Terras raras, insumo essencial para turbinas eólicas, veículos elétricos e armamentos de alta precisão, colocam o Brasil no centro de uma disputa silenciosa entre China e Estados Unidos. A disputa pelos minerais do futuro promete redefinir a geopolítica global — e pode transformar o Brasil de fornecedor de matéria-prima em potência tecnológica. Ou não.
Apesar do nome, as terras raras não são exatamente escassas, mas estão presentes na natureza em concentrações muito pequenas. O desafio é encontrar depósitos onde a extração seja economicamente viável. São minerais fundamentais para a fabricação de produtos modernos como smartphones, televisores, câmeras digitais e LEDs. Também têm papel central na indústria militar, estando presentes em caças, submarinos e sistemas de telêmetro a laser.
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Foto: Bert Van Dijk/Getty Images
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo (atrás da China). Ainda assim, o país carece de uma indústria que permita transformar esse potencial geológico.
A nova corrida do ouro tecnológico
Os minerais conhecidos como terras raras são vitais para a indústria moderna. Turbinas eólicas, carros elétricos, semicondutores e equipamentos de defesa dependem deles. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda global deve aumentar sete vezes até 2040.
Com a segunda maior reserva mundial, o Brasil aparece como protagonista natural na corrida por suprimentos estratégicos. Mas, sem uma política industrial que agregue valor localmente, corre o risco de repetir o padrão colonial — exportando riqueza bruta enquanto outros países capturam o lucro da industrialização, alerta Alexandre Uehara, professor da ESPM.

Mapa do Brasil com as principais ocorrências de ETRs – Fonte: SGB/CGEE (2013)
China: o monopólio construído com estratégia de Estado
O domínio chinês não é acidental. Planos como o Made in China 2025 e o 14º Plano Quinquenal priorizaram o controle total da cadeia produtiva, da mineração ao refino e à fabricação de ímãs de alta performance.
Hoje, empresas chinesas dominam 60% da extração global e quase 90% do refino.
Para o engenheiro Constantin Caranopolis, o segredo está na integração entre universidades, centros de pesquisa e o governo, que formaram uma base tecnológica robusta.
Esse controle transformou as terras raras em arma geoeconômica. A China já restringiu exportações a países ocidentais e mantém rígido controle sobre elementos usados na indústria de defesa. “O que aconteceria se a China cortasse o fornecimento de ímãs essenciais para caças americanos?”, questiona Fernando Landgraf, da USP.
A resposta tem sido rápida: potências buscam diversificar cadeias produtivas — e o Brasil desponta como alternativa estratégica.
A ofensiva chinesa no Brasil
O investimento chinês no Brasil cresceu 113% em 2024, atingindo US$ 4,18 bilhões, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). O país se tornou o terceiro maior destino global de capital de Pequim, mesmo com retração na Austrália e nos EUA.
A ofensiva se concentra em energia, petróleo e minerais críticos.
A BYD comprou direitos de exploração de lítio em Minas Gerais, enquanto a MMG adquiriu ativos de níquel da Anglo American em 2025. Na infraestrutura, a Cofco International assumiu o terminal STS-11 no Porto de Santos e a China Merchants Port (CMPort) passou a controlar o Terminal de Contêineres de Paranaguá.
Essas aquisições consolidam uma teia de influência que combina mineração e logística, dando à China poder geoeconômico sobre setores estratégicos brasileiros. Diferente das empresas ocidentais, conglomerados estatais chineses podem operar com prejuízo temporário, em busca de metas de longo prazo.
EUA: o contra-ataque via segurança e “friendshoring”

Friendshoring busca pela partilha de laços políticos, económicos ou estratégicos – Foto: Reprodução
O termo “friendshoring” surgiu em 2021 (na altura, apelidado de “allyshoring”), na sequência das crises económicas e das tensões geopolíticas causadas pela pandemia e pela invasão da Ucrânia. Trata-se de uma evolução das estratégias de gestão da cadeia de abastecimento mais comuns, tendo como pressuposto a deslocação das fases de produção e de fornecimento para países com os quais se partilha laços políticos, económicos ou estratégicos.
