Justiça

Amazonas

Caso Benício: Médica vendia maquiagem por mensagens enquanto menino morria em overdose de adrenalina

Investigação da Polícia Civil do Amazonas revela que Juliana Brasil negociou produtos de beleza e tentou usar vídeo adulterado para culpar sistema hospitalar por erro fatal.


Novas provas obtidas com exclusividade pela Rede Amazônica e pelo g1 detalham a conduta da médica Juliana Brasil durante o atendimento que resultou na morte de Benício Xavier, de 6 anos, em Manaus. Relatórios de extração de dados do celular da profissional revelam que ela vendia maquiagem por mensagens no exato momento em que a criança sofria uma overdose de adrenalina e lutava para respirar.
Benício morreu em 23 de novembro após dar entrada no Hospital Santa Júlia com sintomas leves. Segundo o inquérito, a médica prescreveu adrenalina pura diretamente na veia, uma dosagem e via inadequadas para o quadro de laringite. Após a aplicação feita pela técnica de enfermagem Raíza Bentes — que também é investigada —, o menino sofreu múltiplas paradas cardíacas.

Médica vendia maquiagem enquanto menino não conseguia respirar – Foto: Reprodução

Indiferença e negociações de beleza

As mensagens mostram que, às 15h47, enquanto Benício estava em estado crítico, Juliana discutia valores de produtos com uma amiga. “Sim, era 200, deixei 190 pra você”, escreveu a médica, chegando a enviar emojis e sua chave Pix para concluir a venda. Para o delegado Marcelo Martins, a conduta demonstra “dolo eventual” e “indiferença com a vida da vítima”.

Fraude processual e vídeo adulterado

Além da negligência no atendimento, a polícia afirma que Juliana tentou obstruir a justiça. A defesa apresentou um vídeo alegando que o sistema do hospital teria alterado automaticamente a via de administração do remédio. No entanto, a perícia do Instituto de Criminalística comprovou que o vídeo foi adulterado e que o sistema não apresentava falhas. A polícia agora investiga a participação da irmã da médica, Geovana Brasil, na manipulação das imagens.

O que dizem os envolvidos

  • Defesa de Juliana Brasil: Afirma que o vídeo é íntegro e foi gravado em outra unidade que utiliza o mesmo software. Negou pagamentos para adulteração, mas não se manifestou sobre as mensagens de venda de maquiagem.
  • Técnica de Enfermagem: Raíza Bentes alegou que apenas seguiu a prescrição médica e não questionou a dosagem.
  • Hospital Santa Júlia: O fundador da unidade declarou que existem protocolos de segurança e dupla checagem, mas que a enfermeira responsável pelo plantão não foi acionada pela equipe no momento do erro.
Atualmente, tanto a médica quanto a técnica de enfermagem estão afastadas de suas funções por decisão judicial por 12 meses. O pedido de prisão de Juliana Brasil foi negado pela Justiça do Amazonas, e o caso segue em investigação como homicídio qualificado doloso.

Cronologia do Caso Benício: Do Atendimento ao Erro Fatal

  • 13h30 | Entrada no Hospital: Benício Xavier (6 anos) dá entrada no Hospital Santa Júlia, em Manaus, com tosse seca e febre. O quadro é classificado como não grave na triagem.
  • 14h29 | A Aplicação Fatal: Seguindo a prescrição da médica Juliana Brasil, a técnica Raíza Bentes aplica adrenalina pura (não diluída) diretamente na veia da criança. O protocolo correto para o quadro seria outra via e dosagem.
  • 14h30 | Mal-estar Imediato: Segundos após a aplicação, Benício apresenta palidez, dor no peito e extrema dificuldade para respirar.
  • 14h37 | Médica no Celular: Juliana Brasil é chamada para socorrer o menino. Segundo a polícia, ela começa a usar o celular logo no início do atendimento crítico.
  • 15h47 | Venda de Maquiagem: Enquanto Benício luta pela vida em estado de overdose, a médica troca mensagens com uma amiga para vender produtos de beleza, oferecendo um desconto de R$ 10 via Pix.
  • 23 de Novembro | O Óbito: Após múltiplas paradas cardíacas causadas pela reação severa à medicação, Benício não resiste e morre na unidade hospitalar.
  • Pós-Incidente | Suspeita de Fraude: A investigação aponta que a médica teria encomendado a adulteração de um vídeo do sistema do hospital para tentar provar que o erro na prescrição foi uma falha automática do software.
  • Março de 2026 | Decisão Judicial: A Justiça do Amazonas nega o pedido de prisão de Juliana Brasil, mas mantém o afastamento dela e da técnica de enfermagem de suas funções por 12 meses.