Emiliane Tamara Nunes, de 24 anos, passou cinco dias desaparecida e foi encontrada presa a uma cama, amordaçada e acorrentada; após receber alta, ela relatou agressões e supostos ataques com ácido.
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A carta foi encontrada no cativeiro onde jovem foi amordaçada e acorrentada pelo ex, segundo a Polícia Militar — Foto 1: Reprodução/Instagram de Emiliane Tamara// Foto 2: Divulgação/Polícia Militar
Uma frase escrita à mão em uma folha de caderno transformou o resgate de uma jovem mantida em cativeiro em Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, em uma história ainda mais angustiante.
“Espero não ser um adeus. Estarei sempre em espírito.”
A mensagem estava em uma carta endereçada à família de Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, encontrada pela Polícia Militar na sexta-feira (21), depois de passar cinco dias desaparecida. A jovem estava amordaçada, acorrentada e presa a uma cama dentro de uma casa que, segundo a polícia, havia sido alugada pelo ex-companheiro dela, Ailton Rodrigues Mendes.
O documento, além do tom de despedida, trazia orientações sobre bens da vítima e um pedido para que a família não procurasse a polícia. As circunstâncias em que a carta foi produzida são investigadas.
Segundo a Polícia Militar, a análise inicial indica que Emiliane pode ter sido obrigada a escrever o texto. O major Jorge Paiva, da Companhia de Policiamento Especializado (CPE) de Águas Lindas, afirmou que a carta estava com o suspeito no momento da abordagem.
A informação ganha ainda mais peso diante da situação em que a jovem foi encontrada: debilitada, com braços, pernas e pescoço presos por cordas, algemas e corrente, além de uma mordaça e uma máscara no rosto.

Emiliane Tamara Nunes foi encontrada amordaçada e acorrentada, em Goiás — Foto 1 : Reprodução/Instagram // Foto 2: Polícia Militar de Goiás/Divulgação
Cinco dias de desaparecimento terminaram em uma casa isolada
Emiliane desapareceu na segunda-feira (17), depois de ser vista saindo de uma clínica no bairro Jardim Barragem I. A família procurou a polícia e passou a buscar informações sobre o paradeiro dela.
Durante as investigações, os policiais identificaram movimentações consideradas suspeitas envolvendo o ex-companheiro, Ailton Rodrigues. Segundo as autoridades, ele havia fechado o próprio estabelecimento comercial, deixado a residência onde morava e abandonado veículos.
A polícia também identificou que um imóvel havia sido alugado pelo suspeito poucos dias antes.
Na sexta-feira, os militares localizaram Ailton dirigindo um carro. Segundo a PM, ele desobedeceu a uma ordem de parada e fugiu em alta velocidade. Depois de ser abordado no Setor Jardim Querência, os policiais avançaram na investigação até chegar ao imóvel.
A casa estava fechada e tinha proteção externa. Quando os agentes perceberam ruídos vindos do interior, entraram.
Em um dos quartos, encontraram Emiliane.
A jovem estava presa e amordaçada, sem condições de deixar o local por conta própria. O resgate encerrou cinco dias de desaparecimento e revelou à polícia a dimensão da violência que teria ocorrido dentro do imóvel.
Suspeito teria dopado a vítima
Segundo a Polícia Civil, Ailton confessou ter dopado Emiliane com medicamentos antidepressivos e levado a ex-companheira para o imóvel.
A polícia investiga ainda como o sequestro foi planejado e quais foram as circunstâncias que levaram à manutenção da jovem em cárcere privado.
Informações reunidas durante a investigação apontam também para um histórico de violência doméstica entre os dois. Em entrevista após o resgate, Emiliane afirmou que o relacionamento havia terminado, mas que o ex-companheiro não teria aceitado a separação.

Ailton Rodrigues Mendes, suspeito de sequestrar ex namorada esta preso, em Goiás — Foto: Reprodução/TV Anhanguera e Divulgação/Polícia Militar de Goiás
“Estou toda queimada por dentro”, relata jovem
Depois de receber alta hospitalar, Emiliane voltou para casa e decidiu falar publicamente sobre o que afirma ter sofrido.
Em vídeos publicados nas redes sociais, a jovem apareceu com marcas no rosto e relatou agressões que, segundo ela, foram cometidas durante o período em que permaneceu em poder do ex-companheiro.
Um dos relatos mais graves envolve o suposto uso de ácido.
“Eu estou toda queimada por dentro, porque ele enfiava panos com ácido dentro de mim”, afirmou.
Ela também relatou que teria sido colocada uma máscara de oxigênio em seu rosto e descreveu outros episódios de violência. As acusações fazem parte do relato da vítima e deverão ser confrontadas com as provas reunidas pela investigação.
Em outra declaração, Emiliane fez um apelo para que o caso não seja esquecido e pediu apoio para continuar buscando justiça.
“As buscas não acabam aqui. Agora é o início de tudo”, afirmou.
Carta levanta suspeitas sobre o que aconteceu no cativeiro
A carta encontrada pela polícia é uma das principais peças que chamaram atenção no caso.
O texto foi escrito em uma folha de caderno e contém mensagens destinadas à família, referências a dinheiro, carro e uma casa. Em determinado trecho, há uma orientação para que a mãe não procure a polícia.
O conteúdo também traz uma frase que aparenta ser uma despedida.
“Espero não ser um adeus. Estarei sempre em espírito.”
Reportagens posteriores sobre o caso apontaram que o documento apresenta trechos rasurados e partes de difícil leitura. As informações disponíveis divergem sobre alguns detalhes da localização da carta e sobre sua autoria, razão pela qual as circunstâncias exatas de sua produção ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades.
Para a polícia, porém, há indícios de que o documento tenha sido produzido sob coação.
Ex-companheiro está preso
Ailton Rodrigues foi preso em flagrante após ser localizado pelos policiais. A prisão foi mantida pela Justiça depois da audiência de custódia realizada no sábado (22), e o caso segue sob investigação.
Ele é investigado por crimes relacionados ao sequestro e ao porte ilegal de arma de fogo. Segundo a polícia, durante a abordagem e a investigação, ele teria admitido ter dopado a vítima e levado Emiliane para o imóvel.
A defesa do suspeito, porém, afirma que ainda não é possível tirar conclusões definitivas sobre o caso.
O advogado Ilvan Barbosa declarou que o inquérito continua em andamento e que “é prematura qualquer manifestação conclusiva sobre o mérito”. A defesa também afirmou que nem tudo o que vem sendo divulgado corresponde necessariamente à realidade dos fatos e disse confiar que a investigação irá esclarecer as circunstâncias, respeitando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Uma sobrevivente agora pede justiça
Emiliane recebeu alta e está em casa, mas ainda se recupera dos ferimentos.
O que começou como um desaparecimento de cinco dias terminou com o resgate de uma mulher encontrada acorrentada dentro de um quarto, uma carta com tom de despedida e relatos de agressões que agora estão no centro de uma investigação policial.
Para Emiliane, porém, o resgate não representa o fim da história. Representa o começo da busca por justiça.
“Para que ele não possa machucar mais nenhuma mulher”, pediu a jovem ao falar sobre o futuro do caso.
