Cultura

Manaus

Cemitério São João Batista vira cenário histórico para exibição de filmes sobre Ária e Etelvina em Manaus

Obras do cineasta Cleinaldo Marinho unem memória, arte e denúncia da violência contra a mulher em sessão inédita na capital amazonense.


Cleinaldo Marinho e os artistas que participaram das produções – Fotos: Portal MZM/Patrick Jr

O Cemitério São João Batista, um dos espaços históricos mais simbólicos de Manaus, tornou-se palco de uma experiência cinematográfica inédita na última semana com a exibição dos filmes “Ária – Fazendo a Vida Viver” e “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia”, dirigidos pelo cineasta amazonense Cleinaldo Marinho.

A sessão especial reuniu admiradores da cultura amazonense, artistas, pesquisadores e devotos de Santa Etelvina em uma noite marcada pela emoção, memória coletiva e reflexão sobre a violência contra a mulher. O evento também teve caráter beneficente, com arrecadação de alimentos destinados à Associação Mulheres Negras no Amazonas.

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A programação seguiu uma linha cronológica, começando pelo curta “Ária – Fazendo a Vida Viver”, obra que revive a história da violinista Ária Ramos, assassinada durante um baile de Carnaval no Ideal Clube, em fevereiro de 1915 — episódio frequentemente associado ao fim simbólico da chamada Belle Époque amazonense e ao declínio do ciclo da borracha.

Com fotografia e direção de arte elogiadas pelo público, o filme recria a atmosfera da antiga “Paris dos Trópicos”, resgatando a beleza arquitetônica e cultural de uma Manaus marcada pelo luxo e pela efervescência artística do início do século XX. Figurinos, trilha sonora e atuações reforçam o tom sensível da narrativa.

Na sequência, o público acompanhou “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia”, documentário inspirado no assassinato de Etelvina de Alencar, ocorrido em 1901, na Colônia Campos Sales. Morta pelo ex-namorado, Etelvina tornou-se, ao longo das décadas, uma das figuras de maior devoção popular em Manaus.

O filme alterna dramatizações e depoimentos reais de fiéis, criando uma narrativa híbrida entre ficção, memória e religiosidade popular. Mais de 60 relatos foram reunidos para a produção, reforçando o impacto da personagem na cultura amazonense.

A escolha do Cemitério São João Batista para a exibição não foi apenas estética. As duas personagens retratadas estão sepultadas no local, o que ampliou o simbolismo da sessão. Tombado como Patrimônio Histórico do Estado, o espaço recebeu estrutura especial de limpeza e organização para acolher o público.

Sepultura de Ária Ramos e a Sepultura de Etelvina – Fotos: Patrick Jr.

“A arte e a cultura têm o poder de transformar um espaço de luto em um espaço de escuta, de converter a ausência em presença e o silêncio em voz”, destacou o diretor Cleinaldo Marinho durante o evento.

Além do impacto histórico e social, espectadores destacaram cenas de forte carga poética e visual nas produções, especialmente em “Etelvina”, considerada por muitos uma das obras mais marcantes já realizadas no cinema amazonense contemporâneo.

As produções receberam apoio por meio da Lei Paulo Gustavo. “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia” contou com incentivo do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), enquanto “Ária – Fazendo a Vida Viver” recebeu apoio do Governo do Estado do Amazonas, Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Ministério da Cultura e Governo Federal.

À frente da produtora CM ArteCultura & Produções, Cleinaldo Marinho é reconhecido por trabalhos voltados à valorização da memória, identidade e patrimônio cultural do Amazonas. Entre suas produções também está o espetáculo “Ritmos de Inquieta Alegria”, inspirado na trajetória da poetisa Violeta Branca, primeira mulher a integrar a Academia Amazonense de Letras.