São Paulo, 11 de junho de 2025 – Em uma decisão surpreendente, o juiz Massimo Palazzolo, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, anulou o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que estava no cerne da Operação Sem Desconto, a qual investiga fraudes envolvendo empresários e lobistas no Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). O juiz considerou que o compartilhamento de informações financeiras, entre o Coaf e a Polícia Federal, violou normas de privacidade e não respeitou os devidos processos legais.
O RIF, que inicialmente havia ajudado a identificar movimentações suspeitas de entidades como a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), agora é invalidado. Essa decisão compromete a continuidade da investigação, que já tinha avançado sobre diversos envolvidos, incluindo o empresário Maurício Camisotti, apontado como peça-chave do esquema, e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, suspeito de atuar como lobista.
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A decisão de anular o documento foi uma vitória para a defesa da AMBEC, que alegou que o relatório foi obtido de maneira ilegal, sem um inquérito formal previamente instaurado. Segundo o juiz, a Polícia Federal havia realizado uma “fishing expedition”, ou busca indiscriminada de provas, o que levantou questões sobre a violação de direitos fundamentais dos investigados.
Limitação nas Investigações e Manobras Jurídicas
Com a nulidade do RIF, a Operação Sem Desconto sofre um importante golpe. A investigação, agora, poderá seguir apenas com as informações obtidas por fontes independentes, o que limita a amplitude do caso. A decisão reforça um cenário de incertezas quanto ao uso de documentos financeiros em investigações, tendo em vista que, em 2019, o STF havia autorizado o compartilhamento de dados do Coaf com órgãos de investigação sem a necessidade de autorização judicial prévia.
A decisão também evidencia as tensões no sistema jurídico brasileiro, com a defesa da AMBEC argumentando que a anulação segue a orientação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que já havia restringido o uso indiscriminado de relatórios financeiros sem um inquérito formal. O juiz Palazzolo, por sua vez, deixou claro que as provas obtidas de outras fontes independentes permanecerão válidas.
Impactos Políticos e Jurídicos
A decisão abre um novo capítulo nas investigações sobre fraudes no INSS e coloca em evidência o embate entre o direito à privacidade e a busca por justiça em casos de corrupção. Embora a Operação Sem Desconto continue em curso, o revés judicial enfraquece o material de prova no caso específico da AMBEC, mas deixa claro que a disputa jurídica sobre os limites do poder de investigação está longe de ser resolvida.
A expectativa agora é sobre os próximos passos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que têm mais de 20 investigações derivadas dessa operação. A anulação do RIF, por mais que seja um golpe para a investigação, ainda não impede o desmembramento de outras frentes de apuração, que seguem seu curso, embora com limitações.
