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Coari: duas décadas de poder, investigações e uma pergunta sobre a máquina política de Adail Pinheiro

Da Operação Vorax à Dinastia do Lago, o grupo político ligado a Adail Pinheiro atravessou diferentes crises e permaneceu no centro do poder de Coari; agora, uma nova investigação federal volta a colocar contratos públicos, dinheiro e relações políticas sob escrutínio.


Foto: Reprodução

Uma passeata realizada nesta sexta-feira (18) em defesa do prefeito afastado Adail Pinheiro e de seu filho, o deputado federal Adail Filho, colocou novamente nas ruas de Coari uma demonstração pública de força de um grupo político que há décadas ocupa espaço central na política do município.

A manifestação aconteceu apenas dois dias depois da deflagração da Operação Dinastia do Lago, da Polícia Federal, que investiga possíveis fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro relacionados à administração municipal.

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A operação, deflagrada em 16 de setembro, cumpriu 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari por determinação do Supremo Tribunal Federal. A investigação começou após a apreensão de aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie transportados por três empresários em um voo entre Manaus e Brasília, em maio de 2025. Segundo a PF, há indícios de possível atuação coordenada entre empresários, agentes públicos e terceiros para direcionamento de licitações, desvio de recursos e movimentações financeiras destinadas ao pagamento de vantagens indevidas e à ocultação da origem e dos destinatários dos valores.

A PF apreendeu aproximadamente R$ 990,5 mil em dinheiro durante a operação, além de US$ 10 mil, € 1.255 e 21 veículos. Os valores são preliminares, segundo a própria corporação.

O prefeito foi afastado do cargo por determinação judicial.

Mas a história que agora volta ao centro do debate não começou em 2026.

Ela remonta a pelo menos duas décadas.

A Vorax e o primeiro grande terremoto

Em 2004, o Ministério Público Federal encaminhou à Polícia Federal uma representação relatando possíveis irregularidades na execução de um convênio entre a Prefeitura de Coari e a União para construção de um aterro sanitário.

Quatro anos depois, em 2008, a investigação desembocou na Operação Vorax.

Segundo o MPF, a operação revelou um esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos no município. O órgão afirma que empresas de fachada e pessoas utilizadas como “laranjas” eram empregadas para simular concorrência e garantir que integrantes do grupo investigado vencessem contratos.

De acordo com a descrição feita pelo MPF, em alguns casos o serviço ou produto sequer teria sido entregue; em outros, haveria superfaturamento, com parte dos valores desviada.

A dimensão financeira apontada na investigação foi expressiva.

Um exame amostral da Controladoria-Geral da União identificou, segundo o MPF, prejuízo superior a R$ 3,1 milhões em recursos federais repassados ao município e outros R$ 3,8 milhões relacionados a royalties.

Outra perícia apontou diferença de aproximadamente R$ 5,5 milhões entre valores retirados das contas municipais e a prestação de contas referente ao exercício de 2001, além de aplicação irregular de quase R$ 2,8 milhões provenientes de royalties.

Durante a operação, a Polícia Federal apreendeu aproximadamente R$ 7 milhões em dinheiro escondidos no forro de uma casa em um conjunto habitacional construído pela Prefeitura de Coari, segundo o MPF.

O irmão do prefeito entre os condenados

O capítulo judicial da Vorax produziu condenações.

Segundo o MPF, uma ação penal resultou na condenação de 20 envolvidos no esquema.

Entre eles estava Carlos Eduardo do Amaral Pinheiro, irmão de Adail Pinheiro.

Segundo o MPF, Carlos Eduardo recebeu a maior pena entre os condenados naquela sentença: 41 anos e quatro meses de prisão, além de multa. O órgão afirmou que ele era apontado como um dos principais articuladores e beneficiários do esquema, atuando, entre outras formas, por meio de empresas em nome de terceiros.

Outros integrantes também receberam penas elevadas, entre eles empresários e ex-integrantes da administração municipal.

É importante fazer uma distinção: a condenação de terceiros não pode ser apresentada como condenação de Adail Pinheiro.

O próprio MPF informa que o processo relativo à suposta participação do então prefeito foi desmembrado depois que ele voltou ao cargo em 2012 e passou a ter foro por prerrogativa de função. Posteriormente, com a cassação de seu mandato em dezembro de 2014, a Justiça Federal voltou a discutir a competência para o processo.

Ou seja: o histórico judicial precisa ser contado sem transformar automaticamente a situação processual do irmão ou de outros condenados na situação jurídica de Adail.

