
O gesto de Sophie Cunningham nas quadras da WNBA se tornou símbolo de uma postura firme e de bom senso – Foto: Reprodução
A discussão sobre a participação de atletas trans em competições femininas ganhou um novo capítulo nos Estados Unidos — desta vez com uma jogadora da principal liga profissional de basquete feminino do país no centro da controvérsia. Sophie Cunningham, armadora do Indiana Fever, transformou-se nas últimas semanas em uma das personagens mais comentadas da WNBA depois de afirmar que mulheres e meninas devem ser protegidas de competir contra atletas que ela classifica como “homens biológicos”.
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A declaração colocou Cunningham no centro de uma disputa que ultrapassa as quadras. De um lado, grupos conservadores passaram a tratá-la como uma voz corajosa dentro de uma liga tradicionalmente associada a pautas progressistas. Do outro, atletas, treinadores e ativistas ligados aos direitos LGBTQIA+ reagiram às suas declarações, defendendo a inclusão de pessoas trans no esporte.
O episódio ganhou dimensão nacional porque ocorre em um momento de mudança no ambiente político e jurídico americano. Em 30 de junho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que West Virginia e Idaho podem manter leis que restringem a participação de atletas trans em equipes esportivas femininas de escolas e universidades. A decisão, tomada por 6 votos a 3 quanto à questão constitucional central, estabeleceu que os Estados podem definir a elegibilidade para equipes femininas com base no sexo biológico sem violar o Título IX ou a Décima Quarta Emenda.
Quem é Sophie Cunningham
A jogadora, que completa 30 anos neste domingo (16), nasceu em Columbia, Missouri, e construiu sua carreira universitária na Universidade de Missouri. Ela foi escolhida pelo Phoenix Mercury na segunda rodada do draft de 2019, na 13ª posição, e permaneceu seis temporadas na equipe antes de chegar ao Indiana Fever, em uma troca envolvendo quatro times, em janeiro de 2025.
Com 1,85 metro, Cunningham atua como armadora e tem como uma de suas principais características o jogo físico e a capacidade de arremessar de longa distância. Na WNBA, soma sete temporadas de experiência e, até agosto de 2026, registra médias de aproximadamente 8 pontos, 2,8 rebotes e 1,4 assistência por partida na carreira. Em 2025, foi campeã da Commissioner’s Cup com o Fever.
Embora não seja a principal estrela esportiva da liga — posição ocupada por nomes como Caitlin Clark — Cunningham ganhou enorme exposição em 2026 depois de uma série de episódios dentro e fora das quadras. Um deles ocorreu em junho, quando imagens suas apontando para DeWanna Bonner durante uma discussão em uma partida viralizaram nas redes sociais. A própria Casa Branca chegou a utilizar o episódio em uma publicação.
Foi nesse ambiente de crescente popularidade que suas declarações sobre atletas trans ganharam proporções nacionais.
“Quero proteger as meninas”
Em entrevista publicada pela ESPN em julho, Cunningham afirmou que havia recebido críticas sob a acusação de “odiar” pessoas trans. Ela respondeu que nunca havia defendido esse tipo de hostilidade e apresentou sua posição como uma questão de proteção ao esporte feminino.
“Eu acho que estou aqui para estender amor. Mas também acho que esse amor vem com verdade, com honestidade”, disse a jogadora. Em seguida, afirmou que queria proteger meninas em vestiários e competições esportivas de situações em que tivessem de enfrentar “homens biológicos”.
Cunningham posteriormente reforçou que não considera sua posição uma rejeição à comunidade trans.
“Há espaço absolutamente para todos aqui”, afirmou em outra declaração. “Eu realmente acho que, quando você coloca as pessoas na mesma sala e conversa, descobre que tem muito em comum com muita gente.” Ao mesmo tempo, reiterou que acredita que os direitos das mulheres biológicas precisam ser protegidos.
A jogadora também disse considerar suas posições políticas “muito no meio”, afirmando concordar com alguns pontos de diferentes lados do espectro político.
Mesmo assim, a declaração rapidamente fez dela uma exceção dentro da WNBA, uma liga conhecida pelo ativismo progressista e pelo histórico de apoio a causas LGBTQIA+. A associação de jogadoras, a WNBPA, já havia manifestado apoio a direitos de pessoas LGBTQIA+ e a jovens trans.
Apoio da direita e de atletas que defendem o esporte feminino
A reação favorável foi imediata entre ativistas e personalidades que defendem a separação das categorias esportivas com base no sexo biológico.
