
Ministro aposentado Marco Aurélio Mello (Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF)
O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello afirmou neste sábado (5) que se arrepende de ter apoiado a indicação de Alexandre de Moraes para integrar a Suprema Corte. A declaração ocorre em meio à crise institucional provocada pela divulgação de mensagens, registros de encontros e outros dados envolvendo Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
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“Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui”, afirmou Marco Aurélio em entrevista à CNN Brasil. O ex-ministro classificou como “seríssimos” os fatos que vieram à tona e disse que Moraes “vem errando a mão”.
Marco Aurélio também afirmou que a atual situação provoca perplexidade na sociedade e defendeu que o Supremo apresente esclarecimentos sobre os acontecimentos.
“Precisamos dar uma satisfação à sociedade, que está atônita e perplexa com os últimos acontecimentos, que eu também estou”, declarou.
Relatório da PF expôs mensagens e encontros
A crise ganhou força depois que o ministro André Mendonça determinou o levantamento do sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro.
O material registra contatos e encontros entre o empresário e autoridades. Entre os nomes citados estão Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Segundo informações divulgadas sobre o relatório, Vorcaro teria buscado interlocução com autoridades enquanto enfrentava problemas relacionados ao Banco Master e às investigações conduzidas pela Polícia Federal. Há registros de encontros entre o empresário e Moraes, inclusive um jantar realizado em fevereiro de 2024, com a presença das respectivas esposas.
A existência dos encontros, entretanto, não comprova por si só qualquer irregularidade ou favorecimento. As circunstâncias e o conteúdo dos contatos são justamente parte da controvérsia que está sendo analisada pelas instituições.
Contrato de R$ 131 milhões também entrou no caso
Outro ponto que ganhou destaque foi a existência de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
Segundo informações divulgadas a partir do material apreendido pela PF, Moraes chegou a editar o documento em seu computador. O escritório afirmou que a consulta ao ministro ocorreu para verificar eventual conflito de interesses e sustentou que não havia impedimento legal, uma vez que Moraes não teria julgado processos relacionados ao Banco Master.
A informação passou a integrar o debate público sobre a relação entre o ministro, sua família e o empresário investigado.
Moraes contesta as acusações
Moraes não reconheceu como suas algumas das mensagens atribuídas a ele e, segundo informações divulgadas anteriormente, sua assessoria negou que determinados contatos identificados no celular de Vorcaro pertencessem ao ministro. O magistrado também classificou as acusações como falsas e afirmou que a divulgação do material representa uma tentativa de atacar o Supremo.
Até o momento, não há comprovação pública de que Moraes tenha atendido a pedidos feitos por Vorcaro ou interferido ilegalmente em investigações para beneficiar o empresário.
Mendonça e Moraes entram em rota de colisão
A divulgação do relatório aumentou a tensão entre Moraes e André Mendonça.
Mendonça foi responsável por tornar públicos os documentos relacionados às mensagens de Vorcaro e determinou providências para esclarecer as citações a autoridades. Moraes, por sua vez, questionou a atuação do colega e houve movimentação para investigar a conduta de Mendonça.
O episódio provocou uma das maiores crises recentes dentro do STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, passou a atuar para administrar o conflito entre os ministros.
A crise também ultrapassou os limites do Supremo e atingiu a relação entre a Corte, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
PGR questiona relatório da Polícia Federal
A Procuradoria-Geral da República questionou a forma como o relatório foi produzido e pediu a sua nulidade. Paulo Gonet argumenta que a investigação envolvendo autoridades com foro no STF não poderia ter avançado daquela maneira sem a participação adequada do Ministério Público.
A situação gerou uma reação da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), que pediu que Gonet se declare impedido de atuar em procedimentos nos quais seu próprio nome aparece.
Assim, o caso passou a envolver uma disputa institucional entre diferentes órgãos, com questionamentos sobre competência, procedimentos de investigação e limites de atuação de ministros do STF.
Marco Aurélio defende Mendonça
Na entrevista, Marco Aurélio Mello saiu em defesa de André Mendonça e afirmou que o ministro agiu corretamente ao encaminhar as informações à PGR.
Para o ex-ministro, os acontecimentos representam uma “inversão de valores” e exigem uma resposta institucional.
A avaliação de Marco Aurélio ocorre em um momento de forte pressão sobre o Supremo. Juristas ouvidos pela imprensa apresentam interpretações diferentes sobre a atuação de Moraes e Mendonça, enquanto o episódio alimenta um debate mais amplo sobre os limites da atuação individual de ministros da Corte.
Caso amplia pressão por transparência
A crise envolvendo Moraes, Vorcaro e Mendonça ganhou dimensão política e institucional e passou a ser explorada por diferentes grupos políticos.
Ao mesmo tempo, autoridades e especialistas têm defendido que as informações sejam analisadas dentro do devido processo legal, evitando que mensagens, encontros ou suspeitas sejam tratados como prova definitiva de crimes antes da conclusão das apurações.
O caso ainda está em andamento e deve provocar novos desdobramentos no STF, na PGR e na Polícia Federal nos próximos dias.
Para Marco Aurélio Mello, entretanto, o episódio já exige uma resposta pública da Suprema Corte.
“É preciso dar uma satisfação à sociedade”, afirmou o ministro aposentado.
