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PF investiga três tentativas de negócios de até R$ 1,6 bilhão envolvendo Lulinha e Ministério da Saúde

Propostas incluíam venda de medicamentos à base de cannabis, testes para dengue e parcerias com laboratório público de Goiás; nenhuma das negociações resultou em contrato.


A investigação da Polícia Federal que apura a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), identificou três frentes de negócios que buscavam avançar junto ao Ministério da Saúde. As propostas envolviam medicamentos à base de cannabis, testes rápidos para dengue e outras arboviroses e possíveis parcerias com a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).

Duas das negociações tinham valores estimados: uma proposta de fornecimento de medicamentos à base de cannabis previa aproximadamente R$ 627 milhões, enquanto a operação envolvendo testes diagnósticos poderia chegar a cerca de R$ 1 bilhão. Somadas, as cifras alcançariam aproximadamente R$ 1,6 bilhão.

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Os valores, contudo, correspondem a propostas e negociações que não foram concluídas. Não houve assinatura dos contratos nem desembolso de R$ 1,6 bilhão pelo governo federal. A existência das tratativas também não significa, por si só, que os envolvidos tenham cometido crimes.

As informações foram divulgadas nesta terça-feira (25) a partir de documentos analisados pela Polícia Federal e reportagens da imprensa. A apuração integra uma investigação mais ampla sobre possíveis tentativas de intermediar interesses privados junto à administração federal.

Projeto de cannabis previa R$ 627 milhões

Uma das frentes investigadas envolvia a tentativa de fornecer medicamentos à base de cannabis ao Ministério da Saúde. A proposta previa o fornecimento de aproximadamente 1,2 milhão de frascos por ano, por meio de quatro empresas, entre elas a WorldCann, ligada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

Segundo os documentos analisados na investigação, o negócio poderia alcançar R$ 627 milhões. A ideia era que o Ministério da Saúde centralizasse a aquisição dos medicamentos destinados a pacientes que obtivessem decisões judiciais garantindo acesso ao tratamento.

Roberta Luchsinger, empresária investigada no caso, teria sido contratada por Antunes para auxiliar na aproximação com integrantes do governo. Ela recebeu R$ 1,5 milhão em cinco parcelas de R$ 300 mil, segundo as apurações. Mensagens também indicariam discussões sobre uma eventual comissão de 20% relacionada à negociação.

A proposta não avançou. O Ministério da Saúde já havia informado que o canabidiol não está incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e que a pasta não compra nem fornece o produto de forma regular na rede pública.

Documento chegou ao gabinete presidencial

As tratativas também chegaram ao Palácio do Planalto. De acordo com os documentos da investigação, Roberta Luchsinger enviou por WhatsApp ao então chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, um modelo de contrato relacionado ao fornecimento dos medicamentos.

O documento mencionava a possibilidade de contratação por dispensa de licitação. Ribeiro confirmou ter recebido o material, mas afirmou que não o encaminhou ao Ministério da Saúde nem a outro integrante do governo.

A PF também analisa mensagens nas quais Roberta teria afirmado atuar em nome de Lulinha durante negociações. A defesa do filho do presidente nega que ele tenha participado dos negócios conduzidos pela empresária e contesta qualquer irregularidade.

Outra negociação poderia chegar a R$ 1 bilhão

A segunda frente identificada pelos investigadores envolvia a venda de testes rápidos para diagnóstico de dengue e outras arboviroses.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, a negociação poderia alcançar aproximadamente R$ 1 bilhão e envolveria uma importadora sediada em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

Também nesse caso, o negócio não foi concretizado. Portanto, o valor de R$ 1 bilhão representa uma estimativa associada à proposta, e não uma despesa efetivamente realizada pelo Ministério da Saúde.

Iquego aparece em terceira frente

A terceira negociação investigada envolvia a Iquego, laboratório público vinculado ao governo de Goiás.

Mensagens analisadas pela PF apontam tratativas para buscar a aprovação do Ministério da Saúde para parcerias produtivas envolvendo a empresa estatal. Os documentos divulgados até agora não detalham todos os produtos que seriam contemplados.

As propostas relacionadas às tratativas não avançaram após análise técnica do Ministério da Saúde. A Iquego, por sua vez, nega irregularidades e informou ter adotado medidas internas para apurar as circunstâncias das negociações.

Investigação mira possível tráfico de influência

O caso faz parte de uma investigação mais ampla da Polícia Federal sobre possíveis articulações para facilitar o acesso de interesses privados a órgãos do governo.

Lulinha é investigado em três inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência. Um deles examina justamente possíveis relações com a WorldCann e a tentativa de viabilizar negócios envolvendo medicamentos à base de cannabis. Outros procedimentos investigam possíveis articulações relacionadas à Dataprev e a outras suspeitas de influência junto à administração pública.

Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de investigação envolvendo Lulinha. A Polícia Federal apura se ele teria usado sua proximidade com o presidente para facilitar o acesso de empresários ao Ministério da Saúde. A defesa afirmou que não havia sido formalmente comunicada da investigação e classificou as suspeitas como politicamente motivadas.

Mais recentemente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que o caso fosse enviado à primeira instância da Justiça. O argumento é que não haveria, até o momento, autoridade com foro privilegiado diretamente envolvida nos fatos investigados. A defesa de Lulinha também apoia a transferência do processo.

Viagens e relações com investigados também estão sob análise

As investigações também examinam a relação entre Lulinha, Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes. Documentos da PF apontam que os três estiveram juntos em viagens internacionais em diferentes ocasiões, incluindo deslocamentos para Lisboa e Madri.

A proximidade entre os envolvidos ganhou relevância nas apurações sobre possíveis negócios com o governo. Roberta, que é investigada por suposta atuação como lobista, também prestou depoimento à PF e negou ter realizado repasses ilícitos.

Em agosto, a imprensa também revelou mensagens que indicariam uma atuação de Lulinha na intermediação de uma reunião entre o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e integrantes do Palácio do Planalto. A defesa do empresário critica a divulgação seletiva de informações e nega irregularidades.

Defesa nega irregularidades

A defesa de Lulinha afirma que ele não participou dos negócios atribuídos a Roberta Luchsinger e que não recebeu valores relacionados às propostas investigadas. Os advogados também questionam a divulgação de informações ainda sob investigação e sustentam que não há demonstração de que contratos tenham sido efetivamente celebrados.

O caso permanece em fase de investigação. Até o momento, as três iniciativas relacionadas ao Ministério da Saúde não resultaram em contratos, pagamentos ou desembolsos públicos nos valores mencionados nas propostas.

Assim, os cerca de R$ 1,6 bilhão citados nas investigações representam o potencial financeiro de duas negociações distintas — R$ 627 milhões no projeto de medicamentos à base de cannabis e aproximadamente R$ 1 bilhão na proposta de testes — e não recursos efetivamente desviados ou pagos pelo governo.