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Senado aprova impeachment de Santiago Peña e tira presidente do poder após crise do Ueno Bank no Paraguai

Destituição foi aprovada por unanimidade pelos 44 senadores presentes. Escândalo financeiro deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro, provocou protestos e abriu três investigações criminais envolvendo autoridades paraguaias.


O presidente do Paraguai, Santiago Peña, que também foi sócio do Ueno Bank até 2025 • Foto: Reprodução

O Paraguai vive um dos momentos mais delicados de sua história política recente. O Senado do país aprovou, nesta sexta-feira (6), por unanimidade, o impeachment do presidente Santiago Peña, em meio à crise financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições digitais do país.

A decisão recebeu 44 votos favoráveis, entre os 45 integrantes da Casa. Com a aprovação, Peña perde o mandato presidencial e deixa de ter direito à condição de senador vitalício, benefício concedido a ex-presidentes paraguaios que concluem seus mandatos ou deixam voluntariamente o cargo.

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A crise ganhou proporções nacionais depois que o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank, em 3 de novembro, após identificar graves problemas de solvência, operações financeiras consideradas irregulares e insuficiência de capital para manter as atividades da instituição.

O fechamento do banco atingiu aproximadamente 3 milhões de clientes e provocou uma onda de preocupação entre correntistas, investidores e autoridades. O episódio também colocou sob pressão o governo de Peña, que manteve vínculos empresariais com o grupo controlador da instituição até março de 2025.

O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência e concluir o mandato, previsto para agosto de 2028.

Crise bancária desencadeou queda do presidente

O caso começou a ganhar repercussão em 3 de novembro, quando o Banco Central do Paraguai determinou a intervenção no Ueno Bank após identificar que a instituição não cumpria os requisitos mínimos de solvência.

A fiscalização apontou problemas na concessão de empréstimos a empresas relacionadas ao próprio grupo financeiro, falhas na documentação de determinadas operações e deficiências na qualidade dos ativos registrados no balanço.

Segundo informações divulgadas pela agência de classificação de risco FIX SCR, o índice de solvência do banco havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação paraguaia. A instituição também identificou operações com empresas vinculadas que não haviam sido devidamente informadas ao regulador.

O Ueno Bank possuía aproximadamente 3 milhões de clientes em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos, incluindo recursos públicos e valores relacionados ao sistema previdenciário.

Com a intervenção, os clientes ficaram temporariamente impedidos de movimentar suas contas, provocando filas, reclamações e manifestações em diferentes regiões do país.

O episódio também levantou preocupações sobre a exposição de recursos públicos ao banco. Entre as acusações apresentadas por parlamentares estão possíveis transferências de aproximadamente US$ 355 milhões do fundo estatal de previdência para a instituição financeira.

As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal do presidente ou de outras autoridades.

Relação empresarial de Peña com o grupo controlador entrou no centro das acusações

Um dos principais pontos do processo de impeachment foi a ligação anterior de Santiago Peña com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.

O presidente manteve participação acionária na holding até março de 2025, quando afirma ter vendido suas ações.

A oposição argumentou que essa relação poderia representar conflito de interesses, especialmente diante das suspeitas sobre operações financeiras envolvendo empresas ligadas ao banco e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.

Os parlamentares também levantaram suspeitas de interferência política na supervisão bancária, possível utilização irregular de recursos previdenciários e tentativa de encobrir problemas financeiros da instituição.

Peña nega irregularidades. Sua defesa sustentou que não foi demonstrada participação direta do presidente nas decisões que levaram à crise do banco.

O caso também provocou questionamentos sobre a atuação do Banco Central, cujo presidente, Carlos Carvallo, deixou o cargo em meio à repercussão do escândalo.

Renúncia não impediu o avanço do impeachment

Na quinta-feira (5), diante do aumento da pressão política e das manifestações populares, Santiago Peña anunciou que deixaria a Presidência.

Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o presidente afirmou que sua decisão tinha como objetivo preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.

Ele também pediu desculpas aos clientes prejudicados pela crise financeira e declarou que sua prioridade era garantir a recuperação dos recursos pertencentes aos correntistas e a proteção do dinheiro público.

Entretanto, a renúncia não foi imediatamente aceita pelo Congresso.

Parlamentares da oposição defenderam a continuidade do impeachment, argumentando que uma saída voluntária poderia permitir que Peña obtivesse a condição de senador vitalício, com imunidade parlamentar.

A tentativa de analisar a renúncia terminou sem decisão após parlamentares governistas deixarem o plenário, provocando a perda de quórum.

Na Câmara dos Deputados, a abertura do processo de impeachment havia sido aprovada por 78 votos favoráveis. O pedido contra o vice-presidente Pedro Alliana, por sua vez, foi rejeitado.

Com isso, o processo contra Peña avançou no Senado, que decidiu manter o julgamento mesmo após o anúncio de sua saída.

Defesa questionou prazo e legalidade do julgamento

Durante a sessão desta sexta-feira, os advogados de Peña tentaram adiar o julgamento por 72 horas.

