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Jean-Marie Le Pen é sepultado, mas seu partido, agora liderado por sua filha, se aproxima do poder na França

Cerca de 200 pessoas participaram neste sábado (11) de uma missa de corpo presente em La Trinité-sur-Mer, no oeste da França, em memória de Jean-Marie Le Pen, fundador do partido de extrema direita Frente Nacional (FN). Ele faleceu em 7 de janeiro aos 96 anos. O corpo do político nacionalista foi sepultado em seguida no túmulo da família, ao lado dos pais, no pequeno cemitério da cidade balneária de 1.800 habitantes, onde ele nasceu.


Apenas familiares, amigos e colaboradores do partido foram convidados para a cerimônia religiosa na pequena igreja de Saint Joseph. Sob céu azul e temperatura de 6°C, ao final da missa de 1h30, dezenas de jornalistas presentes registraram imagens das três filhas do político morto saindo da capela – Marine Le Pen, herdeira do partido de extrema direita rebatizado de Reunião Nacional (RN), Marie-Caroline e Yann –, acompanhadas pelos netos do líder populista de direita falecido na terça-feira (07).

Outra cerimônia em memória de Jean-Marie Le Pen está prevista na próxima quinta-feira, em Paris, na igreja Notre Dame du Val-de-Grâce, anexa à diocese das Forças Armadas Francesas. Esta celebração será aberta ao público.

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As homenagens em La Trinité-sur-Mer aconteceram sem incidentes. Cerca de 1.700 agentes de segurança do partido de Marine Le Pen e policiais foram mobilizados para garantir a tranquilidade do enterro. Autoridades locais preferiram tomar precauções, depois que manifestantes contrários às ideias xenófobas e racistas de Jean-Marie Le Pen se reuniram em Paris e Lyon, na noite do anúncio da morte do político, para “festejar” seu falecimento.

Jean-Marie Le Pen em 2 de fevereiro de 2022 em sua casa em Rueil-Malmaison, a oeste de Paris – Foto: Joel Saget/AFP

Nas duas cidades, militantes progressistas entoaram cantos antifascistas, soltaram bombas e dispararam fogos de artifício. “Este racista nojento está morto”, dizia um cartaz visto na celebração na praça da República, em Paris.

Essas manifestações foram condenadas pelo governo francês e pelo partido de Marine Le Pen, que criticou “o caos nas ruas, provocado pela mesma escória esquerdista de sempre”. “Morto, até o inimigo tem direito ao respeito”, disse um porta-voz do Executivo.

‘Ele amou a França’

Em La Trinité-sur-Mer, a atmosfera esteve amena, com apenas alguns curiosos tentando se aproximar da igreja.

“Vim por curiosidade, para prestar homenagem a um homem que serviu a França e que amou a França”, explicou à AFP Johann, 40 anos, que mora perto de Auray.

“Viemos prestar homenagem a um grande homem que teve a coragem de dizer coisas”, acrescentou Ludovic, 43 anos. “Ele era um visionário. Ele amava a França e seu povo e eles tinham valores que estão sendo perdidos, como o amor à nação.”

Político controverso e provocador, obcecado pela imigração e pelos judeus, Jean-Marie Le Pen surpreendeu os franceses ao chegar ao segundo turno das eleições presidenciais em 21 de abril de 2002, atrás de Jacques Chirac, que acabou sendo reeleito com mais de 82% dos votos graças a uma “frente republicana”.

Durante a década de 1950 e até o começo dos anos 1960, Le Pen se engajou no Exército francês para defender a manutenção do domínio colonial da França na região da Indochina, no sudeste asiático, e na Argélia, no norte da África, combatendo as forças independentistas. Em 2019, ele admitiu a um jornalista ter praticado tortura na Argélia, sem usar a palavra, segundo declarações publicadas pelo jornal Le Monde em sua edição de domingo e segunda-feira.

Vida de Jean Marie Le Pen

Sua historia é a de um ex-militar torturador, condenado várias vezes por declarações racistas, antissemitas e de apoio ao nazismo, que recebe saudações complacentes dos estadistas franceses após sua morte na terça-feira (7).

