
A autora Gloria Perez – Foto: Sérgio Zalis/Divulgação
A consagrada autora de novelas Gloria Perez fez duras críticas ao atual cenário da teledramaturgia brasileira, afirmando que a censura moral imposta pela cultura “woke” ultrapassa até mesmo os tempos da ditadura militar. Em entrevista recente, Perez denunciou que as obras de ficção estão sendo engessadas por um clima de vigilância social extrema, onde qualquer tema sensível pode ser vetado para não desagradar determinados grupos.
A assinatura pode ser vista em enredos como “O Clone”, “América” e “Caminho das Índias”, que venceu o Emmy Internacional, em 2009. “No contexto atual, essas novelas nem chegariam ao público”, diz. “Foram tramas inovadoras, e inovar pressupõe correr riscos.”
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Perez discorda. “Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos”, afirma. “Hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma novela sem conflito”, elemento que considera a espinha dorsal do gênero.
Perez entrou na Globo em 1979, como pesquisadora do departamento de teledramaturgia. Em 1983, colaborou com Janete Clair na novela “Eu Prometo”, antes de começar a tecer sua obra. Em abril, veio a público que os laços com a emissora haviam sido rompidos, três anos após “Travessia”, que sofreu diversas críticas e amargou uma audiência ruim para a faixa das nove. “Essa novela foi implodida por dentro”, diz a autora. “Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi.”
Comparando a vigilância moral no período militar com a atual

A autora de novelas Gloria Perez – Foto: Rogerio Ehrlich
A preocupação em não desagradar o público teria feito com que a censura moral sobre a teledramaturgia, hoje, se tornasse pior que a da ditadura militar.
Glória Perez ainda se lembra dos vetos da censora Solange Hernandes, a chamada “dama da tesoura”. “Agora nós temos uma multiplicidade de Solanges. Nas redes, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente”, afirma a novelista. “Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior.”
“Na época, era ela (Solange Hernandes) quem mandava cortar as coisas. Só que agora nós temos uma multiplicidade enorme de “Solanges”. Nas redes sociais, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente, julgando o outro e tentando cassar a palavra alheia. Não era assim. Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior.”
“Hoje cada pessoa virou uma Solange Hernandes”, disse a autora, em referência à famosa censora do regime militar. Para ela, o medo de tocar em temas polêmicos, associado à pressão das redes sociais, acabou criando uma nova forma de censura — mais difusa e, segundo ela, ainda mais opressora.
Gloria, que coleciona sucessos como O Clone, Caminho das Índias e Salve Jorge, revela que seu último trabalho na TV Globo, Travessia, foi sabotado internamente. “Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi. Aquela novela foi implodida de dentro para fora”, afirmou, sem entrar em muitos detalhes, mas deixando claro que a interferência prejudicou a essência da obra.
Reação a morte de Guilherme de Pádua, que assassinou a sua filha, Daniella Perez, em 1992
Tive uma reação estranha. Não senti nada. Recebi esse fato com a alma e o coração em branco. Era uma pessoa que já tinha morrido havia muito tempo para mim.
Eu sabia que a minha filha seria assassinada de novo todos os dias se não tivesse ninguém para a defender. Quem pode defender o filho, antes de mais nada, é a mãe. Por isso, era preciso preservar a lucidez. Por esse motivo, continuei a escrever “De Corpo e Alma” [na qual Daniella atuava quando foi morta]. A novela me obrigava a ter um foco.

Daniella Perez e Glória Perez (Imagem: Reprodução / Instagram)
Foi isso o que eu fiz. Cada palito era um capítulo que eu continuei escrevendo. Tem momentos em que você não pode se deixar no vazio, se não você cai. Se eu caísse, minha filha cairia junto.
A gota d’água para sua saída da emissora foi o veto ao seu novo projeto, Rosa dos Ventos, que abordaria temas como o aborto e teria teor político. Segundo Gloria, a emissora tem evitado polêmicas por receio de represálias. “A cultura ‘woke’ introduziu um cerceamento à imaginação. Essa tentativa de não ofender ninguém acabou matando o conflito, que é a espinha dorsal da novela. A dramaturgia foi amputada.”
Ela defende que a função da novela sempre foi provocar reflexões, e lamenta que, hoje, autores estejam sendo silenciados por pressões externas. “Existem talentos, mas eles estão sendo engessados.”
Mesmo após sua saída da Globo, Gloria Perez afirma que não está aposentada e estuda novas propostas, inclusive fora da TV tradicional. Mas avisa: só voltará a escrever se puder fazer isso com liberdade total. “Ou eu tenho liberdade para voar, ou não tenho liberdade nenhuma.”
Com informações de Matheus Rocha/Folha de São Paulo
