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FAO alerta para nova onda de inflação global dos alimentos provocada por guerras e El Niño

Conflitos no Oriente Médio e no Leste Europeu, aliados à previsão de um El Niño de forte intensidade, devem elevar os custos da produção agrícola e pressionar os preços dos alimentos em todo o mundo até 2027.


O mundo pode enfrentar uma nova escalada no preço dos alimentos nos próximos meses. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que aponta uma combinação de fatores geopolíticos e climáticos como responsáveis pela pressão sobre a produção agrícola e os custos da cadeia de abastecimento mundial.

Segundo o economista-chefe da FAO, Maximo Torero, os efeitos das guerras envolvendo Irã e Ucrânia, somados ao fortalecimento do fenômeno El Niño, devem provocar um aumento gradual dos preços das commodities agrícolas ainda neste segundo semestre, com impactos mais intensos ao consumidor ao longo de 2027.

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De acordo com Torero, existe um intervalo de aproximadamente três a seis meses entre a alta dos custos de produção e o repasse ao preço final dos alimentos. Embora os índices internacionais tenham permanecido relativamente estáveis no início de 2026, a tendência é de aceleração da inflação alimentar nos próximos meses.

 

Máximo Torero é atualmente o economista-chefe da FAO (Food and Agriculture Organization) Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, com sede em Roma, Itália – Foto: Reprodução

Energia cara e fertilizantes pressionam o campo

Entre os principais fatores apontados pela FAO está o aumento dos preços do petróleo e do gás natural, insumos considerados estratégicos para a agricultura moderna.

O bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte mundial de petróleo e gás liquefeito, reduziu a oferta desses produtos e elevou os custos logísticos em diversos países. O petróleo é utilizado em praticamente todas as etapas da cadeia produtiva agrícola, desde o preparo do solo até o transporte dos alimentos, enquanto o gás natural é indispensável para a fabricação de fertilizantes nitrogenados.

Além disso, os ataques às infraestruturas energéticas russas reduziram a disponibilidade de diesel e gás natural para exportação, ampliando a pressão sobre os custos da produção agrícola mundial.

Agricultores reduzem áreas de plantio

Os impactos econômicos já começam a alterar o planejamento das próximas safras em importantes produtores mundiais.

Nos Estados Unidos, produtores têm diminuído o cultivo de milho e trigo — culturas que exigem maior volume de fertilizantes — e ampliado o plantio de soja, considerada menos dependente desses insumos. A Federação Americana de Escritórios Agrícolas estima perdas de até US$ 32 bilhões para o setor agrícola em 2027 caso não haja medidas de apoio ao produtor.

Na Austrália, um dos maiores exportadores agrícolas do planeta, a produção das culturas de inverno poderá cair cerca de 21%, reflexo do aumento expressivo dos custos de combustíveis, fertilizantes e da incerteza no fornecimento de insumos agrícolas.

El Niño preocupa produtores em vários continentes

A previsão de um El Niño de forte intensidade também amplia as preocupações dos organismos internacionais.

Especialistas indicam que o fenômeno deverá alterar significativamente o regime de chuvas em diversas regiões produtoras do mundo. Na Índia, o atraso da monção ameaça a produção de arroz, uma das principais commodities alimentares globais.

Na América Latina, os efeitos podem incluir enchentes em algumas áreas e secas severas em outras, comprometendo lavouras e reduzindo a produtividade agrícola. No Brasil, os impactos devem variar conforme a região, com excesso de chuvas no Sul, estiagens no Norte e Nordeste e irregularidade climática no Centro-Oeste, afetando culturas como milho, soja, arroz e café.

Risco de aumento da insegurança alimentar

Além da pressão sobre os preços, a ONU alerta para o agravamento da insegurança alimentar mundial.

O Programa Mundial de Alimentos (WFP) estima que um El Niño muito forte poderá colocar cerca de 49 milhões de pessoas adicionais em situação de fome aguda até o fim de 2027. A maior preocupação concentra-se em regiões vulneráveis da África, América Central, Caribe e partes da América do Sul, onde secas prolongadas e eventos climáticos extremos podem comprometer significativamente a produção agrícola.

Reflexos para o Brasil

No Brasil, especialistas avaliam que o aumento internacional das commodities pode pressionar os preços de produtos básicos, como arroz, milho, trigo, carnes, leite e derivados, além de elevar os custos da produção rural.

O cenário também pode influenciar a política monetária caso a inflação dos alimentos ganhe força nos próximos meses, aumentando os custos do crédito agrícola e impactando investimentos no setor.

Economistas observam que, embora o país seja um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, o mercado interno tende a sentir os efeitos da alta internacional dos insumos, da logística e das oscilações climáticas, especialmente se o El Niño confirmar a intensidade prevista.

Para a FAO, a adoção de políticas de adaptação climática, investimentos em infraestrutura agrícola e medidas para garantir o fornecimento de fertilizantes serão fundamentais para reduzir os impactos sobre a produção de alimentos e conter uma nova escalada da inflação alimentar global.

 

FAO-ADG-Máximo_Torero

Torero recebeu a Ordem do Mérito Agrícola (Chevalier de l’Ordre du Mérite Agricole) do governo francês por sua excepcional contribuição à agricultura. A Rede Global de Desenvolvimento o premiou duas vezes por sua pesquisa de destaque sobre desenvolvimento. Seu trabalho foi citado em diversos veículos de comunicação, incluindo CNN , BBC , The Economist e The New York Times . Ele possui doutorado em economia pela Universidade da Califórnia, Los Angeles, e bacharelado pela Universidade do Pacífico, no Peru.