Política

Brasília

Câmara reincorpora votação secreta na PEC da Imunidade e texto segue para o senado

Com 314 votos a favor e 168 contrários, deputados aprovaram a medida que permite votação secreta para processos criminais contra parlamentares e ampliam foro privilegiado para presidentes de partidos.


Deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) presidiu sessão desta quarta-feira (17) na Câmara. (Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados)

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (17), a reincorporação da votação secreta na PEC da Imunidade, após ela ter sido retirada do texto principal na terça-feira (16). A medida, que possibilita que processos criminais contra parlamentares sejam decididos por votação secreta nas duas Casas do Congresso, foi reconduzida à pauta com a autorização do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A votação contou com 314 deputados a favor e 168 contra, e agora segue para análise do Senado.

Além da votação secreta, os parlamentares também aprovaram a inclusão de presidentes de partidos políticos no foro privilegiado, o que garante a essas autoridades o direito de serem julgadas diretamente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em casos criminais, sem a necessidade de passar pela Justiça comum de primeira instância.

Continua depois da Publicidade

O relator da PEC 3/21, deputado Claudio Cajado (PP-BA), justificou a reincorporação da votação secreta, alegando que a decisão de terça-feira (16) não refletiu a opinião ampla do Plenário, já que muitos deputados estavam ausentes ou dormindo devido ao horário avançado. “Essa votação não representou o amplo posicionamento do Plenário, pois transcorreu após a meia-noite. Muitos deputados me procuraram dizendo que estavam dormindo”, explicou Cajado.

Mudanças na PEC 3/21

A emenda que altera a PEC 3/21 estabelece que, para manter a prisão em flagrante de parlamentares, é necessário o aval da maioria absoluta da Casa Legislativa, em decisão rápida. A emenda também limita a atuação da Justiça de primeira instância, proibindo o bloqueio de bens de deputados ou senadores em exercício de mandato, sendo o Supremo Tribunal Federal o único órgão autorizado a tomar medidas cautelares durante o mandato.

Outro ponto da emenda prevê o foro privilegiado para presidentes de partidos com representação no Congresso, como Valdemar Costa Neto, Antonio Rueda, Edinho Silva e Carlos Lupi, que enfrentam processos na primeira instância por não terem mandato parlamentar.

Votação Secreta

A proposta de votação secreta na PEC da Imunidade prevê dois cenários específicos para parlamentares. O primeiro diz respeito à autorização do STF para processar criminalmente um deputado ou senador. Nesse caso, a respectiva Casa Legislativa deverá votar secretamente em até 90 dias. O segundo cenário envolve a prisão em flagrante de parlamentares por crimes inafiançáveis, em que os autos serão encaminhados à Casa Legislativa, que decidirá, por votação secreta, sobre a manutenção da prisão e a autorização para formação de culpa.

O relator Claudio Cajado argumenta que a votação secreta é necessária para proteger os parlamentares de pressões externas, permitindo que tomem decisões com base em suas convicções sobre o andamento de ações penais contra colegas.

Reação do PT

A aprovação da reincorporação da votação secreta gerou uma reação crítica por parte do Partido dos Trabalhadores (PT). Parlamentares da legenda expressaram preocupação com o impacto da medida sobre a transparência das decisões legislativas. Para o líder da bancada, o deputado Zeca Dirceu (PT-PR), a votação secreta pode enfraquecer a confiança da população no Congresso, além de permitir que interesses escusos prevaleçam sobre o debate público.

Zeca Dirceu diz que PEC da Blindagem não prosperaria no Senado, nem no STF – Foto: Reprodução

“Essa votação secreta é um retrocesso. Ao invés de fortalecer a transparência, ela cria um ambiente onde decisões cruciais podem ser tomadas sem a devida fiscalização da sociedade”, afirmou Dirceu, que também ressaltou que a medida favorece a impunidade, ao permitir que parlamentares decidam sobre o andamento de processos criminais contra si mesmos.

A posição do PT reflete uma preocupação central do partido sobre a credibilidade das instituições políticas. Para a legenda, a votação aberta seria uma maneira de garantir mais responsabilidade e alinhamento com os princípios democráticos, sem dar margem a decisões tomadas sob pressão ou influência de interesses particulares.

Com a aprovação da PEC, o texto agora segue para o Senado, onde será analisado e poderá passar por novos ajustes antes de ser aprovado em definitivo.

O que é a PEC da Blindagem

  • É uma Proposta de Emenda à Constituição que altera regras de imunidade parlamentar — ou seja, muda quando e como deputados e senadores podem ser processados criminalmente, presos em flagrante, etc.

  • Foi aprovada em dois turnos na Câmara. Agora, segue para o Senado, onde também precisará ser votada em dois turnos.

Principais mudanças previstas

Aqui estão os pontos mais relevantes do texto que passou na Câmara:

Aspecto Como é hoje / antes Como ficará com a PEC da Blindagem
Processo criminal contra parlamentares Deputados ou senadores podem ser processados criminalmente, inclusive por decisões do STF, dependendo do caso. Somente poderão ser processados criminalmente com autorização prévia da respectiva Casa Legislativa (Câmara ou Senado), em votação de maioria absoluta.
Prisão em flagrante Se cometem crime em flagrante, em geral há possibilidade de prisão imediata, mesmo sem autorização da Casa. Ficará limitada a casos de crimes inafiançáveis (aqueles que a lei não permite fiança).
Medidas cautelares (como prisão preventiva, afastamentos etc.) O STF pode determinar essas medidas conforme o entendimento atual, inclusive em decisões monocráticas. Só poderão ser aplicadas pelo STF, mas com novas restrições. O texto limita essas medidas cautelares.
Foro privilegiado ampliado Hoje, o foro especial é para parlamentares em certas situações, normalmente vinculadas ao mandato. Passariam a ter foro no STF também os presidentes nacionais de partidos com representação no Congresso, mesmo que não tenham mandato eletivo.
Voto secreto Votações importantes — como autorizações para processar parlamentares — costumam ser ao menos nominal. O texto aprovado originalmente previa voto secreto para autorizações de processos contra parlamentares; no entanto, um destaque foi aprovado que suprime o voto secreto nessa parte. Portanto, a votação será pública.

O que não muda (ou permanece incerto)

  • A PEC ainda não está em vigor — precisa passar pelo Senado, também em dois turnos, e ser promulgada. Até lá, pode haver mudanças no texto.

  • Nem todos os destaques foram votados ou aprovados — algumas partes podem ser alteradas ou retiradas durante esse processo no Senado.

Possíveis impactos

  • Poderá dificultar investigações criminais contra parlamentares, especialmente em casos menos graves; estará em vigor um crivo legislativo maior para esses processos.

  • Pode gerar mais impunidade ou percepção disso, principalmente se a Casa Legislativa (Câmara ou Senado) recusar autorizações para processos ou prisões.

  • Poderá reforçar o poder de líderes partidários e o controle político sobre quem será investigado ou processado.

  • Questionamentos jurídicos: advogados, Ministério Público, e o STF poderão argumentar sobre vícios de constitucionalidade, sobre a separação de poderes, sobre princípios de igualdade — pode haver ações judiciais contestando partes da PEC.