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Denúncia do Ministério Público revela bastidores do CV e ligação com oficial da PM no Rio

Ordens de tortura e 'favor' para major da PM: o retrato do CV na denúncia que embasou operação no Rio, a mais letal da história do país, que levanta perguntas sobre o equilíbrio entre justiça, segurança e legalidade.


O Ministério Público do Rio de Janeiro revelou novos detalhes sobre a estrutura e as ações do Comando Vermelho no Complexo da Penha. A denúncia, que serviu de base para a operação policial mais letal da história do país, traz informações sobre a hierarquia da facção, ordens de tortura e até a colaboração com um major da Polícia Militar.

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A Operação Contenção, realizada nesta terça-feira, deixou mais de 120 mortos, incluindo quatro policiais. Segundo o MP, a investigação analisou mensagens de WhatsApp, áudios e postagens em redes sociais feitas pelos próprios criminosos.

Entre os 69 denunciados, estão nomes conhecidos do tráfico, como Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como o principal líder do CV em liberdade, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala.
Abaixo deles, aparecem Carlos Costa Neves, o Gardenal, e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão — responsáveis por administrar o tráfico na Penha e expandir a atuação da facção para outras áreas do Rio.

O documento do MP descreve uma verdadeira organização criminosa: escalas de trabalho, regras de conduta e até pagamentos regulares aos integrantes. Mensagens de Grandão mostram a proibição do uso de fuzis em eventos comunitários e orientações para manter a “disciplina” dentro do tráfico.

Mas a denúncia também traz cenas de extrema violência. Áudios e vídeos indicam torturas e execuções ordenadas pelos chefes do CV. Em um dos casos, um traficante teria mandado matar um subordinado “na frente de todos” como exemplo.

Investigação mostra imagens de tortura como a mulher (esq.) forçada a ficar dentro de um balde de gelo, acusada pelo tráfico de ‘arrumar confusão no baile’ e um homem espancado e humilhado – Foto: Reprodução

Outro ponto que chama atenção é a ligação entre traficantes e policiais militares.
De acordo com o MP, um major da PM teria pedido ajuda ao tráfico para recuperar um carro roubado. O veículo foi devolvido dias depois.
Em outro trecho, há indícios de pagamento de R$ 15 mil a policiais para liberar um integrante da facção.

A denúncia também aponta que criminosos usavam câmeras de vigilância, drones e até uma pizzaria para lavar dinheiro.

Gardenal, um dos chefes, ostentava carros de luxo, joias e armas em fotos publicadas nas redes sociais — entre eles, um Porsche Taycan que circulava pela favela.

Gardenal ostentava carros e joias, afirma documento do MPRJ – Foto: Reprodução

A Polícia Militar informou, em nota, que colabora com as investigações. Já o Ministério Público afirma que a denúncia é parte de um esforço para desarticular a cúpula do Comando Vermelho e revelar a rede de proteção que sustenta o crime organizado no Rio de Janeiro.

O que revela a “Operação Contenção

O caso apresentado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro é mais um retrato da complexidade da violência e da criminalidade organizada no Estado. A denúncia detalha não apenas a estrutura do Comando Vermelho, mas também uma rede de conexões que atravessa fronteiras entre o crime e setores formais do poder público.

Se confirmadas, as informações mostram que o tráfico de drogas deixou há muito de ser apenas uma questão policial. Ele se tornou um fenômeno econômico e social, sustentado por corrupção, desigualdade e ausência do Estado em áreas vulneráveis. A presença de um major da Polícia Militar em conversas com criminosos, caso comprovada, evidencia a urgência de mecanismos de controle e transparência dentro das corporações.

Do ponto de vista legal, a resposta a esse tipo de situação deve ser institucional e dentro do Estado Democrático de Direito. Isso significa investigações independentes, respeito ao devido processo legal e responsabilização de todos os envolvidos — sejam traficantes, policiais ou agentes públicos. A Constituição e a Lei de Organização Criminosa preveem instrumentos adequados para isso, como o uso de provas digitais, delações premiadas e o controle externo da atividade policial pelo Ministério Público.

Ao mesmo tempo, é fundamental que operações de grande porte, como a que resultou em mais de 120 mortes, sejam conduzidas com transparência e rigor técnico. O Estado tem o dever de combater o crime, mas também o dever de proteger vidas e garantir que a força seja usada dentro dos limites legais. O alto número de mortos e a falta de informações sobre quem são essas vítimas levantam questões que precisam ser respondidas com seriedade.

O que se espera agora é que as instituições atuem com independência, responsabilidade e foco no interesse público — punindo quem deve ser punido, reparando abusos, e buscando soluções duradouras para uma violência que, há décadas, desafia o Rio de Janeiro e o país.