Entidades brasileiras de setores afetados pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos criticaram a decisão do governo Donald Trump de manter a sobretaxa adicional de 40% sobre a maior parte dos produtos nacionais. A medida, em vigor desde julho, continua a pressionar exportadores e reduzir a competitividade do Brasil no mercado americano.
Na sexta-feira (14), Washington anunciou a retirada da tarifa geral de 10% para 238 produtos, aliviando apenas parcialmente os impactos. Dos itens contemplados, 80 são exportados pelo Brasil, mas a principal barreira — os 40% adicionais — permanece.
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Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), os produtos beneficiados representaram US$ 4,6 bilhões em exportações em 2024, cerca de 11% do total vendido aos EUA. A entidade avalia a medida como positiva, porém insuficiente, e alerta que o país segue em desvantagem frente a concorrentes que não enfrentam as mesmas restrições.

Donald trump e Lula na Malásia – 26-out-2025 – Foto: Ricardo Stuckert/PR
Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, é urgente retomar as negociações. “Países que não enfrentam essa sobretaxa terão mais vantagens que o Brasil. É fundamental um acordo para restabelecer condições adequadas de competição”, afirmou.
A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) compartilha da mesma avaliação. O presidente Flávio Roscoe classificou o recuo como “um passo importante, mas insuficiente”, lembrando que setores centrais para o estado — como carnes e café — seguem fortemente impactados.
Carne bovina: perdas nos EUA, avanço em outros mercados
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) recebeu com mais otimismo a redução parcial das tarifas, destacando que a medida devolve previsibilidade ao comércio. A taxa total sobre a carne bovina caiu de 76,4% para 66,4%, ainda bem acima dos 26,4% praticados antes do tarifaço.
Mesmo com o impacto negativo no mercado americano — estimado em perdas de cerca de US$ 700 milhões entre agosto e outubro — as exportações de carne bovina cresceram. Em outubro, o setor registrou receita de US$ 1,897 bilhão, alta de 37,4% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente por China e União Europeia.
Segundo a Abrafrigo, o acumulado dos primeiros dez meses de 2025 atingiu receita recorde de US$ 14,6 bilhões, aumento de 36% em comparação com 2024.
Café sofre mais com concorrência
Entre os setores mais afetados está o de cafés especiais. A tarifa americana sobre o produto brasileiro caiu de 50% para 40%, mas concorrentes diretos — como Colômbia e Vietnã — obtiveram reduções maiores ou isenções totais.
A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) lamentou a manutenção da tarifa elevada e alertou para uma queda de 55% nas exportações do segmento aos EUA durante os três meses de vigência das tarifas adicionais.
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo brasileiro intensificará a pressão diplomática. Na quinta-feira (13), o chanceler Mauro Vieira se reuniu em Washington com o secretário de Estado, Marco Rubio, para discutir uma proposta de pausa temporária nas tarifas.
Pressões internas nos EUA pesam mais que negociações
Especialistas apontam que as recentes flexibilizações anunciadas por Trump respondem principalmente a pressões domésticas. O professor Vinícius Rodrigues Vieira, da FAAP e FGV, avalia que o presidente norte-americano só cede “naquilo que lhe for conveniente, mantendo o discurso de vitória”.
Enquanto isso, entidades brasileiras seguem cobrando avanços rápidos, temendo que a demora em reverter as sobretaxas amplie o espaço de concorrentes em um dos mercados mais estratégicos para o país.
