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Saúde

Inteligência artificial transforma a luta global contra o câncer e promete tratamentos mais precisos

Tecnologia já permite diagnósticos antecipados, personalização de terapias e criação de “pacientes virtuais”, apontam especialistas franceses.


Inteligência Artificial pode ajudar no diagnóstico e no tratamento de câncer – Foto: CryptoID

Celebrado em 4 de fevereiro, o Dia Mundial de Combate ao Câncer chama a atenção para um cenário desafiador: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de novos casos da doença deve saltar de 20 milhões, em 2022, para 35,3 milhões em 2050 — um aumento de 77%. Em meio a esse avanço preocupante, a inteligência artificial (IA) desponta como uma das principais apostas para transformar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes oncológicos.

Ferramentas baseadas em IA já permitem cruzar grandes volumes de dados clínicos, genéticos e demográficos, identificando pessoas com maior risco de desenvolver câncer e possibilitando intervenções mais precoces. Além disso, dispositivos conectados vêm ganhando espaço no monitoramento contínuo dos pacientes, otimizando o tempo das equipes médicas e melhorando a qualidade do cuidado.

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Um dos exemplos desse avanço está no Instituto Gustave Roussy, nos arredores de Paris, considerado um dos maiores centros de combate ao câncer do mundo. A instituição vem incorporando tecnologias de inteligência artificial à prática médica com o objetivo de colocar o paciente no centro de todo o processo de cuidado.

Segundo o diretor-geral do hospital, Fabrice Barlesi, a IA permite organizar a trajetória do paciente de forma mais integrada e eficiente. “A tecnologia ajuda a evitar que o paciente seja apenas um ponto de passagem entre diferentes especialistas. O objetivo é tornar o acompanhamento mais simples, personalizado e eficaz”, afirma.

O conceito de “paciente virtual”

No centro dessa transformação está a ideia do chamado “paciente virtual”. De acordo com Fabrice André, diretor de pesquisa do instituto, trata-se da reconstrução digital do paciente a partir de um amplo conjunto de informações — que incluem dados médicos, biológicos, genéticos, sociais e demográficos.

“Essa é a medicina do futuro. Reunimos todas essas informações em plataformas digitais capazes de representar virtualmente o paciente e sua doença”, explica André. A partir desse modelo, médicos podem simular cenários, avaliar riscos de recidiva e testar estratégias terapêuticas antes mesmo de aplicá-las na prática clínica.

O conceito vai além do ambiente digital. Em alguns casos, cientistas conseguem reproduzir tumores vivos em laboratório, permitindo testar medicamentos e identificar quais moléculas têm maior chance de sucesso contra tipos específicos de câncer. Isso amplia significativamente as possibilidades de tratamentos sob medida e aumenta as chances de sobrevida.

Apesar do avanço tecnológico, os especialistas ressaltam que a inteligência artificial não substitui o médico. “A IA não decide sozinha. Ela organiza, prioriza e interpreta o conhecimento disponível para apoiar o raciocínio clínico”, destaca André.

Dados, segurança e privacidade

O diretor-geral do instituto francês Gustave Roussy, Fabrice Barlesi, em coletiva de imprensa em Paris – Foto: Taíssa Stivanin RFI

Para viabilizar esse modelo, o Instituto Gustave Roussy desenvolveu um vasto banco de dados com informações anonimizadas de centenas de milhares de pacientes, incluindo dados moleculares em nível celular. Um dos desafios, segundo os pesquisadores, é padronizar a linguagem técnica da oncologia, que pode variar entre profissionais.

A proteção das informações dos pacientes também é tratada como prioridade. O hospital optou por não utilizar serviços externos de armazenamento em nuvem e criou regras internas rigorosas para o uso de ferramentas de IA. Nenhuma aplicação é utilizada sem validação institucional, e o acesso aos dados é supervisionado por um comitê de especialistas.

Atualmente, cerca de 40% dos pacientes atendidos no centro participam de estudos clínicos, contribuindo para o aprimoramento contínuo das bases de dados e para o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao câncer.

O câncer no mundo

Células cancerígenas – Imagem: depositphotos.com/vitanovsky

  • Antiguidade – Registros de tumores aparecem em papiros egípcios, como o Papiro de Edwin Smith.

  • Século XVIII – Avanços na anatomia patológica permitem melhor compreensão dos tumores.

  • Século XIX – Surgem as primeiras cirurgias oncológicas sistematizadas e estudos sobre metástases.

  • Década de 1940 – Introdução da quimioterapia moderna.

  • Décadas de 1970 e 1980 – Avanços na radioterapia e no entendimento genético do câncer.

  • Anos 2000 – Sequenciamento do genoma humano impulsiona terapias-alvo.

  • Década de 2010 – Imunoterapia revoluciona o tratamento de diversos tipos de câncer.

  • Anos 2020 – Inteligência artificial passa a ser integrada ao diagnóstico, à personalização de tratamentos e à pesquisa oncológica.

  • Projeção para 2050 – OMS estima mais de 35 milhões de novos casos anuais no mundo, reforçando a importância da inovação tecnológica e da prevenção.