A ex-nadadora universitária Riley Gaines, uma das principais ativistas americanas contra a participação de atletas trans em competições femininas, elogiou Cunningham publicamente. Gaines afirmou que a jogadora demonstrou coragem ao se posicionar em uma liga que considera fortemente alinhada a pautas progressistas.
O comentarista esportivo Stephen A. Smith também saiu em defesa da atleta. Ele afirmou que Cunningham havia verbalizado uma posição que muitas pessoas teriam receio de expressar publicamente e argumentou que a discussão deveria considerar as diferenças físicas entre atletas masculinos e femininos. Ao mesmo tempo, Smith declarou apoio aos direitos civis da comunidade LGBTQIA+.
O apoio chegou ainda ao ambiente político. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, declarou que o presidente Donald Trump concordava com a posição de Cunningham e criticou a reação contra a jogadora. O governo Trump já havia colocado a questão do esporte feminino no centro de sua política nacional.
A ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner também manifestou apoio à discussão sobre a elegibilidade de atletas trans e, neste domingo, defendeu a ideia de regras baseadas em critérios biológicos mais claros para o esporte feminino.
De declaração individual a movimento nas arquibancadas

Sophie Cunningham e DeWanna Bonner se tornaram o foco da troca de farpas, com Bonner proferindo palavras duras contra Cunningham e apontando o dedo para ela. Grace Hollars / IndyStar / Reuters
Rallies em apoio a Cunningham começaram a ser organizados do lado de fora de partidas do Indiana Fever. Em Seattle, um grupo de torcedores se reuniu nas proximidades da Climate Pledge Arena para demonstrar apoio à jogadora e defender a manutenção das categorias esportivas femininas para atletas do sexo feminino. Mobilizações semelhantes foram registradas em Portland e anunciadas para Minneapolis.
O episódio de Seattle acabou provocando uma crise dentro da própria WNBA. Duas adolescentes que estavam entre os torcedores favoráveis a Cunningham foram confrontadas por Celeste Keaton, coproprietária do Seattle Storm. A equipe pediu desculpas pelo episódio e a WNBA posteriormente suspendeu e multou Keaton, que ficou impedida de acompanhar cinco jogos como punição.
O incidente mostrou o grau de polarização que a discussão alcançou: manifestações a favor e contra a participação de atletas trans passaram a aparecer nos arredores de partidas da WNBA, transformando arenas de basquete em pontos de disputa cultural.
Em Portland, Cunningham foi recebida por torcedores que exibiam bandeiras trans e também por manifestações favoráveis à sua posição. A própria jogadora disse não considerar os protestos uma distração e afirmou que continuaria concentrada no basquete.
O que diz a regra da WNBA
O novo acordo coletivo de trabalho da WNBA, aprovado em março e formalizado em maio de 2026, estabeleceu uma nova estrutura para a liga e terá validade de sete anos, até 2032.
A linguagem relacionada à elegibilidade feminina estabelece que apenas jogadoras que sejam mulheres podem atuar na WNBA, mas não apresenta, segundo as reportagens que analisaram o texto, uma regulamentação específica detalhando a situação de atletas trans. Essa ausência de especificação passou a ser explorada politicamente depois das declarações de Cunningham.
Foi justamente essa brecha interpretativa que levou dois ex-jogadores da NBA, Enes Kanter Freedom e Royce White, a anunciarem que pretendem se apresentar como mulheres e buscar participação no draft da WNBA de 2027. Ambos dizem utilizar a iniciativa para questionar o que consideram inconsistência nas regras da liga.
A WNBA classificou esse tipo de iniciativa como uma tentativa de provocar artificialmente uma controvérsia e reiterou que não existe atualmente um problema de elegibilidade relacionado a atletas trans.
Megan Rapinoe e outras críticas
Cunningham também recebeu críticas de personalidades identificadas com o campo progressista. A ex-jogadora da seleção americana de futebol Megan Rapinoe foi uma das vozes que questionaram sua posição e defenderam maior inclusão de atletas trans.
O contraste expôs uma divisão que não se limita à WNBA. A questão está presente em praticamente todas as modalidades esportivas americanas e se tornou um dos temas mais sensíveis da disputa política entre conservadores e progressistas.
A mudança jurídica nos Estados Unidos
A ascensão de Cunningham como símbolo político ocorre em um momento particularmente significativo.