2014: cassação e uma nova ruptura

A trajetória política de Adail Pinheiro também sofreu uma ruptura eleitoral.

Documento do Tribunal Regional Federal da 1ª Região registra que o registro de candidatura de Adail para o cargo de prefeito de Coari havia sido cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Com isso, o processo que tramitava no TRF1 por causa do foro passou a ser encaminhado para a Justiça Federal do Amazonas.

A cassação não eliminou, contudo, a presença política do grupo.

A família permaneceu inserida na política municipal e, posteriormente, Adail Pinheiro retornaria à Prefeitura.

A política como patrimônio familiar

É nesse ponto que a história de Coari ganha uma característica que vai além dos processos criminais.

Ao longo dos anos, diferentes integrantes da família Pinheiro ocuparam cargos públicos e posições de influência.

Adail Pinheiro voltou ao comando da Prefeitura. Adail Filho chegou à Câmara dos Deputados.

A estrutura política, portanto, não desapareceu diante das crises.

Ao contrário: reorganizou-se.

É justamente essa capacidade de sobrevivência que ajuda a explicar por que a passeata desta semana tem relevância política.

Não se trata apenas de uma manifestação em defesa de um prefeito afastado.

É uma demonstração de que existe uma base social disposta a sair às ruas em defesa de um grupo que voltou a ser colocado sob investigação federal.

O poder que não aparece apenas na urna

Em cidades onde a Prefeitura possui enorme peso econômico, o poder de um prefeito não se limita ao gabinete.

Ele alcança contratos, empregos, fornecedores, serviços, obras, programas públicos e relações com comunidades.

Isso cria uma questão que merece investigação própria: quanto do apoio político de um grupo nasce da identificação ideológica ou pessoal e quanto pode estar relacionado à dependência econômica criada pela própria máquina pública?

A pergunta não significa afirmar que os participantes da passeata receberam dinheiro ou benefícios para participar.

Não há, nas informações atualmente disponíveis, prova que permita fazer essa afirmação.

Mas o mecanismo merece ser investigado.

Quando uma família depende de um emprego público, de um contrato, de um auxílio ou da intermediação de uma autoridade para resolver uma necessidade, a relação com o político pode deixar de ser simplesmente eleitoral.

Pode se tornar uma relação de dependência.

Auxílio público ou favor pessoal?

Essa distinção é fundamental.

Um benefício social concedido segundo critérios objetivos é uma política pública.

Um contrato obtido por meio de procedimento regular é uma contratação pública.

Um emprego preenchido segundo as regras aplicáveis é um ato administrativo.

A situação muda quando esses instrumentos são utilizados como moeda de troca para produzir fidelidade política.

Nesse caso, a pergunta deixa de ser “quem recebeu?” e passa a ser:

por que recebeu, quem decidiu, quais critérios foram utilizados e o que foi exigido em troca?

Se houver prova de que recursos públicos, cargos ou vantagens foram utilizados para comprar apoio político, pressionar adversários ou exigir subserviência, o caso ultrapassaria a esfera da simples disputa eleitoral.

Mas essa conclusão precisa ser construída com evidências.

Não é possível atribuí-la à passeata apenas porque houve manifestação de apoio.

A nova investigação volta aos contratos

É nesse cenário que a Operação Dinastia do Lago ganha dimensão especial.

A investigação atual volta exatamente ao ponto que esteve no centro da Vorax: a relação entre poder político, contratos públicos e dinheiro.

Segundo a Polícia Federal, a investigação atual busca esclarecer possíveis fraudes licitatórias, desvio de recursos, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.

A CGU informou que participou da análise de informações sobre pessoas físicas e jurídicas investigadas, licitações, contratações públicas e origem dos recursos empregados nos pagamentos examinados.

A investigação teria começado depois que três empresários foram encontrados transportando aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie em um voo entre Manaus e Brasília.

A partir daí, investigadores passaram a examinar relações financeiras e contratações públicas ligadas ao município.

Quase R$ 1 milhão apreendido

Na operação de setembro de 2026, a Polícia Federal informou a apreensão de aproximadamente:

  • R$ 990,5 mil em espécie;

  • US$ 10 mil;

  • € 1.255;

  • 21 veículos.

Dos R$ 990,5 mil, cerca de R$ 637,75 mil foram encontrados em Coari e R$ 352,75 mil em Manaus.

Os números ainda são preliminares.

A existência de dinheiro em espécie ou de bens apreendidos também não estabelece, por si só, a origem ilícita dos valores. Essa é uma das questões que a investigação precisa esclarecer.

Duas operações, duas décadas, a mesma pergunta

A Vorax e a Dinastia do Lago estão separadas por aproximadamente 18 anos.

