
O cabo Paulo Roberto Lima Pereira atuava no Alto Tietê, na região metropolitana da capital – Reprodução – Caep 12/Instagram
A morte do policial militar Paulo Roberto Lima Pereira, de 44 anos, durante uma tentativa de roubo na Marginal Tietê, em São Paulo, revelou um método de atuação que chama atenção pela simplicidade e pela brutalidade: criminosos utilizam pedras de grandes dimensões para provocar acidentes ou avarias nos veículos e obrigar os motoristas a parar.
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Segundo as investigações iniciais, o grupo atua em trechos da Marginal Tietê e da rodovia Ayrton Senna. As pedras são colocadas na pista, principalmente na faixa da esquerda. Depois que o veículo é atingido e o motorista interrompe a viagem, outros integrantes da quadrilha, escondidos nas proximidades, avançam contra a vítima.
Foi nesse contexto que o cabo Paulo Roberto Pereira teria sido atacado na noite de sexta-feira (28). De acordo com o boletim de ocorrência, o policial estava de folga e parou o carro após ter o veículo atingido por pedras.
Uma testemunha, agente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), relatou ter visto três homens saindo da margem do rio e se aproximando do veículo. Houve uma luta e, posteriormente, foram ouvidos disparos. O policial foi socorrido, mas morreu após ser atingido por um tiro na cabeça.
A arma usada pelo policial e encontrada dentro do carro também passou a fazer parte da investigação. Próximo ao local foram localizados o coldre e munições calibre .45, levantando a hipótese de que a arma particular do militar tenha sido levada pelos criminosos e utilizada durante o ataque.
Da pedra ao método
O episódio chama atenção para uma questão mais ampla da segurança pública: a capacidade de grupos criminosos transformarem instrumentos aparentemente simples em mecanismos de ataque planejado.
A pedra, isoladamente, parece um recurso rudimentar. Mas, quando colocada estrategicamente em uma via de alta velocidade, transforma-se em uma armadilha. O objetivo não seria apenas danificar o veículo, mas criar uma situação previsível: acidente, parada forçada, exposição da vítima e ataque.
É justamente nesse ponto que surge uma comparação histórica possível com o Oriente Médio — não como equivalência entre a quadrilha paulista e o Hamas, mas como uma referência sobre a evolução dos métodos de confronto.
‘Hamas’ tem tradução do árabe para “entusiasmo” ou “fervor”. O grupo palestino é responsável pelo maior ataque terrorista já feito a Israel nos últimos anos, e lutam pela palestina, pois, a consideram uma terra islâmica. Além disso, o movimento do Hamas é considerado por eles como ‘resistência’ baseado no Corão, livro sagrado do Islã.

Membros do Hamas durante demonstração militar na Cidade de Gaza em 2017 – Foto – Chris McGrath/Getty Images
A comparação com o Hamas
Durante a Primeira Intifada, iniciada em 1987, imagens de palestinos lançando pedras contra soldados e veículos israelenses se tornaram um dos símbolos mais conhecidos daquele período de revolta. O Hamas surgiu naquele mesmo contexto, em 1987, como um movimento ligado à Irmandade Muçulmana palestina.
É importante, porém, fazer uma distinção histórica: o Hamas não nasceu simplesmente de grupos que “atacavam com pedras”. A Primeira Intifada começou antes da criação formal do Hamas, e o movimento surgiu no contexto daquela revolta, posteriormente adotando uma estrutura política e militar própria.
A comparação, portanto, está na lógica da transformação do instrumento, e não na natureza dos grupos.
“Mosab Hassan Yousef, conhecida pelo livro e documentário “O Filho do Hamas”, começou exatamente dessa forma durante a infância dele na Cisjordânia. No início da Primeira Intifada (o levante palestino em 1987), quando ele tinha apenas 9 anos de idade, sua participação na resistência resumia-se a atirar pedras contra tanques e soldados israelenses.”

Foto: Reprodução
No caso paulista, pedras são utilizadas como parte de uma estratégia criminosa para interromper o deslocamento de veículos e criar uma oportunidade para o roubo. No contexto da Primeira Intifada, pedras se tornaram um dos símbolos de uma mobilização popular muito mais ampla e complexa, que posteriormente deu origem a diferentes organizações e formas de confronto.
Décadas depois, o Hamas se consolidaria como uma organização armada e política, passando a empregar métodos muito mais sofisticados e letais. O Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos registra que o movimento foi criado em 1987 e que posteriormente passou a realizar ataques armados, incluindo atentados suicidas a partir de 1993.
O alerta para São Paulo
No caso da Marginal Tietê, não há qualquer evidência apresentada na investigação de ligação entre os criminosos e organizações terroristas ou movimentos políticos. Trata-se, segundo as informações disponíveis, de uma quadrilha envolvida em roubos.
A preocupação está em outro aspecto: a criatividade e a organização empregadas para transformar uma ação aparentemente simples em uma armadilha capaz de produzir mortes.
A investigação aponta que o trecho já era palco recorrente desse tipo de abordagem. O modus operandi envolve posicionar obstáculos na pista, permanecer escondido e esperar que a própria dinâmica do trânsito coloque a vítima em uma situação de vulnerabilidade.
O assassinato do policial expõe, assim, uma face particularmente perigosa do crime urbano: quando o criminoso deixa de simplesmente abordar a vítima e passa a construir a situação para obrigá-la a parar.
Uma pedra pode parecer apenas uma pedra. Na mão de uma quadrilha organizada, porém, ela pode se transformar em instrumento de emboscada.
E é justamente essa transformação — do recurso rudimentar para o método organizado — que merece atenção das autoridades antes que novas vítimas sejam surpreendidas pelo mesmo mecanismo.
Fontes: Folha de São Paulo e o livro ‘O Filho do Hamas’
