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Estilista brasileira exalta moda da África para reconquistar juventude local

Nas grandes cidades africanas é possível ver, cada vez mais, pessoas nas ruas usando réplicas de roupas e acessórios de famosas grifes ocidentais, jeans, moletons, bolsas, entre outros. Produtos originais também são encontrados, mas os falsos são mais baratos e, com isso, mais populares. Peças coloridas consideradas tradicionais do continente africano são menos procuradas pelos mais jovens, fato que a estilista brasileira Rita Cazergues lamenta: “Os africanos são coloridos, são alegres e a moda africana tem uma história”, frisou.


Por mais características em comum que se possa ter, “tecido africano” não é tudo igual. Há estampas que representam etnias, passam certas mensagens. Durante a entrevista, ela reforçou que as pessoas precisam dar mais valor ao trabalho dos africanos. “Valorizar a moda africana, os tecidos africanos. A moda africana não é só aquele tecido enrolado na cabeça ou no corpo das africanas. Eu falo moda africana: colares, joias, vestido de gala”, completou.

Segundo a estilista, essa valorização precisa também ser disseminada entre os locais. “Os africanos têm um pouco de preconceito”, diz a brasileira, que prega a ideia de uma “moda consciente” ao criticar a indústria da pirataria. “Você vê na rua essas camisetas com todas essas marcas (estampadas), mas que você vê que não são feitas no país, que vêm não se sabe de onde, como foram feitas, o (tipo de) material”, ressaltou. A estilista é enfática ao bater na mesma tecla pelo apreço de produtos feitos localmente e da estima da mão de obra. “Uma moda feita com carinho, uma moda feita com boas energias. Isso é muito importante. Moda não é só brilhar, (moda) marca”, disse.

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Desde o ano passado ela vive em Maputo, capital de Moçambique. Nos últimos 17 anos – desde que se mudou para o continente africano – a brasileira também já morou na República Democrática do Congo e em Angola, que foi primeiro país da África para onde se mudou depois que se casou com um executivo francês de uma grande montadora de veículos. Nascida em Guaxupé, interior de Minas Gerais, Rita aprendeu a costurar com uma tia. Cresceu desenhando as próprias fantasias para os tradicionais bailes de carnaval e sendo chamada pela mãe de “diferente”. Ela fez seus estudos universitários em Ciências Contábeis, e chegou a trabalhar na área de recursos humanos. Mas abandonou a carreira para acompanhar o marido, que a preveniu sobre mudar de país constantemente, por conta do trabalho. No entanto, Rita sabia que não ficaria de braços cruzados.

A estilista brasileira Rita Cazergues com parte da equipe de profissionais – Foto: Arquivo pessoal

Em 2006, recém-chegados em Luanda, capital angolana, ela precisou fazer o próprio vestido para ir a um casamento. E foi, então, apresentada aos tecidos vendidos localmente. A roupa criada por ela para o casamento fez tanto sucesso que Rita acabou posteriormente criando a própria marca, na qual oferece peças exclusivas e coloridas. Figuras importantes como a princesa Stéphanie de Mônaco já usaram as criações da brasileira, que não considera o que faz uma apropriação cultural.

“Eu estou hoje em Maputo, eu gosto das cores, sou brasileira. Têm as minhas raízes, as influências, aquela coisa que a gente nunca vai poder dizer que não existe dentro da gente. As coisas que eu faço são diferenciadas e eu posso juntar esse meu lado brasileiro, europeu com África e por isso eu nunca enfrentei esse tipo de problema”, disse.

Rita tem atualmente um time de dez pessoas fabricando as roupas e acessórios que ela desenha, sendo na maioria homens. “Eu acho que o homem tem aquele amor, aquela paixão por aquilo que ele faz. Tem homem que os olhos deles brilham quando ele vê aquela peça naquela manequim, porque ele faz com tanto amor, com tanta paixão. Para mim é uma coisa muito importante. Eu gosto de trabalhar com homens”, destacou.

Contudo, no dia a dia às vezes ela enfrenta desafios por conta do machismo de uma região ainda bastante patriarcal. “Eu tive um único problema na minha vida com um (funcionário) homem. Na verdade, os homens não gostam muito de serem comandados pelas mulheres”, enfatiza, contando que já chegou a dar orientações aos costureiros que insistiam em querer fazer o trabalho do jeito que queriam.

A brasileira também comenta da tendência de uma mudança de comportamento com os artesãos que atualmente trabalham com ela, eles agora são mais jovens. “Eu acho que eles são diferentes. A mentalidade é outra. É mais fácil lidar com eles agora do que com os antigos”, comparou. Rita contou que também contrata mulheres, mas para trabalhos menores, como a confecção de bordados e bijuterias. Atividades que podem ser realizadas em casa, sem que as mães precisem se separar dos seus filhos.

A menina que sonhava com a Europa se tornou uma mulher que viu sua vida tomar outro rumo ao casar com um europeu, mas a mudança para a África, um continente diverso pelo qual ela se mostra apaixonada, ao contrário de muitos amigos que ainda se guiam por estereótipos. “ A África é maravilhosa, as pessoas, o ser humano. Eu amei o Congo, amei Angola, amo Moçambique. E eu dou um conselho: a gente tem que ver para crer, tem que viajar para descobrir”, finalizou.

Com informações de Vinícius Assis, correspondente da RFI em Joanesburgo