Em fevereiro de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva intitulada “Keeping Men Out of Women’s Sports”, direcionada à exclusão de atletas masculinos de competições femininas em instituições submetidas às regras federais. A Casa Branca afirmou que a medida buscava proteger a segurança, a igualdade e as oportunidades de mulheres e meninas no esporte.
Poucos dias depois, a NCAA modificou sua política e restringiu a participação em competições femininas a atletas designadas do sexo feminino ao nascer, embora permita que atletas designadas do sexo masculino treinem com equipes femininas e recebam determinados benefícios relacionados ao treinamento.
Em junho de 2026, veio a decisão da Suprema Corte no caso West Virginia v. B.P.J.. O tribunal concluiu que Estados podem manter equipes femininas destinadas a atletas do sexo biológico feminino e estabelecer critérios de elegibilidade baseados no sexo biológico.
A decisão não determina automaticamente as regras da WNBA, que é uma liga profissional privada, mas alterou significativamente o ambiente jurídico e político no qual a discussão sobre esporte feminino ocorre nos Estados Unidos.
Por que Cunningham se tornou um símbolo

Foto: Reprodução
A importância de Sophie Cunningham não está apenas no conteúdo de suas declarações, mas no lugar de onde elas vieram.
A WNBA construiu nos últimos anos uma identidade pública fortemente associada à defesa de causas progressistas, direitos LGBTQIA+ e igualdade racial. Cunningham, uma jogadora profissional dentro dessa estrutura, passou a defender uma posição que é hoje uma das principais bandeiras do movimento conservador americano.
Sua visibilidade também foi potencializada pelo momento vivido pela própria liga. A WNBA atravessa uma fase de crescimento sem precedentes, com recordes de audiência e público e uma nova estrutura comercial. A temporada de 2026, porém, vem sendo marcada por disputas que vão além do esporte, incluindo conflitos raciais, questões de arbitragem, violência nas quadras e a controvérsia sobre atletas trans.
Assim, Cunningham passou a ocupar um espaço incomum: o de atleta que não apenas participa da discussão política, mas se tornou personagem central dela.
Popularidade em alta e novas oportunidades
A controvérsia também teve efeitos sobre a popularidade comercial da jogadora. Reportagens recentes apontam crescimento expressivo de sua presença nas redes sociais, aumento da procura por sua camisa e interesse de marcas em associar-se à atleta.
A imprensa americana também informou que Cunningham estaria negociando um livro sobre sua trajetória e o episódio que a transformou em uma figura nacional, embora esse projeto ainda não represente uma publicação confirmada.
No esporte, ela continua sendo uma peça importante do Indiana Fever. Sua atuação em quadra, entretanto, passou a dividir espaço com uma imagem pública que transcende o basquete.
Uma disputa que está longe do fim
A história de Sophie Cunningham não significa que os Estados Unidos tenham chegado a um consenso sobre atletas trans. O cenário continua profundamente dividido.
A Suprema Corte abriu espaço para que Estados restrinjam a participação de atletas trans em equipes femininas no esporte escolar. A NCAA adotou uma política restritiva. O governo Trump mantém a proteção do esporte feminino como uma de suas pautas. E, ao mesmo tempo, organizações esportivas e grupos de defesa dos direitos LGBTQIA+ continuam defendendo a inclusão e contestando políticas consideradas discriminatórias.
Na WNBA, a situação permanece particularmente simbólica. Não há atualmente uma jogadora trans na liga, mas a possibilidade de participação tornou-se um dos maiores debates extracampo de sua temporada de 30 anos.
Sophie Cunningham acabou no centro desse processo. Ao insistir que sua posição não representa ódio contra pessoas trans, mas defesa das categorias femininas, a jogadora transformou uma opinião pessoal em uma bandeira adotada por grupos conservadores e ativistas do esporte feminino.
O que começou como uma declaração de uma jogadora da WNBA tornou-se, em poucas semanas, parte de uma discussão nacional sobre sexo, identidade, direitos, segurança, competição e os próprios limites do esporte feminino nos Estados Unidos. E, enquanto a liga tenta impedir que a disputa política tome conta das quadras, Cunningham se consolida como um dos rostos mais visíveis de uma mudança cultural que ainda está em curso.
Sem atletas trans no vôlei?
A Confederação Brasileira de Voleibol anunciou que irá aderir ao regulamento do COI que bane mulheres trans da categoria feminina do esporte. A regra restringe a participação a atletas do sexo biológico feminino e estabelece um teste genético para entrar nos times.