Os Estados Unidos tratam as terras raras como questão de segurança nacional. A estratégia de friendshoring — fortalecer cadeias produtivas com aliados — coloca o Brasil como parceiro prioritário.
Empresas ocidentais, como a australiana Liberty Metals, alinham investimentos à política americana de minerais críticos. Ao mesmo tempo, cresce a pressão política: o senador Tom Cotton pediu investigação sobre a expansão chinesa no agronegócio e mineração brasileiros.
Nas negociações comerciais entre Lula e Donald Trump, as terras raras entraram na pauta como moeda de troca. “Os EUA têm interesse nos minerais e produtos brasileiros que afetam sua inflação. Já o Brasil busca eliminar tarifas”, afirma Volnei Eyng, CEO da Multiplike.
O trunfo brasileiro: geologia e sustentabilidade
O Brasil tem depósitos considerados os melhores do mundo — especialmente os de argilas iônicas em Poços de Caldas (MG). A extração é mais barata, menos poluente e pode custar apenas US$ 8,8 por quilo de óxido, mantendo viabilidade mesmo com preços baixos.
Projetos como o Colossus, da mineradora Viridis, mostram avanços na sustentabilidade: não usam barragens de rejeito nem pilhas permanentes. “É um salto tecnológico e ambiental”, afirma o diretor José Marques Braga Júnior.
O gargalo da industrialização
O país, porém, ainda não domina o refino químico das terras raras. Sem isso, exporta compostos mistos a cerca de US$ 10/kg, enquanto os óxidos refinados chegam a US$ 200/kg, e os ímãs prontos, a milhares de dólares.
“O Brasil precisa dominar a tecnologia de separação e avançar para produtos de alto valor agregado”, afirma Caranopolis. O desafio é técnico e exige investimento de longo prazo — algo que a China levou décadas para desenvolver.
Soberania mineral: o desafio político
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) defende a criação de uma política de Estado para minerais críticos. Em tramitação no Congresso, o PL 2780/2024 propõe a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que busca dar segurança jurídica e coordenar investimentos.
Hoje, o licenciamento ambiental e os trâmites burocráticos podem levar até 16 anos. “É necessário modernizar o processo sem abrir mão das salvaguardas socioambientais”, defende Adalberto Junqueira, da Tractebel.
Tecnologia e capital humano: o elo perdido
O Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do MCTI, tem orçamento equivalente a 2,5% do órgão similar americano e 1,4% do japonês.
Para Silvia França, diretora do centro, “o Brasil precisa sair dos milhões e investir bilhões em pesquisa e formação”.
O governo anunciou uma linha de R$ 5 bilhões via BNDES e Finep, mas o setor privado apresentou demanda de R$ 85 bilhões, revelando a defasagem.
As vantagens comparativas do Brasil
Apesar das dificuldades, o país tem diferenciais competitivos únicos:
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Matriz elétrica 80% renovável, ideal para mineração de baixo carbono;
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Legislação ambiental robusta e possibilidade de rastreabilidade total;
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Neutralidade diplomática, com trânsito entre OCDE, BRICS e Mercosul.
Um plano de ação urgente
Especialistas sugerem medidas imediatas para transformar potencial em poder real:
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Implantar fábricas de refino e produção de ímãs (como os projetos Magbras e Viridis/Ionic Rare Earths).
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Integrar mineração e infraestrutura energética, garantindo linhas de transmissão.
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Fomentar desenvolvimento regional em áreas mineradoras.
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Investir em reciclagem e mineração urbana, aproveitando resíduos ricos em metais críticos.
Entre potências e oportunidades
A corrida pelas terras raras define o tabuleiro da nova economia global.
O Brasil está no centro — e precisa escolher seu papel: fornecedor de matéria-prima ou de tecnologia.
Com visão estratégica, investimento e coordenação entre governo e indústria, o país pode transformar seu subsolo em alicerce do futuro energético e digital do planeta.
