
Pequenas pelotas de plástico, também chamadas de “lágrimas de sereia”, são mostradas encalhadas nas praias da Bretanha, França, em janeiro de 2023 – Foto: Fred Tanneau/AFP
Minúsculas, tóxicas e aparentemente inofensivas, as pelotas plásticas industriais conhecidas como nurdles — apelidadas de “lágrimas de sereia” — são hoje a segunda maior fonte de poluição por microplásticos no mundo. Centenas de milhares de toneladas dessas partículas, do tamanho de uma lentilha, vazam para o meio ambiente todos os anos, acumulando-se especialmente nos mares e costas ao redor do planeta.
O tema ganhou força nas negociações da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, onde representantes de 184 países tentam concluir um tratado global contra a poluição plástica. No entanto, com o tempo se esgotando e divisões profundas entre países produtores de petróleo e os defensores de medidas mais rígidas, as chances de conter essa forma de poluição em escala global permanecem baixas.
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Impacto global e ambiental
Em janeiro de 2023, as praias da Bretanha e da região do Loire, na França, foram palco de um desastre ambiental: ondas de nurdles começaram a chegar às costas, em meio a suspeitas de que um contêiner perdido no oceano havia causado o vazamento. Milhares de voluntários tentaram conter o dano, mas os pellets continuam a reaparecer com as marés e tempestades, revelando a dificuldade em remover esse tipo de poluente.
Produzidos a partir de derivados do petróleo, os nurdles são usados como matéria-prima na fabricação de produtos plásticos comuns, como garrafas, tampas, embalagens e até para-choques de automóveis. Uma vez no meio ambiente, eles não apenas persistem por séculos como também agem como “esponjas químicas”, absorvendo substâncias tóxicas como PCBs, PFAs e até bactérias como E. coli.

Um voluntário coleta as pelotas de plástico em uma praia na Bretanha em janeiro de 2023 – Foto: Loic Venance/AFP
Um “coquetel químico” que ameaça até a saúde humana
Além dos impactos ambientais, os nurdles também representam um risco direto à saúde humana. Por serem frequentemente ingeridos por peixes, mariscos e outras espécies marinhas — que entram na cadeia alimentar —, microplásticos já foram detectados no leite materno, no sêmen, no cérebro humano e até na medula óssea, segundo estudos recentes. Há indícios de que possam estar ligados a doenças cardiovasculares, entre outros problemas crônicos.
Estima-se que cerca de 445 mil toneladas de nurdles escapem para o meio ambiente a cada ano, com a maioria dos vazamentos ocorrendo em fábricas, áreas de armazenamento e transporte — e não necessariamente em grandes desastres marítimos, como o do navio X-Press Pearl, que pegou fogo na costa do Sri Lanka em 2021 e despejou bilhões de pellets no oceano.
Falta de regulação internacional e entraves políticos
Apesar dos danos, não existe hoje uma regulamentação internacional específica que trate da poluição causada pelos nurdles. A França saiu na frente, com uma legislação nacional aprovada em 2022 que obriga produtores a instalar filtros, vedar caminhões e adotar medidas de contenção. A União Europeia seguiu o exemplo e prepara sua própria regulação, a ser implementada até 2027.

Um homem pesca em uma praia poluída, repleta de pelotas de plástico trazidas pela água do navio porta-contêineres X-Press Pearl, em Kapungoda, Sri Lanka, em 4 de junho de 2021 – Foto: Eranga Jayawardena/AP
Já no cenário global, os avanços são tímidos. A Organização Marítima Internacional (OMI) passou a exigir, a partir de 2026, que capitães de navios relatem incidentes com contêineres vazados. No entanto, grupos de países como Arábia Saudita, Rússia e Irã pressionam para que o tratado da ONU se concentre apenas na gestão de resíduos, deixando a produção de plásticos fora da mesa de negociações.
Para especialistas, isso compromete a efetividade do tratado. “Se o tratado não aborda a produção, com toda a sinceridade, não está à altura da tarefa”, afirma Lisa Pastor, da Surfrider Foundation Europe, que acompanha as negociações em Genebra.

Praia do Vidro na California (EUA) é uma das praias que mais tem Lágrimas de Sereia no mundo – Foto: Santa Cruz/Sea Glass
Um problema crescente
A situação se agrava diante das projeções: segundo a OCDE, a produção global de plástico deve aumentar em 70% até 2040, enquanto os resíduos plásticos podem triplicar até 2060. Nesse ritmo, o tempo para frear a crise está se esgotando.
Enquanto isso, as “lágrimas de sereia” seguem derramando-se silenciosamente pelos oceanos — símbolo de um problema global que exige ação urgente, antes que o estrago seja irreversível.
