
A polícia nepalesa observa enquanto maquinaria retira escombros no distrito de Nuwakot, no Nepal – Foto: Niranjan Shrestha/AP
A tragédia provocada pelo colapso de uma geleira no Himalaia ganhou proporções ainda maiores neste domingo (30). O número de mortos no Nepal e no Tibete, na China, já chega a pelo menos 750 pessoas segundo dados consolidados pela Reuters, enquanto outras 3.044 continuam desaparecidas. A Associated Press, porém, já relata que o número de mortos ultrapassou 800, refletindo a rápida atualização dos dados pelas autoridades.
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O desastre começou na quarta-feira (26), quando o colapso de uma geleira desencadeou uma gigantesca corrente de gelo, pedras, lama e detritos que desceu pelos vales do Himalaia e atingiu áreas do Nepal e da região do Tibete, na China.
Quatro dias depois, as equipes de emergência ainda enfrentam enormes dificuldades para localizar sobreviventes. O mau tempo, a elevação dos rios e o surgimento de novas barreiras naturais de água aumentam o risco de novos deslizamentos e inundações.
A Cruz Vermelha estima que mais de 90 mil pessoas tenham sido afetadas pelo desastre.
Mais de 3 mil pessoas continuam desaparecidas
No Nepal, os números divulgados pelas autoridades apontam 734 mortos, 2.498 desaparecidos e 7.514 pessoas resgatadas.
No lado chinês, no condado de Gyirong, foram confirmadas 16 mortes e 546 desaparecidos.
Somados, os desaparecidos chegam a 3.044 pessoas.
A dimensão da tragédia, no entanto, ainda pode aumentar. As operações de busca continuam e os números são atualizados à medida que equipes conseguem acessar áreas que permaneciam isoladas pelos deslizamentos.
A própria Reuters ressalta que o trabalho ocorre em condições extremamente difíceis, com novos episódios de chuva e aumento do nível dos rios.

Uma mulher aponta para casas danificadas do outro lado do rio Trishuli, após inundações repentinas em Devighat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Manan Vatsyayana/AFP
261 estrangeiros estão entre os desaparecidos
A dimensão internacional da tragédia também começou a ser conhecida.
A China informou que 261 cidadãos estrangeiros de 23 países estão desaparecidos no lado tibetano da fronteira.
Entre eles estão 104 nepaleses, 49 indianos, 33 letões, 18 americanos e 15 britânicos, segundo os dados divulgados pelas autoridades chinesas.
Também há desaparecidos de outras nacionalidades, incluindo cidadãos da Austrália, Ucrânia, Canadá, Coreia do Sul, Alemanha, Rússia, África do Sul e Singapura.
O número de estrangeiros desaparecidos já havia sido muito maior nas primeiras horas da tragédia, quando centenas de turistas e trabalhadores ficaram sem contato. A atualização das listas vem ocorrendo conforme pessoas são encontradas e as autoridades conseguem verificar os registros.
Resgate entra em uma corrida contra o tempo
A situação tornou-se ainda mais delicada porque as equipes não enfrentam apenas os escombros provocados pela primeira avalanche.
No Nepal, o nível do rio Trishuli voltou a subir após novas chuvas. Moradores e equipes de emergência foram orientados a procurar áreas mais elevadas diante do risco de novas inundações.
Outro fator de preocupação é um lago formado na região da fronteira entre Nepal e China após o desastre.
Embora as autoridades chinesas tenham informado que a maior parte da água havia sido drenada, drones identificaram um novo deslizamento aproximadamente 2,8 quilômetros abaixo do lago, criando uma nova barreira e outro reservatório.
A formação de novas represas naturais aumenta o risco de uma inundação repentina atingir comunidades localizadas rio abaixo.

