entretanto, diferenças entre os sistemas financeiros dos países e a própria diversidade econômica do bloco dificultam a implementação de uma moeda ou sistema único de pagamentos.

A cúpula também deverá tratar de comércio, tecnologia, segurança energética e reforma das instituições multilaterais. Entre as propostas em discussão estão uma rede de incubadoras para empresas emergentes, um fundo de inovação para startups e um marco de cooperação para cadeias de suprimentos.

Ausência de Lula reduz presença política brasileira

O Brasil, um dos países fundadores do Brics, estará representado por Mauro Vieira. Lula não viajará a Nova Délhi para a reunião.

A participação brasileira ocorre em um contexto particularmente relevante para a diplomacia do país. Além de integrar o núcleo original do Brics, o governo brasileiro vem defendendo o fortalecimento do multilateralismo e uma maior participação dos países emergentes nas decisões econômicas e políticas internacionais.

A presença de Mauro Vieira permitirá ao Brasil participar das negociações, mesmo sem a presença do presidente.

Um Brics maior, mas sob pressão

A cúpula de Nova Délhi acontece, portanto, em um momento de contradições para o bloco.

De um lado, a presença simultânea de Xi Jinping, Putin e Pezeshkian demonstra o peso diplomático que o Brics adquiriu desde sua expansão. De outro, as diferenças entre seus integrantes ficaram mais evidentes diante das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, da rivalidade entre Estados Unidos e China e da disputa econômica entre Índia e China.

Para a anfitriã Índia, a reunião também representa uma oportunidade de demonstrar sua política de autonomia estratégica: aproximar-se de China e Rússia sem romper com Washington e com outras potências ocidentais.

A reaproximação entre Modi e Xi será um dos principais sinais políticos do encontro. Mas, diante das divergências ainda existentes, o resultado mais provável é uma tentativa de administrar as diferenças e ampliar a cooperação em áreas de interesse comum, e não uma aliança política plenamente integrada entre os países.

Fontes: Reuters, Associated Press (AP), Indian Express, Financial Times e RFI