No dia da comemoração dos 10 anos do gravíssimo atentado ao jornal Charlie Hebdo, (visceral defensor da liberdade de expressão e da luta contra extrema direita), as declarações das autoridades e jornalistas sobre sua morte aos 96 anos, ilustram a propagação de suas ideais na sociedade francesa.

A vida de Le Pen se resume em uma frase: mais de 60 anos de ódio e de provocações que permitiram a reconstrução de uma ideologia fascista e antidemocrática, hoje às portas do poder.

Para entender essa trajetória, é preciso voltar ao contexto politico francês ao final da Segunda Guerra Mundial. Nessa época na França, no contexto do julgamento de Nuremberg que reconheceu o genocídio nazista como crime contra humanidade, vários grupos de extrema direita foram proibidos e denunciados. As figuras do fascismo são divididas e se fazem discretas.

Nos anos 50, o jovem Jean-Marie Le Pen é militar e serve principalmente nas guerras colônias francesas da Indochina (atual Vietnã). É exatamente nesse setor onde se concentra o maior reduto das figuras politicas de extrema direita, incluindo algumas que tinha apoiado o regime de Vichy (1940 a 1944) durante a guerra. Também politico, ele se elege deputado pela primeira vez aos 27 anos em plena guerra da Argélia.

Mesmo deputado, Le Pen passa seis meses na Argélia em 1957, onde praticou cotidianamente atos violentos de torturas por conta do Estado colonial francês contra os independentistas argelinos da Frente de libertação nacional (FLN). Ele nunca foi condenado por isso.

Co-fundador do partido de estrema direita Frente nacional em 1972, ele o presidiu durante 38 anos. Seu tom provocador, egocêntrico, e escandaloso suscitava admiração em seus apoiadores.

Ele assumia «dizer em voz alta o que as pessoas pensam em silêncio». Foi com essa estratégia que fez seu partido crescer até chegar em 2002 ao segundo turno das eleições presidenciais contra Jacques Chirac. Essa data representa o marco do crescimento da estrema direita na historia francesa, apesar de sua filha, Marine Le Pen, ter alcançado quase o triplo de votos nas presidenciais de 2022, 20 anos depois.

De fato, Le Pen, é também uma empresa política familiar. Hoje, não só sua filha Marine Le Pen (3 vezes candidata às eleições presidenciais) mas também sua neta Marion-Marechal Le Pen (ex-aliada de Zemmour, atualmente deputada europeia) são figuras nacionais da extrema direita francesa.

Poucos anos depois de Marine Le Pen recuperar a presidência do partido, a legenda passa de 4 a 24 deputados europeus no Parlamento europeu em 2014 e de 1 a 7 deputados na Câmera dos deputados em 2017. Hoje representa a maior bancada da Câmara com 116 deputados.

Enquanto o pai Le Pen se preocupava mais de influenciar a opinião francesa de que almejar fundamentalmente o governo, a filha se beneficia de um terreno fértil para continuar com seu trabalho de inserção nas instituições. Preocupada com a imagem e a reputação do partido, ela tenta afastar de sua cúpula os mais radicais e ultraconservadores, troca o nome da legenda e e exclui dela o próprio pai em 2015.

A Justiça o condenou quatro vezes por isso. Com 90 anos, ele foi de novo condenado por comentários homofóbicos. Poucos meses atrás, enquanto se abria o processo contra o RN por apropriação indevida de fundos públicos e cumplicidade, ele ficou em casa, por licença médica.

Mas nada disso apareceu nos comentários de grande parte da imprensa francesa e dos representantes do governo. Assim a âncora do canal CNEWS (hoje propriedade do maior grupo de imprensa Bolloré assumidamente de extrema-direita) reconhece «uma figura da politica francesa», «um animal politico» que «marcou o imaginário politico» com sua «cultura impressionante».

20 anos depois das manifestações massivas contra a chegada de Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais de 2002, Marine Le Pen e toda a cúpula do partido são autorizados a participar em 2023 da marcha nacional contra o antissemitismo, organizada para se solidarizar com as vitimas judias do atendado do Hamas no 7 de outubro.