Emblemática a conduta do técnico Carlo Ancelotti na entrevista coletiva após o jogo entre Valencia e Real Madrid, neste domingo no estádio Mestalla. O treinador se recusou a falar de qualquer outro assunto que não fosse o episódio de racismo contra o atacante Vinicius Junior.

Carlo Ancelotti discute com árbitro Ricardo De Burgos Bengoetxea, durante Valencia x Real Madrid — Foto: Getty Images
— Não quero falar de futebol. Vocês querem falar de futebol? Foi mais que uma derrota. Não parece? Eu sou muito calmo, mas aconteceu algo que não pode acontecer. Um estádio gritando “macaco” a um jogador, e um treinador pensar em ter que tirá-lo por isso. Algo está muito errado nesta liga. Nada acontece — desabafou Ancelotti, ao canal “Movistar”.
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O técnico do Real Madrid afirmou que a partida deveria ter sido suspensa, mesmo se estivesse ganhando o jogo por 3 a 0. Ancelotti contou que pediu ao árbitro Ricardo De Burgos Bengoetxea para interromper a partida. O árbitro explicou a ele o protocolo.
Vinicius Junior queria sair, revela Ancelotti
Ancelotti também revelou na entrevista coletiva que Vinicius Junior ficou “muito triste” com o ocorrido e que não queria mais continuar jogando.

Courtois e Rüdiger tentam controlar Vinicius Junior durante o jogo contra o Valencia — Foto: Reuters
Pouco antes, a polícia informou sobre a prisão de quatro pessoas por pendurar um boneco com a camisa de Vinicius Júnior em uma ponte, simulando o enforcamento do jogador, em janeiro. O caso aconteceu antes de um jogo do Real Madrid contra o Atlético de Madrid. Ao lado do boneco, foi colocada uma faixa onde estava escrito “Madrid odeia o Real”. A polícia tinha aberto uma investigação para encontrar os responsáveis pelo ocorrido, mas apenas após os incidentes de domingo, anunciou a prisão dos suspeitos. Todos são espanhóis e têm 19, 21, 23 e 24 anos.
De acordo com a polícia, eles foram identificados através de “vestígios, testemunhas ou de consultas em fontes abertas”. Três dos quatro detidos são membros de uma torcida organizada do Atlético de Madrid e o outro é simpatizante do movimento. Ainda de acordo com a as autoridades policiais, os três membros da torcida já haviam sido identificados durante partidas de futebol e classificados como “de alto risco”. Um deles, inclusive, tem antecedentes criminais por lesão corporal.
Demissão do VAR
Na segunda-feira foi anunciada a demissão de seis pessoas que participaram do jogo de domingo. Entre eles, o árbitro de vídeo que indicou que Vinicius deveria ser expulso da partida entre Real Madrid e Valencia, depois da confusão em campo entre jogadores dos dois times.
Ao chamar o árbitro de campo para revisão, o VAR teria mostrado o trecho de vídeo em que Vinicius acerta o rosto de um adversário e omitido a parte em que um jogador do Valencia segurou o atacante do Real Madrid com um mata-leão.
Além dessa punição e das prisões de hoje, pode haver outros desdobramentos em diferentes esferas. O Real Madrid, em um dos vários comunicados oficiais que fez sobre o caso de racismo, disse ter denunciado os atos violentos ao Ministério Público espanhol, que deve investigar o ocorrido como possível “delito de ódio”, que prevê penas que vão de 1 a 4 anos de prisão e multa.
Manifestações pelo mundo
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, fez uma declaração dizendo que, diante do racismo, a postura tem que ser de tolerância zero. O chefe de governo salientou que o ódio e a xenofobia não devem ter espaço na sociedade. Já a ministra da Igualdade da Espanha, Irene Montero, repudiou o ocorrido e enfatizou a necessidade de uma lei contra o racismo no país.
O presidente Lula já tinha se manifestado no próprio domingo. Na reunião de cúpula do G7, no Japão, ao falar com a imprensa, Lula cobrou providências da Liga Espanhola e da Federação de futebol do país. O presidente da Federação Espanhola de Futebol, Luis Rubiales, também declarou repudiar o ocorrido e disse que o primeiro a reconhecer é que está havendo, sim, um problema com o racismo no futebol espanhol.
O Valência, time que enfrentou o Real Madrid no domingo, divulgou que banirá definitivamente do estádio torcedores que forem identificados como autores de insultos racistas.
Repercussão na Espanha é intensa
Na Espanha, a repercussão do episódio de racismo contra Vinicius Júnior segue intensa. Nas capas dos principais jornais do país, o assunto, que já deu o que falar, continua sendo destaque nesta terça-feira. No El País, a manchete principal diz: “Os insultos a Vinicius põem o foco na tolerância ao racismo”. A publicação diz ainda que o Ministério Público está investigando o que ocorreu na cidade de Valência, enfatizando que, de nove casos de denúncias como esta, sete foram arquivados.
O periódico El Mundo também coloca o assunto na capa da edição desta terça-feira. De acordo com o jornal, a “Espanha aplica as sanções mais leves por racismo”. O subtítulo da notícia compara as medidas tomadas aqui com as que são postas em prática em outros países. Segundo a publicação, “na Itália, se prioriza a via penal e, na Inglaterra, se penaliza mais os clubes, enquanto aqui se coloca a maior parte da responsabilidade sobre os árbitros”.
O caso também é destaque na capa do jornal esportivo Marca que traz uma página completamente preta com o texto em letras brancas. Entre outras coisas, a publicação diz que o episódio de domingo foi vergonhoso e que são obrigatórias atuações sérias e contundentes. O texto destaca ainda que “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”.
Futebol desumano
Além do incidente no estádio valenciano Mestalla, a forma como Vinicius conduziu a situação fora de campo — e como costuma lidar com ataques do tipo — foi responsável por boa parte da repercussão.
Após o jogo de domingo, o brasileiro de 22 anos não hesitou em, apesar de declarar seu amor ao país, denunciar que a imagem que se está criando da Espanha é a de um país racista.
O jogador também confrontou Javier Tebas, presidente da liga. Diante das acusações de Vinicius à direção do campeonato, no qual vem sendo vítima de racismo de maneira recorrente, Tebas declarou que La Liga está fazendo sua parte no combate a episódios do tipo e sugeriu que o jogador se informasse melhor sobre isso antes de criticar.
O brasileiro rebateu dizendo que “mais uma vez, em vez de criticar racistas, o presidente da La Liga aparece nas redes sociais para atacá-lo” e falou também que não tem interesse apenas em “sentar para discutir o racismo, o que ele quer é ação e punição para os culpados”.
Mais tarde, Vini Jr. publicou um vídeo mostrando diversos momentos em que foi vítima de racismo e disse: “O problema é gravíssimo e comunicados não funcionam mais. Me culpar para justificar atos criminosos também não. No és fútbol, és inhumano”. A publicação já conta com mais de 5 milhões de interações só no Instagram e com mais de 230 mil comentários e mensagens de apoio em diversos idiomas.