Entre os desaparecidos na fronteira estão dezenas de devotos hindus de todo o mundo, muitos dos quais estavam em peregrinação ao monte Kailash, no Tibete – Foto: AFP
Centenas podem estar presas em túneis
Uma das principais frentes de busca está concentrada em túneis de projetos hidrelétricos atingidos pelas enchentes.
As autoridades nepalesas acreditam que centenas de pessoas possam estar presas nessas estruturas.
As equipes começaram a trabalhar para abrir os acessos e, segundo informações divulgadas neste domingo, já houve esforço para enviar ar por pequenas aberturas encontradas nos túneis, numa tentativa de verificar a possibilidade de sobreviventes.
O Nepal pediu ajuda internacional especializada para operações de resgate subterrâneo, testes de DNA, armazenamento refrigerado de corpos e identificação forense.
Especialistas indianos e chineses também participam dos trabalhos.
Corpos irreconhecíveis são enterrados em massa
Enquanto as buscas por sobreviventes continuam, outro drama se desenrola no Nepal.
As autoridades começaram a realizar sepultamentos coletivos de vítimas que não puderam ser identificadas.
Muitos corpos foram carregados pelas águas por longas distâncias e chegaram a regiões muito afastadas dos locais atingidos inicialmente.
O estado de decomposição e a violência da correnteza tornam o reconhecimento praticamente impossível em muitos casos.
Segundo um policial ouvido pela Reuters, mais da metade dos corpos recuperados estava irreconhecível. Em alguns casos, foram encontrados apenas partes de corpos.
As autoridades estão fotografando os cadáveres, recolhendo material genético e registrando informações para permitir uma identificação posterior.
Mais de 100 corpos não identificados já haviam sido enterrados no sábado, e novas valas estavam sendo preparadas neste domingo.
China mobiliza mais de 2 mil socorristas
A China mobilizou mais de 2.100 profissionais para as operações de emergência e destinou pelo menos 220 milhões de yuans, aproximadamente US$ 32,7 milhões, para o atendimento às áreas atingidas.
Equipamentos e suprimentos foram transportados por via aérea.
Militares chineses também utilizam equipamentos capazes de detectar sinais vitais entre os escombros, enquanto drones monitoram a movimentação de água e novos deslizamentos.
Mesmo com a mobilização, o acesso às áreas destruídas continua sendo um dos maiores obstáculos.
Uma equipe chinesa que chegou a uma das regiões mais atingidas encontrou um cenário descrito como praticamente reduzido a ruínas.

As equipes de resgate trabalham em condições extremamente difíceis devido à espessa camada de lama que cobre as áreas afetadas – Foto: CNS/AFP
Aquecimento global entra no centro da discussão
As causas exatas do desastre ainda são investigadas, mas autoridades chinesas afirmam que a instabilidade das geleiras está relacionada aos efeitos de longo prazo do aquecimento global.
A televisão estatal chinesa classificou o episódio como uma manifestação de uma nova característica dos desastres relacionados à criosfera no planalto tibetano.
Cientistas afirmam que o aquecimento das regiões montanhosas pode aumentar a instabilidade das geleiras e elevar o risco de eventos extremos.
A discussão ganhou força porque o Himalaia abriga enormes reservas de gelo que alimentam rios fundamentais para milhões de pessoas em diversos países asiáticos.
Uma tragédia que ultrapassou fronteiras
O desastre também provocou uma mobilização internacional.
O Nepal solicitou apoio especializado de outros países para resgate, identificação das vítimas e atendimento às comunidades atingidas.
A Malásia, por exemplo, anunciou o envio de uma equipe de resgate e ajuda financeira de US$ 1 milhão.
As autoridades nepalesas também alertaram que novas chuvas podem agravar a situação em regiões que já foram devastadas.
Casas, estradas, pontes e estruturas de energia foram destruídas, deixando comunidades isoladas e milhares de pessoas sem eletricidade ou acesso regular a serviços básicos.

Moradores tentam entrar em suas casas danificadas após enchentes repentinas e deslizamentos de terra mortais em Devighat, distrito de Nuwakot, Nepal, 30 de agosto de 2026 – Foto: Athit Perawongmetha/REUTERS
O desastre ainda não terminou
Quatro dias depois do colapso da geleira, o Nepal e a China ainda não conseguem dimensionar completamente a extensão da tragédia.
O número de mortos continua aumentando à medida que corpos são localizados, enquanto milhares permanecem desaparecidos.
Ao mesmo tempo, as equipes precisam trabalhar contra o relógio para encontrar possíveis sobreviventes, monitorar rios que continuam subindo e evitar que novos deslizamentos provoquem uma segunda onda de destruição.
A combinação entre geleiras instáveis, chuvas intensas, rios em elevação e terrenos extremamente acidentados transformou o resgate em uma das operações mais complexas já realizadas na região.
E, enquanto as equipes avançam sobre lama, escombros e estruturas destruídas, milhares de famílias continuam esperando por uma notícia sobre seus parentes desaparecidos.
