
Do projeto acadêmico dos Grimm, nasceram os personagens dos contos que povoam o imaginário infantil há mais de 200 anos – Imagem/Reprodução
Quando se fala em Irmãos Grimm, a imagem que surge imediatamente é a de personagens como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Rapunzel e Cinderela. No entanto, uma nova biografia demonstra que Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) tiveram uma contribuição muito mais ampla do que a simples reunião de histórias infantis.
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Lançado no Brasil pela Editora Amarilys, o livro “Irmãos Grimm: Uma Biografia”, da pesquisadora norte-americana Ann Schmiesing, apresenta um amplo panorama da vida dos dois intelectuais alemães e revela como eles participaram da construção da identidade cultural da Alemanha durante um dos períodos mais turbulentos da Europa, marcado pelas Guerras Napoleônicas e pelas transformações políticas e sociais do século XIX.
Professora de Estudos Germânicos e Escandinavos da Universidade do Colorado Boulder, Schmiesing baseou sua pesquisa em documentos históricos, correspondências e décadas de estudos acadêmicos para reconstruir a trajetória dos irmãos, frequentemente ofuscada pela fama universal dos contos que ajudaram a eternizar. A obra é considerada a primeira grande biografia em língua inglesa dedicada aos Grimm em mais de cinco décadas e foi reconhecida internacionalmente após seu lançamento original em 2024.
Embora a coletânea “Contos maravilhosos infantis e domésticos”, publicada inicialmente entre 1812 e 1815, seja hoje associada ao universo infantil, sua proposta original era bastante diferente. O objetivo dos irmãos era registrar narrativas populares transmitidas oralmente para evitar que desaparecessem diante das profundas mudanças provocadas pela industrialização e pelas guerras que remodelavam a Europa.
O projeto acabou se tornando um dos livros mais influentes da história. Traduzido para cerca de 170 idiomas, o conjunto de contos foi reconhecido pela UNESCO, em 2005, como parte do programa Memória do Mundo, destinado à preservação do patrimônio documental da humanidade.
Muito além da literatura infantil
A biografia destaca que Jacob e Wilhelm exerceram diversas atividades ao longo da vida. Foram bibliotecários, pesquisadores, filólogos, estudiosos da mitologia germânica e importantes nomes da linguística.
Jacob Grimm ficou conhecido internacionalmente pela chamada Lei de Grimm, princípio que explica mudanças fonéticas ocorridas na evolução das línguas indo-europeias e considerado um dos pilares da linguística histórica moderna. Seu trabalho ajudou a consolidar essa área como disciplina científica.
Outro empreendimento monumental dos irmãos foi o Dicionário Alemão, iniciado em 1838. A proposta ia muito além de definir palavras: pretendia registrar a origem, o significado e a evolução histórica do vocabulário alemão. A obra somente seria concluída por outros estudiosos em 1961, quase um século após a morte de Jacob.
Contos populares transformados pela literatura
A pesquisa também desmonta algumas ideias difundidas ao longo do tempo sobre a origem dos contos.
Ao contrário do imaginário popular, Jacob e Wilhelm não inventaram personagens como Cinderela, Rapunzel ou Chapeuzinho Vermelho. Muitas dessas histórias já circulavam pela tradição oral europeia e algumas haviam sido registradas anteriormente por escritores como o francês Charles Perrault, no século XVII.
Os Grimm recolheram diferentes versões dessas narrativas, compararam relatos, editaram textos e adaptaram a linguagem, transformando histórias populares em uma obra literária que preservava elementos do folclore alemão.
Outro aspecto revelado pelos estudos recentes é que boa parte das histórias não foi recolhida diretamente de camponeses, mas narrada por mulheres instruídas pertencentes à classe média e à burguesia, que conheciam essas tradições familiares.
Das histórias sombrias aos livros infantis
As primeiras edições dos contos apresentavam cenas de violência, vingança e referências consideradas inadequadas para crianças pelos padrões atuais.
Ao longo das sucessivas revisões realizadas principalmente por Wilhelm Grimm, a coletânea passou por profundas alterações. Trechos de conotação sexual foram eliminados, cenas excessivamente violentas foram suavizadas e personagens sofreram mudanças para adequar as histórias aos valores familiares predominantes na sociedade do século XIX.
Em diversas narrativas, mães biológicas deram lugar às madrastas como antagonistas, enquanto elementos religiosos passaram a aparecer com maior frequência, reforçando mensagens de moralidade, culpa e recompensa.
Essas modificações contribuíram para que os livros alcançassem um público cada vez maior e fossem incorporados definitivamente ao universo da literatura infantil.
Um legado que atravessa gerações
Mais de duzentos anos após sua publicação, os contos dos Irmãos Grimm continuam inspirando livros, filmes, séries, peças teatrais e adaptações produzidas em diferentes países.
Personagens como Branca de Neve, Rapunzel e João e Maria ganharam inúmeras releituras, especialmente após as adaptações cinematográficas da Disney, que suavizaram diversos elementos das versões originais para aproximá-las do público infantil.
Ao mesmo tempo, pesquisadores destacam que o verdadeiro legado de Jacob e Wilhelm Grimm vai muito além dos contos de fadas. Seus estudos ajudaram a preservar tradições populares, impulsionaram pesquisas sobre folclore, influenciaram a linguística moderna e contribuíram para consolidar parte da identidade cultural alemã, tornando os irmãos referências permanentes na história da literatura e das ciências humanas.