São investigações diferentes, realizadas em contextos distintos e que não podem ser tratadas como se fossem um único processo.

Mas existe um ponto em comum que chama atenção: as duas colocam a administração pública de Coari, contratos e movimentação de recursos no centro das apurações.

Na Vorax, o MPF relatou um esquema de fraudes e desvios que resultou em condenações de 20 pessoas.

Na Dinastia do Lago, a PF ainda investiga se uma estrutura semelhante — ou relacionada a outros mecanismos — voltou a operar na administração municipal.

É justamente essa resposta que deverá emergir da investigação atual.

E a passeata?

A manifestação de sexta-feira acrescenta uma dimensão política ao caso.

Enquanto a Polícia Federal investiga contratos, dinheiro e possíveis vantagens indevidas, uma parte da população saiu às ruas para defender os políticos alcançados pela operação.

Isso pode representar simplesmente apoio político espontâneo.

Também pode refletir relações construídas durante anos de governo, identificação pessoal, gratidão por políticas públicas ou interesses econômicos.

E existe uma hipótese que merece ser investigada, mas não afirmada sem prova: a possibilidade de que redes de dependência econômica e administrativa contribuam para preservar a fidelidade política em torno de um grupo.

Para comprovar essa hipótese seriam necessários documentos e testemunhos.

Seria preciso examinar, por exemplo:

  • distribuição de empregos e nomeações;

  • contratos e fornecedores recorrentes;

  • critérios de concessão de benefícios;

  • atuação de lideranças comunitárias;

  • eventual transporte ou financiamento de manifestações;

  • mensagens e registros que indiquem convocação ou pressão;

  • denúncias de troca de benefícios por apoio;

  • concentração de contratos em grupos empresariais;

  • relações entre empresas contratadas e agentes políticos.

Sem esse cruzamento, qualquer conclusão seria apenas especulação.

O que a Justiça terá de responder

A Operação Dinastia do Lago ainda está em fase investigativa.

A Polícia Federal fala em possíveis crimes e possíveis relações entre agentes públicos, empresários e terceiros. Isso significa que as hipóteses ainda precisam ser comprovadas.

Adail Pinheiro e Adail Filho, assim como os demais investigados, têm direito à defesa e à presunção de inocência.

A defesa dos dois afirmou que a busca e apreensão não representa culpa nem comprovação de crime e que os investigados não possuem relação com os fatos apurados.

O avanço das investigações deverá esclarecer se houve efetivamente direcionamento de contratos, desvio de recursos, pagamento de vantagens indevidas ou lavagem de dinheiro e, principalmente, quem teria participado de cada eventual conduta.

A verdadeira dimensão do poder

A história de Coari mostra que o poder político não se mede apenas pelo número de votos obtidos em uma eleição. Ele também pode ser medido pela capacidade de um grupo sobreviver a derrotas, investigações, cassações, mudanças de governo e crises judiciais.

A família Pinheiro atravessou diferentes momentos da política municipal e voltou ao centro do poder. Agora, com a Operação Dinastia do Lago, essa estrutura volta a ser examinada.

A pergunta que permanece não é apenas quem venceu ou perdeu a próxima disputa eleitoral. É uma pergunta mais profunda:

Quando uma administração municipal controla uma parcela significativa dos empregos, contratos, serviços e benefícios de uma cidade, até onde vai a relação legítima entre governo e população — e onde começa uma estrutura de dependência capaz de transformar benefício público em instrumento de poder político?

A resposta não está em uma passeata.

Está nos documentos.

Nos contratos.

Nos pagamentos.

Nas nomeações.

Nos depoimentos.

E, sobretudo, nas provas que a investigação ainda terá de produzir.

Outro lado

A defesa de Adail Pinheiro e Adail Filho sustenta que a operação não representa comprovação de crime e afirma que os investigados exercerão seu direito de defesa.

A Operação Dinastia do Lago permanece em investigação. As acusações e hipóteses apuradas pelas autoridades ainda dependem da conclusão das diligências e das decisões judiciais correspondentes.

Todos os investigados devem ser considerados inocentes até eventual condenação definitiva.

A apuração documental reforça especialmente a parte histórica: o MPF confirma as 20 condenações da Operação Vorax e detalha os valores apontados como prejuízo, além de esclarecer que o processo relativo à participação de Adail Pinheiro teve tramitação separada. Já a PF e a CGU confirmam os elementos centrais da Operação Dinastia do Lago em setembro de 2026, incluindo os 29 mandados, a origem da investigação e os valores apreendidos.