
Bandeiras de campanha comercializadas nas ruas de Brasília de Flávio Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva, em 29 de setembro de 2026 – Foto:Eraldo Peres/AP
A reta final das eleições presidenciais brasileiras de 2026 vem sendo acompanhada pela imprensa francesa com atenção às mudanças sociais e culturais que atravessam o eleitorado. Reportagens de veículos como Libération, Le Monde e La Croix destacam três temas recorrentes na disputa: a dificuldade da esquerda em se adaptar às transformações da sociedade, a centralidade da segurança pública e o peso crescente da religião no debate político.
Em entrevista ao Libération, o cientista político brasileiro Miguel Lago relaciona a crise enfrentada pela esquerda latino-americana a transformações que vão além da economia e do desempenho dos governos. Entre os fatores citados estão o avanço do individualismo, das igrejas evangélicas, das redes sociais e de discursos baseados na meritocracia.
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Segundo a análise apresentada pelo pesquisador, essas mudanças contribuíram para enfraquecer a identificação de parte da população com projetos políticos coletivos. No Brasil, ele também aponta a permanência do bolsonarismo como uma força política com capacidade de mobilização popular, especialmente por meio de discursos associados à autoridade e à segurança pública.
Outro ponto levantado por Lago é a dificuldade do campo progressista em formar novas lideranças. Na avaliação do cientista político, o Partido dos Trabalhadores continua fortemente associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que cria desafios para a construção de uma representação política para o período posterior à liderança do atual presidente.
Segurança pública ganha espaço na campanha
A segurança pública aparece como outro eixo importante das análises da imprensa francesa. O Le Monde chama atenção para o crescimento da presença de policiais e militares na política brasileira.
Levantamentos realizados a partir dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que 1.229 candidatos ligados às forças policiais, às Forças Armadas e aos corpos de bombeiros disputam as eleições de 2026. O grupo corresponde a cerca de 6% das candidaturas contabilizadas no levantamento. Em 2022, eram 1.963 candidatos com esse perfil.
A maior parcela em 2026 é formada por policiais militares, que representam 46,14% desse conjunto. Policiais civis correspondem a 9,76%, enquanto bombeiros militares e militares reformados aparecem, cada um, com 7,49%.
Os dados mostram que a presença de integrantes das forças de segurança na política continua significativa, embora o número absoluto de candidaturas tenha diminuído em relação a 2022. O levantamento do Nexo também identificou concentração dessas candidaturas em partidos de direita, enquanto legendas de esquerda apresentam proporções menores.
A segurança ganhou ainda mais relevância na reta final da eleição diante da preocupação com o crime organizado e a violência urbana. O tema também aparece nas ações preparatórias para o próprio pleito: a Justiça Eleitoral aprovou o envio de tropas federais para municípios de Tocantins, Piauí, Ceará, Acre e Rio de Janeiro para reforçar a segurança durante o primeiro turno.
Mudança no perfil religioso do eleitorado
A dimensão religiosa da eleição também é apontada pela imprensa francesa como um componente importante da disputa.
Dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam católicos, enquanto 26,9% se declaravam evangélicos. Em 2010, os percentuais eram de 65% e 21,7%, respectivamente. O levantamento também registrou crescimento da parcela da população que se declara sem religião.
A transformação do perfil religioso ajuda a explicar por que símbolos e pautas relacionadas à fé ganharam espaço na campanha presidencial.
Um dos episódios mais recentes foi a circulação de uma informação falsa segundo a qual o candidato Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Checagens realizadas pelo Projeto Comprova concluíram que a alegação não tinha fundamento: o projeto mencionado nas publicações havia sido apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli e arquivado no ano seguinte, sem relação com Flávio Bolsonaro.
A controvérsia, entretanto, ganhou dimensão política e chegou ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal, envolvendo decisões sobre a retirada ou manutenção de conteúdos publicados nas redes sociais. O episódio passou a integrar o debate sobre desinformação, liberdade de expressão e uso de símbolos religiosos durante a campanha.
Religião entra no centro da disputa eleitoral
A discussão também evidencia a importância eleitoral dos diferentes grupos religiosos. A campanha dos candidatos tem buscado dialogar tanto com católicos quanto com evangélicos, segmentos que possuem peso expressivo no eleitorado brasileiro.
O Censo do IBGE registra uma mudança gradual nessa composição: entre 2010 e 2022, a proporção de católicos caiu 8,3 pontos percentuais, enquanto a participação dos evangélicos cresceu 5,2 pontos.
Nesse cenário, episódios envolvendo Nossa Senhora Aparecida, igrejas evangélicas e declarações de candidatos passaram a ocupar espaço relevante nas redes sociais e no debate eleitoral.
Eleição acontece neste domingo
O primeiro turno das eleições gerais de 2026 será realizado neste domingo, 4 de outubro. Os eleitores escolherão presidente da República, governadores, dois senadores por estado e no Distrito Federal, além de deputados federais, estaduais e distritais. Um eventual segundo turno para presidente e governador está marcado para 25 de outubro.
A cobertura da imprensa francesa, portanto, apresenta a eleição brasileira não apenas como uma disputa entre candidatos, mas como um reflexo de transformações mais amplas na sociedade: mudanças na composição religiosa da população, preocupação com a violência, fortalecimento de grupos ligados às forças de segurança e dificuldade dos partidos tradicionais em renovar suas lideranças.
As interpretações sobre esses fenômenos, contudo, variam entre pesquisadores e veículos de imprensa. Os dados disponíveis permitem identificar mudanças no perfil do eleitorado e das candidaturas, mas não determinam, por si só, como esses fatores influenciarão o resultado das urnas.
As informações adicionais foram cruzadas com dados do IBGE, TSE/levantamentos baseados em registros eleitorais, Agência Brasil e checagens do Projeto Comprova, além das referências à imprensa francesa.
