Os Estados Unidos anunciaram na terça-feira que realizarão os maiores exercícios militares conjuntos de todos os tempos com as Filipinas no próximo mês, o que incluiria, pela primeira vez, exercícios com artilharia real no disputado Mar da China Meridional e uma defesa simulada de uma pequena ilha filipina quase 300 quilômetros ao sul de Taiwan. O anúncio veio logo após as preocupações expressas pela China sobre exercícios militares semelhantes conduzidos pelos EUA e Coreia do Sul na península coreana. Washington e Seul lançaram na segunda-feira (13) seus maiores exercícios militares conjuntos em meia década, provocando uma resposta dura da Coreia do Norte ao disparar dois mísseis em águas ao largo de sua costa leste.

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Com o aumento das tensões na Ásia-Pacífico, Marc Julienne, chefe de pesquisa da China no Centro de Estudos Asiáticos do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), deu entrevista para esclarecer a situação atual.
Foi perguntado: “A China expressou preocupação com a entrada dos EUA na Ásia/Pacífico, bem como o recente acordo negociado pela AUKUS (a aliança Austrália-Reino Unido-EUA), onde se afirma, que os EUA fornecem submarinos movidos a energia nuclear para a Austrália. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, criticou na terça-feira (14) os EUA por manterem uma “mentalidade da Guerra Fria”. Você considera a crítica válida e os EUA estão tentando “conter” a China?”.
Marc Julienne: O presidente chinês Xi Jinping e seu recém-nomeado ministro das Relações Exteriores, Qin Gang, usaram linguagem severa na semana passada em relação aos EUA, condenando-os por preservar uma “mentalidade da Guerra Fria” e, pela primeira vez, acusando-os de implantar uma ” estratégia de contenção” em relação à China. Isso é bastante novo no discurso político da China e, embora possamos ouvir ecos disso em algumas publicações americanas, a terminologia está ausente do discurso público dos EUA.
O termo “contenção” é, em si, bastante controverso porque remonta à era da Guerra Fria, cujo contexto difere completamente do nosso período atual. Não posso dizer se os EUA estão tentando “conter” a China ou não, mas podemos observar mudanças externas pontuais: por um lado, a China está tentando quebrar a atual ordem mundial e conquistar novos territórios à medida que ganha mais poder . O país está expandindo agressivamente seu poderio militar, seja na fronteira do Himalaia, no Mar da China Meridional, no Mar da China Oriental ou em relação a Taiwan. Por outro lado, os EUA procuram manter a atual ordem mundial, reforçando as suas medidas de segurança.
O que precisamos entender é que tais ações raramente são unilaterais e não dizem respeito apenas aos EUA e à China. Outros países da Ásia-Pacífico também começaram a perceber a China como uma ameaça clara e pediram aos EUA que aumentassem suas forças na região. Mesmo as Filipinas, que desde há muito mantêm uma relação bastante ambivalente com a China e os EUA, acolheram recentemente a adição de quatro bases militares americanas.

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Até que ponto os recentes envolvimentos dos EUA na Ásia-Pacífico refletem uma mudança de foco da Europa, apesar da guerra na Ucrânia? Os EUA estão deixando a Europa por conta própria para se concentrar na China?
Marc Julienne: Não vejo isso acontecendo em um futuro próximo. Os EUA têm sido o principal fornecedor de armas para a Ucrânia desde que a guerra estourou no início do ano passado e muito recentemente prometeu ajuda militar adicional à Ucrânia. Por enquanto não vejo os EUA se desvinculando da Europa. No entanto, as preocupações com uma possível retirada dos EUA da região são bastante legítimas. Os países da Europa, especialmente os do centro e do leste com territórios em disputa, não seriam capazes de se defender sozinhos no caso de uma invasão. E tais temores aumentaram desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Além disso, temos que lembrar que quando a guerra na Ucrânia estourou, muitos estavam preocupados com o caso oposto – que os EUA retirariam suas bases militares da região do Indo-Pacífico para se concentrar na Rússia e na Ucrânia. Mas esse claramente não foi o caso.
Mas é claro que não podemos excluir um cenário em que os EUA decidam concentrar todas as suas forças na Ásia para contrabalançar a China. Vimos um cenário semelhante acontecer quando os EUA retiraram suas forças do Afeganistão para redistribuí-las na região do Indo-Pacífico.
Xi Jinping, da China, prometeu “avançar no processo de reunificação” com Taiwan e não descartou a possibilidade de atingir esse objetivo pela força. A Coreia do Norte, por sua vez, lançou vários mísseis balísticos que ameaçam seu vizinho do sul. Qual será o papel da Europa se a guerra estourar na região?
Marc Julienne: [Ao contrário da crença popular], o papel da Europa pode não ser tão claro quanto parece à primeira vista. Como a guerra é impossível de prever, podemos apenas supor. No infeliz caso de a China tentar tomar Taiwan à força, a Europa procuraria primeiro a liderança dos EUA, cuja intervenção não é garantida. Os EUA mantiveram estrategicamente uma atitude ambígua nas últimas décadas sobre se forneceriam ou não apoio militar no caso de uma invasão chinesa da ilha, e a posição da Europa depende muito disso.
Se os EUA intervirem e liderarem uma coalizão com as forças japonesas e coreanas, então a Europa presumivelmente mostraria apoio ao condenar todas as mudanças unilaterais no status quo, uma posição que as Nações Unidas também compartilham. A UE provavelmente aplicará sanções à China, semelhantes às impostas à Rússia por causa da guerra na Ucrânia. Se a Europa enviaria ou não tropas, no entanto, é uma questão totalmente diferente.
Acho que talvez uma questão mais interessante seja: o que acontecerá se a Coreia do Norte invadir a Coreia do Sul? Os EUA sem dúvida interviriam, mas a China também interviria em nome da Coreia do Norte? Sendo a aliança dos dois países muito menos robusta, é possível que a China opte por desempenhar o papel de mediador em vez de se envolver em intervenção direta. E acho que isso só mostra quanto peso a China tem na ordem global.
Com informações do France24