A defesa alegou que o presidente havia recebido a acusação, acompanhada de aproximadamente 300 páginas de documentos, poucas horas antes da sessão. Segundo os advogados, o prazo disponível não permitia analisar adequadamente o material e preparar uma resposta.

O pedido foi rejeitado pelo Senado por 39 votos contrários, três favoráveis e duas abstenções.

Peña não compareceu pessoalmente à sessão e foi representado pelos advogados Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro.

Os defensores questionaram a validade do procedimento, alegaram desrespeito ao direito de ampla defesa e sustentaram que a renúncia apresentada pelo presidente tornava desnecessária a continuidade do julgamento.

Os parlamentares, entretanto, deram prosseguimento à tramitação e concluíram pela destituição do chefe do Executivo.

A votação terminou com 44 votos favoráveis ao impeachment, sem votos contrários entre os senadores presentes.

Ministério Público abre investigações criminais

Além das consequências políticas, o escândalo bancário passou a ser investigado criminalmente pelo Ministério Público paraguaio.

As apurações envolvem três frentes principais: as operações financeiras do Ueno Bank, a atuação dos órgãos reguladores e a movimentação de recursos públicos para a instituição.

Segundo informações divulgadas pela Associated Press e pela Reuters, as autoridades também emitiram mandados de prisão contra oito executivos ligados ao banco. Posteriormente, os investigados se apresentaram às autoridades.

O número de pessoas formalmente acusadas relacionadas ao caso chegou a 27, segundo informações publicadas pela Deutsche Welle.

As investigações também alcançam autoridades e agentes públicos que poderão ser chamados a esclarecer como os problemas financeiros da instituição foram tratados pelos órgãos de fiscalização.

A saída de Peña do governo não encerra automaticamente essas apurações.

Vice-presidente deverá assumir o comando do país

Com a destituição de Santiago Peña, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência do Paraguai e completar o atual mandato, que termina em agosto de 2028.

A sucessão ocorre em um cenário de forte pressão sobre as instituições políticas e financeiras do país.

A crise também provocou mudanças dentro do governo. Além da saída do presidente do Banco Central, o ministro do Interior, Enrique Riera, e outros integrantes da equipe presidencial deixaram seus cargos durante o agravamento da situação.

A expectativa é que a nova administração tenha de lidar imediatamente com a recuperação da confiança no sistema bancário, a proteção dos recursos dos correntistas e o esclarecimento das denúncias envolvendo o Ueno Bank.

Protestos aumentam pressão sobre autoridades

A crise financeira provocou manifestações em Assunção, capital paraguaia. Grupos de correntistas, trabalhadores e representantes de diferentes setores passaram a cobrar explicações das autoridades e garantias de recuperação dos valores retidos.

A insatisfação também atingiu o Congresso e o governo, com manifestantes responsabilizando representantes políticos pela falta de fiscalização e pela dimensão dos prejuízos.

Segundo a Associated Press, a crise provocou manifestações de grande porte e confrontos com policiais. Também foram anunciadas mobilizações de professores, preocupados com a segurança dos recursos previdenciários.

A situação passou a ser acompanhada por investidores e governos de países vizinhos, especialmente o Brasil, diante dos possíveis reflexos econômicos e financeiros na região.

O que acontece com o dinheiro dos clientes do Ueno Bank?

Uma das principais preocupações da população paraguaia é a recuperação dos depósitos que ficaram inacessíveis após a intervenção na instituição.

O Banco Central assumiu o controle do processo de resolução bancária, enquanto as autoridades trabalham para identificar os ativos, as obrigações e os recursos disponíveis para atender aos credores.

O sistema de garantia de depósitos também passou a ser um dos principais mecanismos discutidos para proteger os correntistas.

Entretanto, a recuperação dos valores depende dos procedimentos legais e financeiros estabelecidos pelas autoridades. A existência de mecanismos de garantia não significa que todos os clientes receberão imediatamente a totalidade dos recursos.

A dimensão do problema é significativa: o Ueno Bank atendia quase metade da população paraguaia, e o bloqueio das contas atingiu milhões de pessoas.

O governo e os órgãos responsáveis terão de esclarecer os critérios de restituição, os prazos e a situação dos recursos públicos e previdenciários envolvidos na crise.

Paraguai enfrenta desafio para recuperar confiança institucional

A destituição de Santiago Peña representa um desdobramento de grande impacto para o cenário político paraguaio. O caso ultrapassou os limites de uma crise bancária e passou a envolver questionamentos sobre transparência, fiscalização financeira, possíveis conflitos de interesse e utilização de recursos públicos.

As investigações deverão esclarecer se houve irregularidades na gestão do Ueno Bank, se autoridades deixaram de adotar medidas preventivas e se recursos públicos foram movimentados de maneira incompatível com as regras do sistema financeiro.

Enquanto isso, milhões de clientes aguardam a normalização do acesso às próprias economias.

A mudança no comando do Executivo abre uma nova etapa política no Paraguai, mas não encerra os problemas que provocaram a crise. A recuperação da confiança da população dependerá da transparência das investigações, da responsabilização de eventuais envolvidos e, principalmente, da solução para os prejuízos enfrentados pelos correntistas.