
Anthony Fauci prestando juramento na comissão do Senado sobre as origens do vírus da covid-19 – Foto: Nathan Howard/REUTERS
O ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), Anthony Fauci, voltou ao centro da disputa política envolvendo a pandemia de Covid-19 ao comparecer, na última quarta-feira (29), a uma audiência da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado norte-americano. Convocado pelo senador republicano Rand Paul, Fauci recusou-se a responder a mais de uma centena de perguntas, invocando repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si mesma em eventual processo criminal.
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A audiência foi marcada por forte tensão entre republicanos e democratas e representa mais um capítulo da investigação conduzida por parlamentares conservadores sobre a atuação de Fauci durante a pandemia, especialmente em relação às orientações de saúde pública, às pesquisas financiadas pelo governo norte-americano e às investigações sobre a origem do coronavírus.
Fauci diz ser alvo de “obsessão”
Logo na abertura de seu depoimento, Fauci afirmou que a convocação tinha motivação política e acusou o senador Rand Paul de manter uma “obsessão” em tentar incriminá-lo.
Segundo o ex-assessor da Casa Branca, qualquer resposta dada sob juramento poderia ser utilizada para fundamentar acusações de falso testemunho, motivo pelo qual seus advogados recomendaram o uso da Quinta Emenda.
“Embora isso me cause desconforto, por respeito ao Congresso e à minha longa trajetória de colaboração com esta instituição, seguirei a orientação de meus advogados”, declarou Fauci durante a sessão.
Ao todo, o ex-diretor do NIAID utilizou a proteção constitucional mais de 100 vezes durante o interrogatório, recusando-se a responder questionamentos relacionados às políticas adotadas durante a pandemia e às investigações sobre a possível origem laboratorial do vírus.
Republicanos ameaçam responsabilização
O presidente da comissão, senador Rand Paul, afirma há anos que Fauci omitiu informações ao Congresso e à população norte-americana sobre pesquisas envolvendo coronavírus financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), especialmente projetos desenvolvidos em colaboração com laboratórios na cidade chinesa de Wuhan.
Após a audiência, Paul anunciou que pretende buscar uma responsabilização do ex-funcionário federal, incluindo a possibilidade de encaminhar um pedido de abertura de processo por desacato ao Congresso (Contempt of Congress), caso entenda que a invocação da Quinta Emenda não era juridicamente válida diante do perdão presidencial recebido por Fauci.
Especialistas em direito constitucional, entretanto, avaliam que a discussão ainda deverá ser analisada pelos tribunais norte-americanos, uma vez que permanece controversa a possibilidade de alguém beneficiado por um perdão presidencial continuar invocando o direito constitucional de permanecer em silêncio para evitar eventual acusação de perjúrio ou outras infrações decorrentes de novo depoimento.
Perdão concedido por Biden está no centro do debate
Antes de deixar a Presidência, Joe Biden concedeu um perdão preventivo a Anthony Fauci para protegê-lo de eventuais processos relacionados aos atos praticados entre 2014 e janeiro de 2025 durante o exercício de suas funções públicas.
O benefício, porém, não impede eventual responsabilização por declarações falsas prestadas posteriormente sob juramento, razão pela qual a defesa do ex-diretor do NIAID considerou prudente recomendar o silêncio durante praticamente toda a audiência.
Trump volta a atacar Fauci
Durante o depoimento, o presidente Donald Trump voltou a criticar Fauci em publicações na rede social Truth Social.
Trump afirmou que o ex-conselheiro de saúde “sempre tentou proteger a China” nas investigações sobre a origem da Covid-19 e voltou a classificá-lo como responsável por decisões equivocadas tomadas durante a pandemia.
As declarações reforçam a polarização política em torno da gestão da crise sanitária, tema que continua mobilizando o Congresso norte-americano anos após o fim da emergência internacional provocada pelo coronavírus.
Cientistas saem em defesa do infectologista
Enquanto parlamentares republicanos endurecem o discurso, mais de 150 cientistas e pesquisadores divulgaram uma carta pública defendendo Anthony Fauci e criticando as acusações apresentadas durante a audiência.
Segundo o documento, não há evidências que comprovem que Fauci tenha cometido irregularidades ou mentido deliberadamente sobre a condução da resposta científica à pandemia. Os pesquisadores afirmam que as acusações fazem parte de um processo de politização da ciência e alertam para os impactos que isso pode gerar na confiança da população nas instituições de saúde pública.
Debate sobre a origem da Covid-19 permanece aberto
A audiência também reacendeu o debate sobre a origem do SARS-CoV-2. Embora a hipótese de vazamento laboratorial continue sendo investigada por diferentes órgãos do governo americano, ainda não existe consenso científico definitivo sobre a origem do vírus.
Parte da comunidade científica sustenta que a transmissão natural entre animais e seres humanos continua sendo uma hipótese plausível, enquanto outros especialistas defendem que a possibilidade de um acidente laboratorial ainda não pode ser descartada, mantendo o tema entre os principais focos das investigações internacionais.
Ivermectina e cloroquina também voltaram ao centro do debate
Durante a audiência, parlamentares republicanos também retomaram discussões sobre medicamentos que marcaram os primeiros anos da pandemia, entre eles a ivermectina e a cloroquina (ou hidroxicloroquina). As substâncias foram defendidas por alguns médicos, autoridades e grupos políticos como possíveis tratamentos para a Covid-19, enquanto outras autoridades de saúde recomendaram que seu uso ficasse restrito a estudos clínicos ou às indicações já aprovadas para outras doenças.
Ao longo da pandemia, diversos estudos foram publicados para avaliar a eficácia desses medicamentos. Posteriormente, revisões sistemáticas e grandes ensaios clínicos não encontraram evidências consistentes de benefício para o tratamento ou prevenção da Covid-19. Com base nesse conjunto de estudos, organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e outras entidades passaram a não recomendar o uso rotineiro de ivermectina e hidroxicloroquina para tratar a doença, exceto em situações específicas de pesquisa clínica.
Apesar disso, o tema continua sendo motivo de debate político nos Estados Unidos. Críticos de Anthony Fauci afirmam que autoridades federais descartaram precocemente tratamentos que consideravam promissores, enquanto Fauci e outros especialistas sustentam que as recomendações oficiais foram atualizadas de acordo com as evidências científicas disponíveis à medida que novos estudos eram publicados. A divergência permanece como um dos pontos de maior polarização na avaliação da resposta à pandemia.
Próximos passos
A comissão presidida por Rand Paul deverá avaliar nas próximas semanas se encaminhará um pedido formal de responsabilização contra Anthony Fauci. Caso isso ocorra, o processo ainda dependerá de votação no Senado e de eventual atuação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Juristas afirmam que um eventual processo poderá abrir um importante precedente sobre os limites da Quinta Emenda, do perdão presidencial e dos poderes investigativos do Congresso norte-americano, transformando o caso em um dos mais relevantes debates constitucionais do país desde o fim da pandemia.
