Justiça

Crime Organizado

PCC expande atividades: Império bilionário em 15 setores da economia formal

Megaoperação revela infiltração do Primeiro Comando da Capital em diversos segmentos econômicos, desde postos de gasolina até fintechs, e alerta para o impacto no mercado legal.


A trajetória de crescimento do PCC vem de longa data: partiu de um presídio e atravessou fronteiras. O bando que hoje domina o crime no Brasil e atua na América do Sul, Europa e África foi fundado por apenas oito presos no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no Vale do Paraíba, em 31 de agosto de 1993 – Foto: Arquivo

Em uma operação de grande escala que envolveu a Polícia Federal, Receita Federal e o Ministério Público, foi revelado o controle do Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre um império de negócios legais em diversos setores da economia brasileira. De postos de gasolina a empresas de construção civil, o grupo criminoso se infiltra de maneira eficiente e camuflada, gerando lucros tanto com atividades ilícitas quanto com atividades comerciais legítimas.

A facção, que já operava no tráfico de drogas, agora gerencia atividades em ao menos 15 setores da economia formal, com o objetivo de lavar dinheiro e gerar lucros a partir de empreendimentos que, à primeira vista, parecem totalmente legítimos. Entre os setores mais impactados, estão: postos de gasolina, agências de automóveis, imobiliárias, empresas de construção, fintechs, e até igrejas. A recente megaoperação, que expôs esses vínculos, revelou fraudes e adulterações, como a adulteração de combustíveis, um esquema que gerava enormes lucros para o PCC.

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O promotor Lincoln Gakiya, conhecido por sua atuação contra o PCC, destacou em evento na USP que, hoje, as empresas administradas pela facção não são mais meras “empresas de fachada”. Elas operam de forma legítima, prestando serviços e, em muitos casos, sendo até bem avaliadas no mercado. A infiltração no mercado financeiro, com o uso de fintechs e fundos de investimento, marca uma evolução na organização criminosa, que busca formas cada vez mais sofisticadas de movimentar e expandir seu capital ilícito.

A cooperação internacional também está se intensificando no combate a essas organizações transnacionais. O Ministério Público de São Paulo firmou um acordo com a Procuradoria Nacional Antimáfia e Antiterrorismo da Itália para compartilhar informações e estratégias no combate ao crime organizado, reforçando a luta contra a globalização das facções criminosas.

O fenômeno da infiltração do PCC no setor econômico legítimo coloca em alerta consumidores e autoridades, que agora enfrentam uma complexa rede de interesses que vai muito além das atividades criminosas tradicionais.

Setores com infiltração do PCC

A facção criminosa realiza a lavagem de dinheiro estruturada, de acordo com o MP-SP, nos seguintes ramos da economia formal:

  • Postos de gasolina
  • Agências de automóveis
  • Imóveis
  • Empresas de construção civil
  • Casas de câmbio no Paraguai
  • Bancos digitais, fintechs e fundos de investimento privados
  • Bitcoins 
  • Empresas de ônibus no setor de transporte público metropolitano
  • Igrejas
  • Mineração ilegal
  • Organizações sociais de saúde pública, limpeza urbana, coleta de lixo e mais
  • Empresas de apostas e jogos de azar (bets)
  • Empresas ligadas ao futebol
  • Frotas de caminhões de transporte*
  • Terminais portuários*

Colaboração internacional

Durante o seminário na USP, foi anunciado um passo importante no Brasil para o combate ao crime organizado transnacional. O MP-SP e a Procuradoria Nacional Antimáfia e Antiterrorismo da Itália (DNA) formalizaram um Acordo de Cooperação Técnica para o compartilhamento de dados e informações, intercâmbio de experiências e capacitação de membros e funcionários, com o objetivo de prevenir e reprimir organizações criminosas.

A iniciativa é inédita. Os acordos diretos, sem intermediação ou participação dos governos dos países envolvidos, surgem no âmbito da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, também conhecida como Convenção de Palermo, e seus protocolos adicionais, que promovem a cooperação direta entre as autoridades competentes, o intercâmbio de informações, a criação de equipes conjuntas de investigação e a capacitação de funcionários e agentes públicos como instrumentos fundamentais no combate ao crime organizado internacional.